Exclusivo – “Falta o governo enviar os recursos prometidos para a AVIBRAS” – Entrevista com Weller Gonçalves, Presidente do Sindicato Metalúrgicos SJC

O sindicalista Sr Weller Pereira Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, sendo entrevistado em frente à entrada da AVIBRAS, no dia da retomada das atividades, após 4 anos e 2 meses de greve. Foto Lucas Lacaz Ruiz especial para DefesaNet

“Falta o governo enviar os recursos prometidos para a AVIBRAS”  

Nelson Düring
Editor-Chefe DefesaNet
Fotos Lucas Lacaz Ruiz


DefesaNet entrevistou o sindicalista Sr Weller Pereira Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, em seu gabinete. O Sr Weller como presidente do sindicato conduziu a greve na AVIBRAS de quatro anos e doi smeses, O Editor de DefesaNet agradece a atenção do Sr Weller.

DefesaNet: Sr. Weller, o Brasil tem uma situação, um pouco esquizofrênica. Em especial para  a área de defesa – não podemos vender para quem está em conflito, ou seja, eu proponho um equipamento especial exatamente para o conflito, mas não posso vender para quem precisa dele. É o caso, por exemplo, da empresa IVECO, de Minas Gerais, tinha uma proposta para 400 viaturas blindadas Guarani para a Ucrânia e não foi aceito. Isso que para uso como ambulância,

Weller – Por isso defendemos que a AVIBRAS e demais empresas estratégicas sejam estatais. A própria AVIBRAS, fizemos toda uma campanha para que ela não fosse entregue ao capital estrangeiro. Mas com a DefendTex, que fez a primeira negociação e é uma empresa da Austrália, o negócio não vingou. O que chegou para nós é que eles queriam fabricar os mísseis aqui na fábrica em Jacareí, enviar para Austrália e, de lá, mandar para a Ucrânia, no conflito com a Rússia. Teria problema por conta do posicionamento neutro do Brasil. A NORINCO chinesa demonstrou interesse em comprar a AVIBRAS, porém os Estados Unidos de imediato falaram que teria sanção e veto se deixar a empresa para uma companhia chinesa. Então, de fato, você vender produtos de defesa não é igual a você vender picolé ou caneta. Vai depender da relação diplomática, que você tem e depende da linha política. Por isso que nós defendemos que a AVIBRAS tem que ser estatal e produzir para o governo federal, para a nossa defesa, porque o governo disse que comprando bastante de imprensa estrangeiras. E a indústria nacional, aqui no Vale do Paraíba, além da AVIBRAS, tem a AKAER, Modirum Gespi, SIATT, etc. Aqui, além de um polo do setor aeroespacial por causa da EMBRAER, está virando um polo das empresas fabricantes de produtos de defesa, eletrônica e espaciais, até pela mão de obra altamente qualificada. É uma mão de obra específica, que você só tem aqui na região. A Mac Jee também que tem uma fábrica em São José dos Campos e outra em Paraibuna (SP), ou seja, são empresas que estão fabricando mísseis, foguetes, veículos militares, entre outros componentes. Então é uma região que de fato é um grande polo do setor de defesa e é parte dessa contribuição estratégica para o país.

Como o Movimento Sindical, extrapolando aqui não só a questão de São José ou São Paulo, mas em uma perspectiva nacional observa essa posição quase única do sindicato aqui de São José, no seu apoio a essas empresas?

Weller: Olha, vamos lá. Você defender uma empresa estratégica é diferente da defesa de qualquer outra empresa. O que nós fizemos pela AVIBRAS é isso. Ultrapassou o que é o nosso papel enquanto Sindicato, mas temos orgulho de dizer que até dívidas em relação a atributos que a AVIBRAS tinha, procurávamos o governo para apoiar a negociação, porque isso pode dar problema no futuro por conta do produto fabricado. Acho que independente do pensamento ideológico que você tenha, pensar a defesa do país é tarefa de todos. Agora, em relação ao Movimento Sindical Nacional, o sindicato tem uma linha da independência. A crise da AVIBRAS começou, em 2022, quando o presidente era Bolsonaro. A gente cobrou. Hoje, o presidente é Lula, cobramos do mesmo jeito. A ampla maioria dos Sindicatos e Centrais Sindicais do Brasil apoia o governo do Lula, não têm uma linha de independência como a nossa. Então, por isso que eles não apoiaram a fundo a luta, porque é uma luta política também contra o governo. Nesse sentido, achamos que essa nossa linha de independência, diante de qualquer governo, é fundamental, porque, de fato, até agora, o que governo prometeu e não cumpriu. Esperamos que o governo faça os contratos, porque isso é importante para a manutenção da empresa, vamos seguir cobrando. Mas prometeram que se o João Brasil saísse do controle da empresa e tivesse um novo proprietário, um novo dono, teriam investimentos exclusivos. Fizemos manifestações pra tirar o João Brasil e, até agora, nada, mas seguimos.

