50 mil horas de voo sobre a Ucrânia: Os drones portugueses que estão mudando a guerra moderna
Pedro Monteiro
Portugal
Especial para DefesaNet
Jornalista de defesa baseado em Amesterdã (www.pedro-monteiro.com).
Além das suas reportagens com forças da OTAN em vários países,
tem também publicados vários livros sobre as forças militares
e a indústria de defesa portuguesas.Portugal
Especial para DefesaNet
Fotografias de Tekever
Há cerca de um ano, nos arredores de Saky, na Crimeia ocupada, um drone sobrevoou silenciosamente posições russas e, com os seus sensores, descobriu um dos alvos militares mais valiosos: o radar de um sistema de defesa antiaéreo S-400.
Com cerca de 25 quilos de peso máximo e um custo unitário inferior a 30 mil euros, o drone foi fundamental para a localização e destruição de um sistema de armas avaliado em milhares de milhões e que, até aí, tinha limitado fortemente a actuação dos meios aéreos ucranianos.
Este não era um modelo de origem americana, turca ou israelense. Era, de fato, um pequeno drone AR3 feito pela Tekever, uma empresa portuguesa que conta já com clientes em 40 países e mil colaboradores distribuídos entre Portugal, Reino Unido, França e a própria Ucrânia.

Tekever AR3, aeronave, com 3,5 m de envergadura, 1,9 m de comprimento e 25 kg de peso, é capaz de transportar até quatro quilos de carga útil, na forma de diversos equipamentos especiais. O Tekever AR3 pode atingir uma velocidade de 75 a 90 km/h. O drone pode ser lançado por catapulta e também está equipado com um sistema de decolagem vertical.
Liderança na Europa
A Tekever é, desde 2025, um dos novos unicórnios do sector de defesa europeu, graças à sua valorização acima de um bilhão de euros. De fato, é muito graças a ela que, em 2025, a venda de drones representou já 21 por cento das exportações de Portugal no sector da defesa.
O crescimento do sector não via nada assim desde a década de 1980 quando a INDEP, um fabricante estatal de armamento e munições de artilharia e armas ligeiras, alimentou simultaneamente o esforço de guerra do Irã e do Iraque. Só em 1985, Portugal exportou quatro vezes mais do que o valor de 1980, com o Irã sózinho a representar 60 por cento dessas vendas. A INDEP teve nesse ano o seu maior faturamento, com quase 147 milhões de euros em valores de hoje.
Quatro décadas depois, a Tekever soma contratos em vários países. Logo em 2023, um terço dos 66 milhões de euros exportados pela empresa vieram de vendas à Ucrânia – que, rapidamente, adotou drones desenhados para a busca e salvamento, vigilância de fronteiras e o combate a incêndios para o calor da guerra moderna.
Se o AR3 é o modelo mais usado, o maior salto tecnológico foi dado com o AR5. Este modelo já tem capacidade de carga até 50 quilos, uma envergadura de asas de sete metros e uma autonomia de voo de mais de 12 horas e capacidade SATCOM de comunicações via satélite – que, desta forma, permite operações para além da linha de vista e a grandes distâncias. Entre os utilizadores mais relevantes encontram-se já a Agência Europeia de Segurança Marítima e entidades governamentais no Reino Unido, que o usam para monitoramento do Canal da Mancha.

Tekever ARX Futuro MALE (Medium-Altitude Long-Endurance)
E, agora, a Tekever está desenvolvendo um dos primeiros drones europeus da classe MALE (Medium-Altitude Long-Endurance), sem a dependência tecnológica dos Estados Unidos ou Israel. Em Junho devem começar os primeiros testes do novo ARX, um drone multimissão desenvolvido, desde o início, para operadores civis e militares.
O ARX mais que duplica a autonomia de voo do AR5 – pode chegar até às 30 horas contínuas no ar – e triplica a sua capacidade de carga. Características que superam em muitos aspectos as do modelo turco Baykar Bayraktar TB2. Só este modelo já gerou quase dois bilhões de dólares em vendas para 36 clientes em todo o mundo.
Mas, ao contrário deste e outros modelos turcos, a Tekever está centrada em sistemas não armados. O drone observa, identifica e transmite. O maior efeito resulta da integração com outros meios e fusão de informação em tempo real, algo essencial no campo de batalha moderno.
E, agora, a Tekever está desenvolvendo um dos primeiros drones europeus da classe MALE (Medium-Altitude Long-Endurance), sem a dependência tecnológica dos Estados Unidos ou Israel. Em Junho devem começar os primeiros testes do novo ARX, um drone multimissão desenvolvido, desde o início, para operadores civis e militares.
O ARX mais que duplica a autonomia de voo do AR5 – pode chegar até às 30 horas contínuas no ar – e triplica a sua capacidade de carga. Características que superam em muitos aspectos as do modelo turco Baykar Bayraktar TB2. Só este modelo já gerou quase dois bilhões de dólares em vendas para 36 clientes em todo o mundo.
Mas, ao contrário deste e outros modelos turcos, a Tekever está centrada em sistemas não armados. O drone observa, identifica e transmite. O maior efeito resulta da integração com outros meios e fusão de informação em tempo real, algo essencial no campo de batalha moderno.
