Quem tem uma não tem nenhuma e por que a FAB precisa de uma segunda linha de caças?

Nelson Düring
Editor-Chefe DefesaNet

A consolidação do SAAB JAS 39 Gripen E/F como espinha dorsal da aviação de caça da Força Aérea Brasileira (FAB) representa um avanço histórico em termos de capacidade tecnológica, consciência situacional e integração em rede. Trata-se, sem dúvida, de um dos mais sofisticados programas de defesa já conduzidos pelo Brasil. No entanto, justamente por sua relevância, o programa expõe uma vulnerabilidade estrutural que não pode ser ignorada: a concentração excessiva em uma única plataforma e em cadeias críticas de fornecimento externas. No campo da defesa, a máxima de não colocar todos os ovos na mesma cesta não é retórica — é um princípio de sobrevivência estratégica.

A história da própria FAB oferece um exemplo claro dos riscos da dependência. Nos anos 1970, em meio a divergências políticas, os Estados Unidos denunciaram o acordo de cooperação militar com o Brasil, interrompendo o fluxo de equipamentos, suporte e peças. Diante dessa ruptura, o país foi forçado a reagir rapidamente, buscando alternativas fora do eixo tradicional. A solução veio com a aquisição do francês Dassault Mirage III BR, da Dassault Aviation. Mais do que uma simples compra, tratou-se de uma decisão estratégica que redefiniu a defesa aérea brasileira por décadas. O Mirage III não apenas restaurou a capacidade operacional da FAB, como também marcou uma virada geopolítica: o Brasil demonstrava, na prática, sua capacidade de diversificar fornecedores e preservar sua autonomia.

No cenário atual, a situação apresenta paralelos importantes. O Gripen E/F, cujo desenvolvimento é financiado pelo Brasil em parceria com a SAAB, incorpora sistemas de múltiplas origens. Entre eles, destaca-se o motor General Electric F414, produzido pela General Electric. Esse componente está sujeito às regras do ITAR (International Traffic in Arms Regulations), que permite ao governo dos Estados Unidos restringir exportações, manutenção, transferência de tecnologia e fornecimento de peças. Na prática, isso significa que parte da capacidade operacional da principal aeronave de caça da FAB depende de decisões políticas externas. Não se trata de questionar parceiros atuais, mas de reconhecer uma realidade estrutural: dependência tecnológica implica vulnerabilidade estratégica.

Esse debate ganha ainda mais relevância quando se observa o comportamento recente dos principais aliados dos Estados Unidos no âmbito da NATO. Diversos países europeus vêm demonstrando preocupação crescente com a previsibilidade da política externa norte-americana e, como consequência, têm buscado reduzir sua dependência estratégica em áreas críticas de defesa. Iniciativas voltadas à autonomia europeia em defesa, diversificação de fornecedores e fortalecimento de suas próprias bases industriais refletem um diagnóstico claro: garantir operacionalidade plena exige reduzir vulnerabilidades externas.

Nesse contexto, a percepção de que os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump apresentam menor previsibilidade em relação a décadas passadas reforça essa tendência. Independentemente de alinhamentos políticos, o ponto central é estratégico: parceiros históricos de Washington estão adotando medidas concretas para mitigar riscos de dependência. Se os aliados mais próximos e estruturais dos Estados Unidos estão preocupados em diversificar e reduzir sua exposição, isso, por si só, deveria acender um sinal de alerta nos corredores de Brasília.

A adoção de uma única linha de caça dominante traz ganhos de escala, padronização e redução de custos logísticos, mas esses benefícios vêm acompanhados de riscos relevantes, como a exposição a interrupções na cadeia de suprimentos, a dependência de decisões políticas de terceiros, a redução da flexibilidade operacional e a vulnerabilidade em cenários de crise internacional. Em um ambiente global marcado por rivalidades entre grandes potências, sanções e disputas tecnológicas, esses riscos deixam de ser hipotéticos e passam a ser concretos.

A resposta a esse desafio não é substituir o Gripen, mas complementá-lo estrategicamente. A criação de uma segunda linha de caças, com origem tecnológica distinta e menor exposição a restrições como o ITAR, permitiria ao Brasil garantir redundância operacional, mitigar riscos geopolíticos, preservar sua autonomia decisória, fortalecer sua base industrial de defesa e aumentar sua resiliência em cenários de crise. Diversificar parceiros não significa desalinhamento, mas sim maturidade estratégica.

A defesa aérea é um dos pilares mais sensíveis da soberania nacional. Delegar, ainda que parcialmente, sua continuidade a cadeias externas concentradas implica aceitar um grau de vulnerabilidade. O Brasil, como potência regional com ambições globais, precisa estruturar sua defesa com base em três pilares fundamentais: capacidade, autonomia e resiliência. Países que operam frotas diversificadas tendem a apresentar maior flexibilidade e capacidade de adaptação, especialmente em momentos de tensão internacional.

O episódio do Mirage III ensina uma lição essencial: a diversificação feita sob pressão é sempre mais custosa e menos eficiente do que aquela planejada com antecedência. Se, no passado, a FAB precisou reagir a uma ruptura externa, hoje o Brasil tem a oportunidade de agir de forma proativa, estruturando uma segunda linha de caças antes que qualquer restrição se materialize.

O programa Gripen é um marco e deve continuar sendo o núcleo da aviação de caça brasileira. No entanto, sua centralidade não pode se transformar em exclusividade. A dependência de componentes críticos sujeitos ao ITAR, como o motor F414, sistemas de controles de voo e armamentos tornam o precedente histórico da ruptura com os Estados Unidos evidenciam uma mesma verdade: a soberania não se constrói sobre dependências únicas.

Diversificar não é duplicar capacidades, mas garantir continuidade. Para que a defesa aérea do Brasil permaneça plenamente funcional em qualquer cenário, a FAB precisa de opções — e, em estratégia, ter opções é sinônimo de liberdade de ação.

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