General Ribeiro analisa a modernização do Leopard 1, os limites estruturais da frota brasileira e a urgência de decisões estratégicas no pós-Ucrânia
Por Ricardo Fan – DefesaNet
Introdução
A reconfiguração de plataformas blindadas sobre lagartas (VBC CC) voltou ao centro do debate estratégico após as lições operacionais observadas na Ucrânia. No caso brasileiro, a discussão ganha contornos ainda mais sensíveis diante da deterioração da frota e da necessidade de recompor capacidades críticas da Força Terrestre.
Nesse contexto, a proposta de modernização do Leopard 1 — com destaque para a integração de torres modernas como a Cockerill 3105 — surge como alternativa de custo-benefício frente às limitações orçamentárias e ao longo ciclo de renovação de meios.
Para analisar essa possibilidade sob uma perspectiva técnica e doutrinária, ouvimos o General de Brigada R/1 Ribeiro, que acompanhou de perto a introdução e o ciclo de vida da família Leopard no Exército Brasileiro.
Com uma trajetória que combina experiência operacional, formação acadêmica de alto nível e atuação direta no núcleo da doutrina blindada do Exército Brasileiro, o General de Brigada da Reserva Marcelo Carvalho Ribeiro é uma voz qualificada para analisar os desafios atuais da Força Terrestre.
Oficial de Cavalaria formado pela Academia Militar das Agulhas Negras, com especializações em centros de excelência na Bélgica, Estados Unidos e Espanha, Ribeiro construiu sua carreira no emprego e no desenvolvimento de forças blindadas.
Ao longo de sua trajetória, comandou o Centro de Instrução de Blindados, exerceu a função de Diretor de Material do Exército e esteve à frente da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, uma das principais grandes unidades mecanizadas do país.
Sua formação inclui doutorado em Ciências Militares pela ECEME, pós-doutorado em Geografia pela UFSM e especialização em Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra, além de atuação como professor de estratégia e relações internacionais no exterior — elementos que conferem à sua análise uma perspectiva que transcende o nível tático, alcançando o campo estratégico-operacional.
É a partir dessa vivência que o general aborda um dos temas mais sensíveis da atualidade: a deterioração da capacidade blindada brasileira e as alternativas para sua recuperação. Em um cenário marcado por restrições orçamentárias e pelas lições do conflito na Ucrânia, a modernização do Leopard 1 — especialmente por meio da substituição de sua torre — ressurge como uma solução intermediária de elevado potencial.
A seguir, o Gen Ribeiro analisa os limites, oportunidades e implicações dessa escolha para o futuro da Força Terrestre.



Leopard 1A5 adquiridos pelo Exército Brasileiro em 2009 junto à Alemanha, com entregas iniciadas em 2010 para recomposição da capacidade blindada. Incluiu cerca de 220 carros de combate Leopard 1A5BR, além de viaturas de apoio. As primeiras entregas ocorreram a partir de 2010, com incorporação progressiva nas unidades blindadas do Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul
…
Entrevista – com General de Brigada R/1 Ribeiro
DefesaNet — General, como o senhor avalia o conceito de reconfiguração do Leopard 1 com torres modernas, como a Cockerill 3105, no contexto do combate contemporâneo?
Gen Ribeiro — Vejo com muito bons olhos. O chassi do Leopard 1 é robusto, confiável e comprovado — inclusive agora em ambiente de combate. O problema está na torre, que já atingiu seu limite no contexto moderno. A substituição por uma torre, como a Cockerill 3105, representaria um salto importante, principalmente pela capacidade de integrar sensores, atuadores e sistemas eletrônicos mais avançados.
DefesaNet — Essa configuração híbrida se encaixa na doutrina atual da Força Terrestre ou exigiria revisão?
Gen Ribeiro — Faz todo sentido e exige, sim, uma atualização doutrinária. Digo isto porque agregar uma torre nova poderia aportar um conjunto de novas capacidades – por exemplo integração com drones ou munições inteligentes – que deveríamos dimensionar e testar adequadamente. Para viabilizar estes testes doutrinários, precisamos trabalhar com o material de que dispomos.
O Brasil levará décadas para reconstruir plenamente sua frota blindada, então soluções intermediárias devem ser testadas e incorporadas rapidamente à doutrina. Um blindado mais leve e furtivo , ágil e tecnologicamente atualizado atenderia em ótimas condições às demandas da Força.
DefesaNet — Houve uma tentativa anterior de demonstração dessa solução no Brasil. Por que não avançou?
Gen Ribeiro — Houve, sim. A própria Cockerill apresentou essa solução ao Brasil, inclusive com demonstrações para o Exército Brasileiro na Europa, em 2022. O Exército avaliou positivamente, mas o projeto não avançou por limitações orçamentárias. Foi uma oportunidade real, pensada no contexto do Projeto Forças Blindadas, mas que esbarrou na questão de recursos.
DefesaNet — Um Leopard 1 reconfigurado teria capacidade de sobrevivência no campo de batalha atual?
