Repressão política, déficit fiscal, baixas crescentes, apoio norte-coreano e retração naval revelam uma potência ainda capaz de escalar o conflito, mas obrigada a concentrar recursos e consumir suas margens de segurança.
Por Redação DefesaNet
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(RDN) A Rússia atravessa uma etapa de compressão estratégica na qual a preservação do esforço de guerra contra a Ucrânia exige a mobilização crescente dos instrumentos militares, econômicos e coercitivos do Estado. O país não se encontra diante de um colapso iminente, tampouco perdeu a capacidade de ampliar operações, produzir armamentos ou exercer pressão sobre seus adversários.
O que se observa é uma progressiva redução das margens disponíveis para sustentar simultaneamente a guerra, a estabilidade econômica, o consumo interno, o pluralismo político e a projeção militar em outros teatros.
A exclusão do único partido russo registrado que defendia abertamente o fim da guerra, a ampliação da perseguição contra críticos residentes no exterior, o aumento do déficit público, o uso de reservas de ouro, as dificuldades de recrutamento, a incorporação de militares e munições norte-coreanas e a interrupção da presença naval permanente no Mediterrâneo não constituem fatos isolados. Em conjunto, formam o retrato de uma potência que ainda conserva capacidade de coerção, mas precisa concentrá-la cada vez mais.
A questão central, portanto, não é saber se Moscou pode continuar a guerra. Pode. O ponto decisivo é determinar por quanto tempo poderá fazê-lo sem comprometer de maneira estrutural sua autonomia econômica, sua disponibilidade de recursos humanos, sua presença internacional e a estabilidade política construída pelo Kremlin.
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O fechamento do espaço político interno
A decisão do Supremo Tribunal russo de impedir a participação do partido Yabloko nas eleições parlamentares de setembro possui importância política superior ao seu efeito eleitoral imediato. A legenda, que defendia um cessar-fogo e uma saída negociada para a guerra, dispunha de representação regional limitada e não representava ameaça concreta à maioria controlada pelo Rússia Unida.
Segundo a Reuters, a exclusão foi fundamentada em acusações de recebimento de apoio estrangeiro não declarado, contestadas pelo partido. O Yabloko anunciou que recorreria da decisão. Mesmo que o recurso produza alguma alteração jurídica, o episódio demonstra que o sistema político russo já não pretende oferecer espaço institucional significativo para uma plataforma eleitoral identificada com o encerramento da guerra.
O Kremlin não precisa apenas vencer eleições. Precisa impedir que o processo eleitoral se transforme em instrumento capaz de medir, agregar ou tornar publicamente visível a insatisfação com o conflito. A eliminação de uma alternativa antiguerra, ainda que eleitoralmente fraca, reduz a possibilidade de converter desconforto social em expressão política organizada.
Esse fechamento também alcança cidadãos russos residentes no exterior. Uma nova legislação assinada pelo presidente Vladimir Putin autoriza restrições contra pessoas condenadas ou punidas administrativamente na Rússia, inclusive por acusações relacionadas à “desacreditação” das Forças Armadas, colaboração com organizações consideradas indesejáveis ou descumprimento de determinações impostas a indivíduos classificados como “agentes estrangeiros”.
As medidas podem incluir bloqueio de contas, limitações sobre imóveis e veículos, suspensão de determinados serviços estatais e restrição ao atendimento consular, inclusive para renovação de documentos. Embora os afetados formalmente preservem a cidadania, críticos da legislação descrevem o mecanismo como uma forma de “morte civil”, porque limita o exercício prático de direitos associados à condição de cidadão.
A coerção, nesse caso, ultrapassa as fronteiras territoriais. O Estado russo utiliza documentação, patrimônio, contas bancárias e vínculos familiares remanescentes no país como instrumentos de pressão sobre jornalistas, ativistas e opositores exilados. O objetivo não parece ser apenas punir dissidentes, mas impedir que o exílio proporcione um ambiente seguro para a formação de uma oposição politicamente articulada.