Entretanto, na última edição da importante feira DSEI (Defence and Security Equipment International), em Londres, a Tekever foi uma das poucas empresas nacionais entre quase 1.700 expositores de mais de 60 países. A empresa participa, aliás, em programas ligados às Forças Armadas britânicas, reforçando a sua integração num dos principais mercados europeus de defesa. Em França, dificuldades com o programa Patroller da Safran levaram à consideração de soluções portuguesas.
No stand estava o novo AR3 EVO da Tekever, uma evolução direta dos sistemas utilizados na Ucrânia que foi melhorado graças ao fluxo contínuo de feedback das unidades militares no terreno. O que esteve à mostra foi mais do que um novo sistema: foi a capacidade da empresa portuguesa para observar as lições do campo de batalha quase em tempo real, com ciclos de actualização a cada duas semanas.
Até ao início de 2026, os drones da Tekever já acumularam mais de 50 mil horas de voo operacional na Ucrânia. De facto, a Tekever é apenas a face mais visível de uma transformação mais ampla.
Ecossistema de inovação
Estas empresas nasceram, na realidade, de um ecossistema de inovação construído, nas últimas duas décadas, em torno de pólos como o Instituto Superior Técnico e a Universidade do Porto.
Mais recentemente, essa dinâmica passou a incluir também as Forças Armadas portuguesas, funcionando como um verdadeiro laboratório operacional, onde tecnologia, doutrina e indústria evoluem em conjunto.
A Marinha, por exemplo, criou, há quase dez anos, uma célula de veículos não tripulados, com a integração de drones aéreos, de superfície e submergidos. Todos os anos organiza o grande exercício multinacional REPMUS (Robotic Experimentation and Prototyping with Maritime Uncrewed Systems). Em 2025, mais de dois mil participantes de 24 países, incluindo da Ucrânia, testaram em ambiente realista sistemas nas três dimensões.
A força de fuzileiros que começou, recentemente, mais uma missão da OTAN na Lituânia usa os drones VTOne da BeyondVision, uma empresa portuguesa nascida no Porto. Estes drones de descolagem e aterragem vertical com até 90 minutos de autonomia em voo, com inteligência artificial integrada, têm sido usados a bordo dos navios de patrulha oceânica que garantem a fiscalização ou busca e salvamento das águas territoriais portuguesas.
Está, entretanto, finalizando a construção, nos estaleiros da Damen, do novo D. João II com sete mil toneladas e convés corrido. O conceito e projecto inicialmente desenvolvido pela própria Marinha portuguesa é, na verdade, o primeiro navio porta-drones europeu e vai permitir testar futuros modelos de drones ou desenvolver uma doutrina operacional em torno deles. Recorde-se que a Turquia usa a bordo dos seus navios anfíbios de convés corrido drones pesados Baykar Bayraktar TB3 que podem carregar até 280 quilos em seis estações de armamento.
Por sua vez, o Exército também realiza os exercícios ARTEX, para testar e validar tecnologias emergentes e adaptar a sua doutrina com a colaboração do ecossistema de inovação das empresas, universidades e centros de investigação. O AR4, um dos primeiros modelos da Tekever, foi testado pelas tropas portuguesas numa missão no Kosovo, em 2014.
Mais recentemente, em Março, o Exército português testou, pela primeira vez, os seus novos drones de ataque HERO 30 de fabricação israelense no exercício de Strong Impact 26, que envolveu também unidades de Espanha e França. Portugal é um dos primeiros países de OTAN a incorporar esta capacidade que encurta o ciclo entre deteção e ação e, assim, complementa os drones de reconhecimento.
Ao contrário da artilharia convencional que ataca apenas coordenadas fixas, estes sistemas, extremamente portáveis, com 15 quilómetros de alcance, podem acompanhar um alvo em movimento e atacar no momento certo. No ano passado, foi testado o Elanus de ataque, com um alcance de 50 quilómetros, integralmente desenvolvido pela portuguesa UAVision.
No âmbito do mecanismo de financiamento europeu SAFE (Security Action for Europe), as Forças Armadas portuguesas vão adquirir, por exemplo, um modelo comum para os três ramos. As regras do SAFE favorecem, de resto, a produção europeia e incentivam a criação de capacidade industrial. Como Portugal está na liderança do programa multinacional de aquisição de drones, os mesmos poderão ser fornecidos por uma empresa nacional. A indústria continua a crescer.
A Beyond Vision foi, também ela, certificada pela OTAN e os seus drones já foram igualmente testados em combate na Ucrânia. Na missão da OTAN na Roménia, onde por agora são usados os pequenos RQ-11B Raven, com uma autonomia próxima dos 90 minutos, os soldados portugueses poderão, muito em breve, usar no terreno drones de ponta feitos no seu próprio país.
A aeronave, com 3,5 m de envergadura, 1,9 m de comprimento e 25 kg de peso, é capaz de transportar até quatro quilos de carga útil, na forma de diversos equipamentos especiais. O Tekever AR3 pode atingir uma velocidade de 75 a 90 km/h. O drone pode ser lançado por catapulta e também está equipado com um sistema de decolagem vertical.





