Gen Ribeiro — Sim, desde que o foco esteja em incrementar certas capacidades de detecção de alvos e consciência situacional, com prioridade de esforços na torre. A sobrevivência hoje depende de sensores, intercomunicação eficaz e capacidade de reação como equipe. Com uma torre moderna, o Leopard 1 poderia alcançar todos estes requisitos. O chassi continua sendo confiável e apto ao combate.
DefesaNet — Em termos de custo-benefício, essa modernização seria viável?
Gen Ribeiro — Eu considero uma alternativa muito interessante. O chassi representa cerca de 40% do custo do blindado e pode ser revitalizado pela indústria nacional. A substituição da torre traria desafios tecnológicos, com ganhos significativos de prospecção doutrinária e tecnológica, com investimentos relativamente menores do que a aquisição de um novo carro de combate. E em tempo muito menos reduzido.
DefesaNet — Quais seriam os principais desafios técnicos dessa integração?
Gen Ribeiro — O maior desafio está na definição das capacidades desejadas, sua integração aos sistemas de controle de tiro e de consciência situacional. Na questão de consciência situacional já estamos desenvolvendo boas soluções, seja no Projeto do M109A5 + BR , seja no Projeto Guarani.
Mas para integrar mais sensores, são tantas as demandas, como a troca do “slip ring” (uma espécie de “disco” que permite transmitir eletricidade do chassi para a torre, que fica na base desta), o aumento da capacidade de geração de energia com o motor desligado, a melhoria das comunicações, os sistemas de proteção… sem contar a limitada vida útil dos tubos (canhões) dos carros.
Enfim, uma série de ações que tornam expressivamente menos custosa a troca completa da torre. O Brasil já possui capacidade técnica em algumas destas demandas – cito aqui empresas como Ares e Opto, e, por meio de parcerias internacionais, poderíamos buscar as capacidades que nos faltam, o que abriria espaço para novas parcerias visando a nacionalização.
DefesaNet — Que lições da Ucrânia são mais relevantes nesse contexto?
Gen Ribeiro — A principal lição é a necessidade de adaptação. O conflito mostrou que plataformas sobre lagartas ainda têm valor quando modernizadas. Nossos centros de estudo – em especial nosso Centro de Instrução de Blindados – estão acompanhando isso de perto, e há diversas lições aplicáveis à realidade brasileira.
Outro aspecto relevante é a furtividade. Estar sempre em movimento tornou-se vital para a sobrevivência no campo de batalha. Ademais, o que percebemos é que, sem uma logística eficaz – com fornecimento de abundância de meios para quem combate, não há exército que vença.
DefesaNet — Há espaço para a indústria nacional em projetos desse tipo?
Gen Ribeiro — Sem dúvida. A indústria nacional pode atuar fortemente na revitalização do chassi e na integração de sistemas. Além disso, há espaço para parcerias internacionais com potências médias, como África do Sul, Argentina, Austrália, Espanha, Itália , Índia, e ainda nossos vizinhos sul-americanos, sempre buscando maior autonomia tecnológica.
Não cito os grandes – como Estados Unidos, China, Rússia, França, Alemanha, porque podem surgir entraves geopolíticos importantes. Mas a busca de soluções passa por parcerias inteligentes e barganha internacional, com capacidade nacional para absorver a tecnologia, com emprego de contratos de off-set e relações gov-to-gov.
DefesaNet — A não adoção dessa solução no passado foi uma oportunidade perdida?
Gen Ribeiro — Foi uma oportunidade que não se concretizou por limitações orçamentárias e também por causas estruturais. Mais importante do que olhar para o passado é entender que o problema persiste — e precisa ser enfrentado agora, pois o cenário internacional mudou, e temos de nos adaptar muito rapidamente a estas novas mudanças.
DefesaNet — Soluções intermediárias ainda fazem sentido hoje?
Gen Ribeiro — Faz total sentido. Desenvolver um blindado totalmente novo é extremamente caro e demorado. A modernização é o caminho mais realista no curto e médio prazo — especialmente diante da atual situação da frota.

Síntese Estratégica
A entrevista do Gen Ribeiro revela um diagnóstico direto e preocupante: a capacidade blindada do Exército Brasileiro encontra-se em estado crítico, com unidades operacionais severamente limitadas. Mais do que uma discussão técnica sobre plataformas, o debate expõe uma lacuna estratégica.
A modernização do Leopard 1, por meio da substituição de sua torre, emerge como uma solução pragmática — não como fim, mas como meio para recuperar capacidade operacional em um horizonte de tempo viável.
O ponto central, contudo, permanece político-estratégico: a definição de prioridades. Enquanto outros programas avançam com clareza, a Força Terrestre ainda enfrenta o desafio de alinhar visão, orçamento e execução em torno de um programa consistente de blindados.
Como sintetiza o próprio general, trata-se menos de escolher entre o ideal e o possível — e mais de agir antes que a lacuna de capacidade se torne irreversível.
…
Sugestão do Editor – Artigos:




