Ação do Sindicato em frente da residência de João Brasil, 27 Fevereiro 2025, Foto Lucas Lacaz Ruiz Especial DefesaNet

E o que eles estão prometendo, os contratos não vieram?

Weller: Olha o que a nova AVIBRAS passa para a gente é que provavelmente terão contratos com empresas e governos do exterior. O Sami (Sami Hassuani CEO da AVIBRAS AEROCO), que assumiu a presidência da empresa e inclusive já está fazendo contatos, provavelmente Indonésia, Catar, Arábia Saudita, que são os clientes históricos, que a AVIBRAS sempre teve, mas nós achamos que é fundamental que o governo brasileiro tenha contratos com a empresa também.

Falamos com o Sami, uns meses atrás, e mencionou, que em 2025 visitou os clientes do Oriente Médio e em 2026 seria os da Ásia. Você sabe que as munições têm prazo de validade então há um amplo mercado para revitalizar os sistemas, e também munições novas.

Weller – Isso é verdade. O mais provável é que, de imediato, venham esses foguetes para revitalizar o que gerará todo o processo de voltar para cá, fazer aí essa revitalização e retornar para o cliente. De fato, é isso. A realidade que passa hoje no Oriente Médio. Então, provavelmente, a AVIBRAS vai vender pra caramba para esses países, que já têm produto dela, que no primeiro momento é essa manutenção, mas provavelmente vai ter novos contratos também.

A AVIBRAS sempre se distinguiu pela confiabilidade e estabilidade do propelente.

Weller – Ela tem essa fábrica, em Jacareí (SP), mas tem também uma fábrica em Lorena

(SP), que é onde fabrica o propelente. É uma fábrica grande também. É isso. É uma grande vitória, de fato.

O Sindicato também atua na fábrica de Lorena?

Weller – Lá, existe o Sindicato dos Metalúrgicos de Lorena, é outra base por ser outra cidade.

Mas lá também ficou parado?

Weller – Ficou parado esse tempo todo, a mesma coisa, retomando agora.

São quantos operários lá?

Weller – Era menos. Lá eram 160 trabalhadores e em Jacaeí 1.400. Bem menos.

Ação do Sindicato pelos 1.000 dias de greve em frente à AVIBRAS

Dessa luta, quais ensinamentos, vitórias, o que tem pela frente?

Weller – Olha, desses 4 anos, o que temos pra contar é bastante coisa. A gente, tá vendo até para escrever um livro da história dessa luta, não foi qualquer coisa. Agora, o que eu digo é o seguinte. Inclusive, eu fiquei com essa marca da AVIBRAS. Muita gente até pensa que eu trabalho lá e não é o caso. Eu sou metalúrgico da Bosch. Na tarefa da presidência do Sindicato, que encarei de frente essa luta e o mais importante para a gente ter a participação dos trabalhadores durante todo o processo de luta. Porque uma coisa é o dirigente sindical ficar sozinho. Ele pode ter a boa intenção, mas se você não tiver o trabalhador junto e tudo que fizemos: de audiência pública, das manifestações para chamar atenção da sociedade e cobrar tudo isso é com a participação dos trabalhadores. E uma greve de 1280 dias não é qualquer coisa, e não era apenas a questão trabalhista, que é a nossa tarefa. O debate da questão política, da soberania que a fizemos com a sociedade.

Essa greve foi a mais longa história do Movimento Sindical Brasileiro?

Weller: A segunda. Teve uma na ditadura militar, a greve “dos queixadas” (1962 a 1969) , na região de Perus em São Paulo, em uma fábrica de cimento, que durou 7 anos. Então, essa é a segunda. Mas, em relação à importância política é uma das mais importantes.