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Economia de guerra e deterioração das margens fiscais
A economia russa demonstrou capacidade de adaptação superior às projeções mais pessimistas formuladas no início da guerra. Moscou redirecionou exportações energéticas, ampliou relações com mercados asiáticos, substituiu parte das importações, fortaleceu a indústria militar e utilizou o gasto público para sustentar produção e emprego.
Essa resiliência, entretanto, não elimina os custos. Ela os redistribui.
A expansão da produção militar pode coexistir com crescimento econômico nominal, enquanto o consumo civil, a oferta de crédito, os investimentos não militares e o poder de compra das famílias se deterioram. O aumento da atividade industrial, quando impulsionado por munições, veículos militares, drones e reparos de equipamentos destruídos, não produz necessariamente melhora equivalente no bem-estar da população.
O encarecimento das férias oferece um indicador dessa pressão. Dados divulgados por empresas do setor turístico apontaram redução nas reservas de hotéis, aumento de cancelamentos e queda do movimento em destinos domésticos tradicionais. No Lago Baikal, um dos principais polos turísticos russos, o número de visitantes teria recuado diante da elevação dos preços de transporte, hospedagem e alimentação.
O turismo não constitui, isoladamente, evidência de crise sistêmica. Trata-se, porém, de um sinal relevante sobre a redução da renda discricionária das famílias. Em uma economia progressivamente orientada para a guerra, o Estado pode preservar setores considerados estratégicos ao mesmo tempo que transfere inflação, juros elevados e perda de consumo para a sociedade.
A pressão mais significativa está no orçamento federal. O déficit acumulado nos primeiros sete meses de 2026 teria alcançado aproximadamente 6,45 trilhões de rublos, equivalente a cerca de 2,8% do Produto Interno Bruto. O crescimento das despesas superou a expansão das receitas, em um cenário no qual o gasto militar permanece elevado e as receitas energéticas enfrentam descontos, dificuldades logísticas e oscilações do preço internacional do petróleo.
A Rússia continua sendo uma grande produtora e exportadora de energia. Em julho, a produção de petróleo e condensado voltou a superar 9 milhões de barris diários, favorecida por exportações firmes e pela recuperação parcial da atividade das refinarias. A manutenção desse volume, contudo, depende da capacidade de proteger instalações, contornar restrições comerciais e administrar os danos provocados por ataques ucranianos de longo alcance.
A venda de ouro para auxiliar na cobertura do déficit deve ser interpretada nesse contexto. O movimento não significa insolvência nem esgotamento imediato das reservas russas. Moscou ainda dispõe de ativos, receitas energéticas, capacidade tributária e instrumentos para emitir dívida doméstica. O uso do ouro mostra, entretanto, que o esforço de guerra já não depende apenas das receitas correntes. Ele começa a consumir, em ritmo crescente, os amortecedores financeiros acumulados para enfrentar crises futuras.
Quanto mais tempo esse processo durar, menor será a capacidade russa de absorver simultaneamente quedas nas receitas do petróleo, novas sanções, despesas de reconstrução, perdas industriais e eventual necessidade de ampliar ainda mais o orçamento militar.
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Baixas elevadas e o limite político do recrutamento
A disponibilidade de pessoal tornou-se um dos pontos mais sensíveis da estratégia russa. A dimensão demográfica do país, sua capacidade de oferecer incentivos financeiros e a prioridade atribuída à guerra permitem manter o fluxo de combatentes. O problema está na relação entre recrutamento, treinamento, baixas e qualidade das forças enviadas ao front.
Os números devem ser tratados com cautela. Em ambiente de guerra, Rússia, Ucrânia e governos ocidentais empregam metodologias diferentes e possuem interesses evidentes na disputa informacional. Estatísticas divulgadas publicamente frequentemente misturam mortos, feridos, desaparecidos, incapacitados e militares que retornaram ao serviço.
