26 de Junho, 2016 - 23:00 ( Brasília )

Pensamento

Ironias da Vida

Fatos atuais recuperam ação de heroísmo de militar.

Ironias da Vida
 

A prisão pela Polícia Federal de Adilson Florêncio da Costa, na sexta-feira (24JUN2016), pela possibilidade de integrar um esquema que desviou R$ 90 milhões da Postalis e da Petros, os fundos de pensão dos funcionários dos Correios e da Petrobras trouxe lembranças do passado.. Adilson é ex-diretor financeiro da Postalis.

O fato que seria mais um dos vários escândalos políticos atuais reviveu um fato acontecido há 39 anos atrás. O então menino Adilson, 13 anos, foi salvo do fosso das ariranhas, no Zoológico de Brasília, pelo 2º Sargento do Exército Sílvio Delmar Holenbach.

O Sargento Holenbach que estava visitando o Zoológico com a esposa e os 4 filhos ao ver o fato saiu de seu carro e pulou no fosso retirando Adilson. As ariranhas estavam muito agitadas ou por estarem com crias, ou pelo calor ou talvez não terem sido alimentadas corretamente naquele domingo.

Até que o Sargento Holenbach pudesse ser tirado do fosso ele foi mordido dezenas de vezes pelas ariranhas. A queda ocorreu no dia 20 Agosto e dez dias depois veio falecer por infecção generalizada. Mesmo que as equipes médicas tivessem empregado o que mais moderno tinha na época foi impossível conter as infecções..

A viúva do sargento ao saber da prisão de Adilson chorou por quem o marido dela deu a vida. “Ela não quis fazer nenhum comentário a respeito do assunto”, ressaltou o filho dele o médico otorrinolaringologista, Sílvio Delmar Hollenbach.

O maior reconhecimento da ação do Sargento Holenbach está no que o chefe do Serviço de Emergência do Hospital das Forças Armadas, Dr Alfredo Granemann de Moraes, anotou na ocorrência que: “sem muitas palavras gostaria de deixar registrado a admiração, que nos causou o gesto do paciente.”

As famílias do herói e do garoto salvo por ele nunca tiveram contato. Nem mesmo houve um agradecimento formal. O filho, médico Sílvio Holenbach, no entanto, garante não haver mágoas por parte dos parentes dele. “Nunca cobramos ou esperamos esse agradecimento”, frisou.

Abaixo a homenagem do jornalista Lourenço Diaféria, publicada na Folha de São Paulo, em 01 Setembro de 1977. A publicação originou um processo em tribunal militar por 3 anos.


 

Herói. Morto. Nós.
(Itálicos DefesaNet)

...

*Lourenço Diaféria

 
Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo.

Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói, como o santo, é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel - onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer - oxidou-se no coração do povo.

O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento - apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher - salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas - como você tirou o menino de catorze anos - mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis - tarde demais.

*Lourenço Diaféria respondeu a processo nos tribunais militares, foi absolvido em 1979. Morreu em 2009.


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