Até porque passou por vários governos de tendências diferentes.

Weller – É pelo produto fabricado também! Então não foi qualquer coisa aí esses 4 anos. Muito história para contar. Mas a gente fica feliz. Inclusive, isso é uma contribuição para o nosso país, dado o cenário geopolítico internacional, ter a volta da Avibras é uma grande vitória.

Acompanhando a cobertura das assembleias, eu via as fotos que o Lucas (Lucas Lacaz correspondente DefesaNet em SJC) mandava e a face do pessoal mostrava muita tensão e abatimento nos últimos atos.

Weller – Ah sim, claro. E muita gente já dava a AVIBRAS como falida. “Isso ai já foi, agora é administrar a falência”. E a gente sempre falava: enquanto tiver um trabalhador de pé, com disposição de luta, o sindicato sempre vai estar junto.

Você fez uma maratona por gabinetes em Brasília, desde Ministros, mais a Câmara, o Senado.

Weller – Prefeitura, câmara de vereadores, fazendo campanha de arrecadação de alimentos para fornecer cestas básicas. A de São José liberou uma vez, a de Jacareí 3 vezes..

Pouco apoio.

Weller – A gente pediu a isenção do pagamento das tarifas públicas e não liberaram. É isso. Isenção para o agronegócio de 500 mil no ano sai.  

Ocorreram falecimentos ao longo do período da greve?

Weller – Sim, teve quatro falecimentos. Um que a gente sabe que é o Sérgio, ficou bem doente por conta disso. Ele se envolveu bastante com a luta. Isso gera um monte de problemas de saúde, problemas na família. E na nossa opinião, ele morreu por causa disso.

E agora, Weller, você sente firmeza nas propostas da nova administração?

Weller – Olha, o sindicato tem a tarefa de organizar a luta dos trabalhadores independente de quem seja o empresário. Inclusive, teve a polêmica lá com a JBS. Ah, o Joesley Batista investindo na AVIBRAS. Cara, já foi preso e tal. Enfim. Se for ver a quantidade de patrão que foi preso por corrupção. Então, a gente não escolhe com quem vai negociar. Foi feito o acordo para o pagamento das dívidas trabalhistas de forma parcelada. Vamos exigir o cumprimento do acordo e que daqui para frente se respeite o que são os direitos dos trabalhadores. O que nós achamos aqui é que o cenário para esse setor é bem positivo.

Sim, esse é o momento oportuno.

Weller – Infelizmente, o mundo passa por essa situação e é isso. A AVIBRAS fabrica armas de destruição em massa. Seria bom se ela produzisse exclusivamente, pensando a estratégia de defesa do nosso país, mas o mundo é capitalista. E o novo empresário, ele vai querer ter lucro. Se eles estão fazendo um investimento tão alto é porque eles têm, sim, a previsibilidade de que, pelo menos a médio prazo, eles vão ganhar muito dinheiro, porque o negócio é altamente lucrativo.

Qual é o plano que os empresários apresentaram a vocês na retomada? E quais são as próximas etapas?

Weller – Olha, eles falam da possibilidade de contratos imediatos com o Oriente Médio, e também a possibilidade de um contrato com Exército Brasileiro. Para este primeiro momento, são cerca de 500 trabalhadores. Já voltaram 270, vai voltar cerca de 240 a partir do mês de Junho. Isso é uma operação mínima. Mas nós achamos que a AVIBRAS tem, sim, grande chance de, em breve, voltar a ter os 1400 trabalhadores que tinham em 2022 quando entrou na recuperação judicial.

Até ao momento, tudo bem. O que foi acertado, está andando?

Weller: Sim, a fábrica voltou dia 4 de maio 2026. Uma grande vitória, não é? Agora sim. A fábrica voltou, tá funcionando já. Tem ônibus levando os trabalhadores, tem o restaurante servindo comida. Ou seja, depois de 4 anos e 2 meses de fábrica parada, voltou. Esse é o primeiro passo e isso é muito importante. De fato, a volta da AVIBRAS, não é qualquer coisa. É um marco na história do País. Não só do nosso Sindicato, mas da história da luta Sindical no Brasil e a importância política que têm. Por mais que exista um setor da sociedade que não goste de sindicato, mas nessa aqui não tem como. Falar da AVIBRAS sem falar do Sindicato dos Metalúrgicos é impossível.