O Center for Strategic and International Studies estimou que as forças russas sofreram aproximadamente 1,4 milhão de baixas — incluindo mortos, feridos e desaparecidos — entre fevereiro de 2022 e junho de 2026. Para 2026, o instituto calculou uma média mensal entre 30 mil e 34 mil baixas, diante de um recrutamento aproximado de 27 mil novos integrantes por mês.
Essas cifras não podem ser apresentadas como contabilidade definitiva. A tendência, contudo, é mais importante do que a exatidão absoluta. Caso as perdas estejam superando de forma recorrente a incorporação de efetivos, a Rússia terá de ampliar incentivos, reduzir padrões de seleção, aumentar o recrutamento de estrangeiros, recorrer novamente a contingentes mobilizados ou aceitar uma deterioração gradual da capacidade das unidades.
O Kremlin conseguiu até agora preservar os principais centros urbanos dos efeitos mais intensos da mobilização. A maior parcela do recrutamento foi direcionada para regiões economicamente menos favorecidas, minorias étnicas, detentos, trabalhadores estrangeiros e voluntários atraídos por pagamentos muito superiores à renda local.
Essa política reduz o custo político imediato, mas possui limites. Quanto mais difícil se torna substituir as baixas, maior é a necessidade de elevar os bônus de alistamento ou ampliar o recrutamento para segmentos sociais até então parcialmente protegidos. Uma nova mobilização em larga escala poderia fornecer efetivos, mas também levar a guerra para dentro da vida cotidiana das grandes cidades, aumentando o risco de insatisfação.

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Pyongyang e a internacionalização do esforço militar russo
A cooperação com a Coreia do Norte é uma das manifestações mais claras da adaptação russa. Moscou recebe munições, mísseis, trabalhadores e contingentes militares; Pyongyang obtém receitas, apoio diplomático, acesso potencial a tecnologia e experiência de combate em um conflito de alta intensidade.
Rússia e Coreia do Norte confirmaram em 2025 que militares norte-coreanos haviam combatido na região russa de Kursk. Estimativas ucranianas e sul-coreanas indicaram o envio inicial de aproximadamente 14 mil a 15 mil soldados.
As informações mais recentes sobre o possível emprego de outros 30 mil ou 50 mil militares devem ser tratadas como estimativas atribuídas ao governo ucraniano. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que novos contingentes estariam sendo preparados, mas não apresentou publicamente todos os elementos de inteligência utilizados para sustentar o cálculo. A informação representa um alerta plausível, embora ainda não constitua confirmação independente da dimensão final do destacamento.
A mesma cautela vale para os mísseis balísticos norte-coreanos. Kyiv afirma ter identificado armamentos dessa origem nos ataques recentes contra Zaporizhzhia e outras regiões. Moscou não confirmou o emprego. A alegação é consistente com a cooperação militar já documentada, mas precisa permanecer claramente atribuída às autoridades ucranianas.
A incorporação de recursos norte-coreanos não significa que a Rússia tenha perdido sua capacidade de produzir armamentos. Sua indústria continua fabricando grandes quantidades de drones, mísseis e munições. O fornecimento externo permite complementar estoques, aumentar o volume de ataques e preservar parte da produção doméstica.
A dependência estratégica começa quando esse apoio deixa de ser apenas conveniente e passa a ser necessário para manter o ritmo das operações. Se a participação norte-coreana for ampliada, Moscou estará demonstrando que os custos humanos e materiais da guerra já exigem a integração permanente de um parceiro anteriormente periférico em sua arquitetura militar.
Para Pyongyang, a guerra representa uma oportunidade excepcional de aprendizado. Soldados, oficiais e especialistas norte-coreanos ganham contato com operações de drones, guerra eletrônica, defesa contra sistemas não tripulados, ataques de precisão e logística sob fogo. O conhecimento adquirido poderá alterar o equilíbrio militar no nordeste asiático, produzindo consequências para Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos.

