Durante a Operação Southern Seas 2024 um AF-1C sobrevoa o porta-aviões USS CVN-73 George Washington
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A aviação de asa fixa da Marinha do Brasil encontra-se diante de um ponto de inflexão. A aproximação do fim da vida útil dos A-4 Skyhawk (AF-1/AF-1B), com horizonte até 2030, impõe uma decisão estratégica inadiável: substituir as aeronaves ou aceitar a perda de uma capacidade construída ao longo de mais de trinta anos. Não se trata apenas de trocar vetores antigos por modernos, mas de preservar — ou abandonar — um conjunto de competências raras no Hemisfério Sul, como a operação de caça naval, a doutrina expedicionária, a integração ar-superfície e a própria cultura operacional de uma aviação de combate naval.
A aquisição dos A-4KU do Kuwait, em 1998, representou uma decisão ousada e estruturante. Ao incorporar aeronaves de ataque, a Marinha consolidou o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque, os VF-1 “Falcões”, criando uma capacidade inexistente na América Latina. Mesmo após a desativação do NAe São Paulo, a aviação de caça foi mantida — ainda que em escala reduzida — por meio de um esforço consistente de modernização conduzido pela Embraer em parceria com a AEL Sistemas.
O programa AF-1B incorporou novos radares, cockpit digital, alguma capacidade além do alcance visual e maior interoperabilidade. Esse esforço representou um investimento relevante não apenas financeiro, mas também político e institucional, com o objetivo de preservar uma doutrina que, uma vez perdida, é extremamente difícil — e onerosa — de reconstruir.
Apesar dessas melhorias, a realidade operacional é incontornável. O A-4 Skyhawk é um projeto concebido nos anos 1950. Mesmo atualizado, enfrenta limitações severas em termos de sobrevivência em ambientes de combate modernos, restrições de sensores e armamentos, alcance e persistência inferiores, além de dificuldades crescentes na manutenção e na cadeia logística. Mais preocupante ainda é o fator tempo: o cronograma técnico indica que a frota dificilmente permanecerá operacional além de 2030. Isso significa que a janela para uma transição ordenada já está aberta — e se fechando rapidamente.
A não substituição dos AF-1 implicaria, na prática, a extinção da aviação de caça da Marinha do Brasil. As consequências seriam profundas: perda da capacidade de ataque aéreo, redução da relevância da força em operações conjuntas, dependência total da Força Aérea Brasileira para cobertura aérea e, sobretudo, a descontinuidade da doutrina de asa fixa. A experiência internacional demonstra que capacidades dessa natureza, uma vez abandonadas, são extremamente difíceis de recuperar. Países que abriram mão de sua aviação de caça naval raramente conseguem reconstruí-la no mesmo patamar.
O cenário internacional, por sua vez, aponta na direção oposta. O ambiente marítimo voltou a ser intensamente disputado, com marinhas reforçando suas capacidades aéreas, investindo em caças navais e ampliando suas capacidades expedicionárias. A proliferação de mísseis antinavio, drones e sistemas de guerra eletrônica elevou a importância das operações aeronavais de esclarecimento e reconhecimento armado, fundamentais para a construção da consciência situacional no mar, bem como das missões de ataque contra alvos de superfície. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de defesa aérea da esquadra, especialmente frente à ameaça de drones e vetores de baixo custo, que exigem resposta rápida, flexível e persistente — algo que apenas a aviação de caça pode oferecer de forma eficaz.
A substituição dos AF-1 não precisa necessariamente replicar o modelo anterior, mas exige uma decisão clara. Entre as possibilidades estão caças navais convencionais, como o Dassault Rafale M ou o F/A-18 Super Hornet, que oferecem alta capacidade, porém com custos elevados; vetores STOVL como o F-35B Lightning II, que ampliariam a flexibilidade operacional, mas com custos significativamente mais altos; e uma alternativa pragmática baseada em caças leves capazes de sustentar a doutrina e a operacionalidade dentro das limitações orçamentárias e de infraestrutura atuais.
Nesse contexto, plataformas como o Leonardo M-346FA surgem como opções relevantes, combinando custo mais baixo, sensores modernos e capacidade de emprego em missões de patrulha, reconhecimento armado, ataque leve e defesa aérea de ponto. Essa abordagem permitiria manter viva a aviação de caça naval brasileira, preservando pessoal, treinamento e doutrina, ao mesmo tempo em que criaria uma ponte realista até a eventual construção de um novo navio aeródromo. Nesse cenário futuro, seria possível evoluir para uma capacidade de maior sofisticação com a incorporação de aeronaves como o F-35B Lightning II, plenamente compatíveis com operações de maior escala e intensidade.
A substituição dos A-4 Skyhawk, portanto, transcende a dimensão técnica ou orçamentária. Trata-se de uma escolha de Estado sobre o papel do Brasil no Atlântico Sul. Manter a aviação de asa fixa naval significa preservar conhecimento acumulado, garantir autonomia operacional, sustentar relevância estratégica e proteger investimentos realizados ao longo de décadas. Abandoná-la pode representar uma economia imediata, mas com custos exponencialmente maiores no futuro.
A história demonstra que capacidades militares, uma vez perdidas, raramente são recuperadas sem um preço muito mais alto. O Brasil ainda pode escolher — mas já não pode mais adiar.






