Õnibus com funcionários chegando na manhã de 04 Maio de 2026 Foto Lucas Lacaz Ruiz Especial DefesaNet

Agora vou recuperar o que  a parte que nós falamos como a área de São José se qualificou e se especializou em equipamentos de alta tecnologia e equipamentos de defesa. Como é que você vê o crescimento dessa área, nos últimos tempos, aqui na região, e o envolvimento do sindicato?

Olha, aqui sempre foi um polo do setor aeroespacial por causa da EMBRAER. É uma mão de obra altamente qualificada. Eu até costumo dizer o seguinte? São poucos países do mundo que tem capacidade de colocar a lata para voar e a gente tem aqui, a EMBRAER. Inclusive, só aqui são 11 mil trabalhadores direto. E essas empresas do setor de defesa, que além da AVIBRAS, nós temos aqui a Modirum Gespi, a Mac Jee, a SIATT, e a AKAER. Primeiro, é uma mão de obra qualificada. Segundo, é uma geração de tecnologia importante e, em um cenário de desindustrialização, no Brasil, essas empresas são importantes porque pagam um salário diferenciado do que é a média de mercado. Então, é um emprego com grande qualidade. Outra coisa, uma empresa metalúrgica, deste setor, funcionando: não é apenas os empregos diretos, mas temos que falar também dos indiretos. Como eu falei, fomos lá recepcionar os trabalhadores da AVIBRAS e lá estava o transporte fretado. Isso gerou emprego para motorista de ônibus, que leva os trabalhadores para a fábrica. Lá estava a cozinha industrial, que faz a comida para os trabalhadores e gera o emprego para a nutricionista e para a cozinha. Lá estava a empresa que faz a limpeza da fábrica, então gerou o emprego para o auxiliar de limpeza. Sem falar na manutenção predial que vai gerar emprego para aquele que vai lá cortar a grama. então, a indústria funcionando, tem essa importância. Por isso que é preocupante o processo de desindustrialização que passa o país. Porque, se a gente for depender apenas de exportação de commodities, isso não alimenta a economia de um país tão grande como o nosso. Então, você tem a volta da AVIBRAS, você ter uma EMBRAER com 11 mil trabalhadores aqui, isso significa, no mínimo, 20 mil em toda a cadeia de trabalhadores e os indiretos. E, o mais importante é a geração de tecnologia. Isso não sou eu que falo, isso são os especialistas, que dizem que existem 3 empresas importantes do ramo de tecnologia no Brasil, que são: EMBRAER, PETROBRAS e AVIBRAS. Se a gente tivesse perdido uma empresa dessas seria um crime para o nosso país. Infelizmente, na nossa opinião, os governos não fizeram a sua parte, foi apenas o Sindicato dos Metalúrgicos junto com os trabalhadores, por isso que é uma luta histórica.

Agora, um pouco da história do Weller Gonçalves. Você é presidente do sindicato quantos anos aqui?

Weller – Olha, eu milito no movimento político, eu sou do PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, já tem 20 anos. Eu comecei a minha história como metalúrgico na cidade de São Carlos. Aí vim para o Vale do Paraíba, em 2011. Eu sou metalúrgico da Bosch, antiga fábrica da Hitachi, aqui em São José, fábrica de ar-condicionado. Eu entrei para a diretoria do Sindicato, no ano de 2015, e para presidência no ano de 2018, onde eu estou no terceiro mandato e com certeza, são várias lutas, que a gente trava, que como várias greves dos trabalhadores da GM, dos trabalhadores da EMBRAER, mas a marca que fica no meu público na minha história, com certeza foi essa luta da AVIBRAS. Porque não foi apenas uma luta trabalhista, pois foi uma grande vitória ter o acordo dos 280 milhões para pagamento, mesmo que parcelado, mas de saber dessa luta, que contribui para a volta de uma das empresas mais importantes que a gente tenha no nosso país. Então, a marca da luta da AVIBRAS é o que fica aí para minha história e para o meu currículo.

Muito obrigado.

Weller – Maravilha, sensacional.

Momentos de 4 de Maio data da retomada das atividades agora da AVIBRAS AEROCO

O Editor-Chefe de DefesaNet com o sindicalista Sr Weller Pereira Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região,

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