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A retração naval no Mediterrâneo
A ausência momentânea de navios de guerra russos no Mediterrâneo representa outro indicador de concentração de recursos. Desde 2013, Moscou mantinha presença naval praticamente contínua na região, apoiada principalmente pelas instalações de Tartus, na Síria.
Essa continuidade foi interrompida pela combinação entre o fechamento dos estreitos turcos a navios de países beligerantes, a dificuldade de rotacionar forças a partir do Mar Negro, as mudanças políticas na Síria e a necessidade de empregar unidades em outras missões. Sem a passagem pelos estreitos, os navios destinados ao Mediterrâneo precisam partir do Báltico ou do norte da Rússia, percorrendo uma rota mais longa e logisticamente onerosa.
A transformação de Tartus também possui implicações estratégicas. Depois da mudança de regime em Damasco, a instalação perdeu parte da previsibilidade política e da capacidade de sustentar uma força permanente. Moscou procura preservar acesso militar e, ao mesmo tempo, adaptar o porto para atividades comerciais, mas a estrutura disponível já não oferece as mesmas condições existentes durante o governo de Bashar al-Assad.
A interrupção da presença não significa retirada definitiva. A Rússia pode voltar a enviar navios ao Mediterrâneo e provavelmente o fará. A diferença está entre realizar destacamentos temporários e sustentar presença permanente. A primeira opção mantém a bandeira e a sinalização política; a segunda exige logística, acesso portuário, manutenção e capacidade de rotação.
A retração reduz a influência russa sobre o flanco sul da OTAN, o norte da África, o Oriente Médio e as rotas marítimas que conectam o Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Também revela que uma potência pode preservar capacidade oceânica formal enquanto enfrenta dificuldades para mantê-la distribuída simultaneamente em diferentes teatros.

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Desgaste não significa derrota
Os sinais de compressão permitem duas interpretações concorrentes. A primeira aponta para uma Rússia progressivamente enfraquecida: o déficit cresce, reservas são utilizadas, baixas pressionam o recrutamento, parceiros externos ganham importância, o espaço político se fecha e a projeção naval diminui.
Essa leitura possui fundamento, mas pode produzir conclusões excessivas quando transforma desgaste em colapso iminente.
A Rússia continua ocupando parcela relevante do território ucraniano, mantém iniciativa em setores do front, realiza ataques de longa distância, adapta sua indústria, mobiliza dezenas de milhares de combatentes e preserva um dos maiores arsenais nucleares do mundo. O Estado russo dispõe de capacidade coercitiva para transferir recursos da economia civil para o setor militar e impor à população parte substancial dos custos da guerra.
A segunda interpretação sustenta que Moscou estaria demonstrando resiliência e capacidade de adaptação. Também há evidências para essa leitura. As sanções não paralisaram a economia, a indústria de defesa ampliou a produção e as parcerias com China, Irã e Coreia do Norte reduziram o isolamento pretendido pelo Ocidente.
O contraponto é que adaptação não significa ausência de custo. A economia pode continuar funcionando enquanto perde eficiência, tecnologia, capacidade de inovação civil e reservas. A produção de armamentos pode crescer ao mesmo tempo que setores não militares ficam privados de crédito, mão de obra e investimentos. A estabilidade política pode ser preservada, mas depender de censura, repressão e eliminação de alternativas eleitorais.
A Rússia não está incapaz de lutar. Está se tornando mais dependente da militarização do Estado para sustentar sua capacidade de luta.

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Uma potência obrigada a escolher prioridades
A tendência estratégica mais importante é a concentração. A guerra na Ucrânia deixou de ser apenas uma campanha militar e passou a organizar uma parcela crescente do funcionamento do Estado russo. Orçamento, indústria, política externa, legislação interna, recrutamento e relações com parceiros são progressivamente subordinados às exigências do conflito.
Essa concentração favorece a capacidade russa de manter pressão sobre Kyiv no curto prazo. Uma economia dirigida, acompanhada de controle político e disponibilidade de receitas energéticas, pode sustentar uma guerra de atrito por mais tempo do que sociedades abertas normalmente estão dispostas a admitir.
Em médio e longo prazo, porém, o modelo impõe escolhas. Recursos destinados à reposição de veículos, mísseis e efetivos não estarão disponíveis para modernização civil, infraestrutura ou diversificação econômica. A perda de mão de obra afeta produtividade e demografia. O isolamento tecnológico aumenta a dependência de fornecedores externos. A redução da presença naval deixa espaços para outros atores. A aproximação com Pyongyang oferece apoio imediato, mas também cria compromissos e dependências que poderão limitar a autonomia diplomática de Moscou.
Para a Ucrânia e seus apoiadores, esse quadro não autoriza acomodação. Uma Rússia pressionada pode tornar-se mais propensa à escalada, sobretudo se o Kremlin avaliar que o tempo reduzirá suas vantagens. O aumento dos ataques balísticos, a integração de armamentos norte-coreanos e a concentração industrial indicam que Moscou ainda pretende converter sua superioridade de recursos em resultados operacionais.
Para China, Coreia do Norte e outros parceiros, a compressão russa abre oportunidades. Pequim amplia sua influência econômica sem assumir diretamente o custo da guerra. Pyongyang obtém recursos e experiência militar. Países dispostos a atuar como intermediários comerciais ganham acesso a mercados, energia e contratos antes dominados por empresas ocidentais.
A Europa, por sua vez, enfrenta uma potência que pode estar economicamente desgastada, mas permanece militarmente perigosa. O principal erro estratégico seria confundir redução das margens russas com desaparecimento da ameaça.
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As implicações de uma guerra prolongada
A continuidade do conflito tende a aprofundar quatro movimentos. O primeiro é a militarização permanente da economia russa, com aumento da participação da defesa na alocação de capital, mão de obra e capacidade industrial. O segundo é o endurecimento político interno, necessário para impedir que os custos da guerra se convertam em oposição organizada. O terceiro é a dependência crescente de parceiros capazes de fornecer munições, componentes, mercados e pessoal. O quarto é a redução da disponibilidade russa para sustentar presença convencional permanente em teatros considerados secundários.
Esses movimentos não ocorrerão de maneira linear. Uma alta relevante no preço do petróleo pode aliviar o orçamento. Novos acordos comerciais podem reduzir o efeito das sanções. Avanços militares podem fortalecer a posição doméstica de Putin. Da mesma forma, ataques contra infraestrutura energética, queda das exportações ou necessidade de nova mobilização podem acelerar as tensões.
A variável decisiva será a capacidade do Kremlin de manter uma relação politicamente administrável entre resultados militares e custos internos. Enquanto o governo conseguir preservar renda, emprego, segurança urbana e distância social em relação ao front para a maioria da população, a continuidade da guerra permanecerá viável. Se o conflito passar a exigir mobilização ampla, redução acentuada do consumo ou cortes perceptíveis em serviços públicos, a pressão política poderá assumir outra dimensão.

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O custo de impedir que o tempo mude de lado
O problema estratégico do Kremlin não é a impossibilidade de continuar a guerra, mas o preço progressivamente maior para fazê-lo. Moscou ainda dispõe de homens, armas, energia, reservas e capacidade coercitiva. Também conserva uma base industrial capaz de produzir sistemas militares em escala e um aparato estatal preparado para transferir custos à sociedade.
Entretanto, quanto mais prolonga o conflito, mais converte a Rússia em uma potência militarizada, politicamente fechada, financeiramente pressionada e dependente de parceiros que, antes da guerra, ocupavam posição periférica em sua estratégia. A retração no Mediterrâneo, o recurso ao ouro, a pressão sobre o recrutamento e o endurecimento contra dissidentes fazem parte do mesmo processo: preservar o esforço principal mediante o sacrifício gradual das margens existentes em outras dimensões do poder.
A Rússia não está sem poder. Está empregando parcelas crescentes desse poder apenas para impedir que o tempo passe a trabalhar definitivamente contra ela.
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