Mais do que uma disputa por algoritmos, Pequim procura influenciar as regras que orientarão o desenvolvimento da IA nas próximas décadas, ampliando a competição estratégica com os Estados Unidos para além do campo tecnológico.
Por Ricardo Fan – DefesaNet
O discurso do presidente chinês Xi Jinping durante a World Artificial Intelligence Conference (WAIC), realizada em Xangai, marcou mais um capítulo da crescente competição estratégica entre China e Estados Unidos no campo da Inteligência Artificial (IA).
Ao defender uma governança internacional mais inclusiva, ampliar a cooperação tecnológica com países em desenvolvimento e propor a criação de novos mecanismos multilaterais voltados à IA, Pequim deixou claro que sua ambição vai além da liderança tecnológica: o objetivo é participar da definição das regras que organizarão a economia digital do século XXI.
Embora parte da cobertura internacional tenha apresentado a iniciativa como um desafio direto à hegemonia americana na IA, uma análise mais ampla demonstra que a disputa atual ocorre em múltiplas dimensões. Não se trata apenas de quem desenvolve os modelos mais avançados, mas também de quem controla infraestrutura, cadeias de suprimentos, padrões técnicos e mecanismos internacionais de governança.
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A governança da IA torna-se o novo campo da disputa geopolítica
O discurso do presidente chinês Xi Jinping durante a World Artificial Intelligence Conference (WAIC) ganhou dimensão prática com a assinatura do acordo que criou a World AI Cooperation Organization (WAICO), iniciativa que reúne 29 países fundadores e estabelece em Xangai a sede de um novo organismo internacional dedicado à cooperação em Inteligência Artificial. Mais do que um fórum de debates, a organização representa a tentativa de institucionalizar uma estratégia de longo prazo voltada à ampliação da influência chinesa sobre a governança global da IA.
O anúncio da WAICO evidencia que a competição entre China e Estados Unidos ultrapassou a corrida pelo desenvolvimento de modelos de Inteligência Artificial mais sofisticados. A disputa passa agora a abranger a construção das instituições que poderão definir normas técnicas, princípios regulatórios, mecanismos de cooperação internacional e padrões de interoperabilidade para uma tecnologia que tende a transformar setores como economia, defesa, indústria, segurança pública e administração governamental.
Ao defender maior participação dos países em desenvolvimento na formulação das regras internacionais, incentivar mecanismos multilaterais de cooperação e promover o compartilhamento de conhecimento e infraestrutura tecnológica, Pequim busca consolidar uma alternativa ao modelo de governança predominantemente influenciado pelos Estados Unidos e seus aliados.
A proposta procura apresentar a China como líder de uma arquitetura internacional mais representativa dos interesses do chamado Sul Global, ampliando seu capital diplomático junto às economias emergentes.
A criação da WAICO também revela uma mudança importante na estratégia chinesa. Em vez de concentrar seus esforços exclusivamente no fortalecimento de suas empresas de tecnologia ou na expansão de sua capacidade industrial, Pequim passa a investir na construção de instituições internacionais permanentes, capazes de promover cooperação científica, intercâmbio tecnológico, formação de especialistas e, futuramente, influenciar a elaboração de princípios, certificações, padrões técnicos e mecanismos regulatórios aplicáveis à Inteligência Artificial.
Sob a perspectiva geopolítica, essa estratégia não constitui uma novidade. Nas últimas duas décadas, a China adotou abordagem semelhante ao criar ou liderar organismos multilaterais como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) dos BRICS. Em todos esses casos, o objetivo não foi apenas ampliar a cooperação econômica, mas também construir instrumentos capazes de aumentar a influência chinesa sobre a arquitetura da ordem internacional, oferecendo alternativas às instituições tradicionalmente lideradas pelo Ocidente.
A história das relações internacionais demonstra que o exercício do poder não depende exclusivamente da superioridade econômica ou militar. Quem estabelece normas, padrões técnicos e regras de funcionamento frequentemente exerce influência duradoura sobre todo o sistema internacional. A aviação civil, as telecomunicações, a internet, os sistemas financeiros e o comércio internacional ilustram como organismos reguladores e instituições multilaterais moldaram a evolução desses setores por décadas.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial passa a ocupar posição semelhante. A definição de protocolos de segurança, critérios éticos, padrões de interoperabilidade, certificações e mecanismos de governança poderá exercer influência tão significativa quanto o desenvolvimento dos próprios algoritmos. A competição deixa de ser apenas tecnológica e assume uma dimensão institucional, na qual o poder será medido também pela capacidade de formular as regras que orientarão o funcionamento da economia digital global.
Se conseguir ampliar sua adesão e conquistar legitimidade internacional, a WAICO poderá transformar-se em um dos principais instrumentos da diplomacia tecnológica chinesa. Mais do que estimular projetos de pesquisa ou cooperação científica, a organização poderá contribuir para moldar a arquitetura normativa da Inteligência Artificial nas próximas décadas, consolidando a estratégia de Pequim de exercer influência não apenas por meio da inovação tecnológica, mas também pela construção das instituições que regularão seu desenvolvimento e utilização em escala mundial.
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A corrida pela IA vai muito além dos grandes modelos
A competição sino-americana costuma ser retratada como uma disputa entre empresas responsáveis pelos modelos de linguagem mais sofisticados. De um lado estão OpenAI, Google DeepMind, Anthropic, Meta e xAI; do outro, empresas chinesas como DeepSeek, Alibaba, Baidu e Tencent, que reduziram significativamente a distância tecnológica nos últimos anos.
Entretanto, essa visão representa apenas uma parcela do cenário.
A liderança em Inteligência Artificial depende da convergência de diversos fatores estratégicos: disponibilidade de semicondutores de alto desempenho, capacidade de processamento em larga escala, acesso a grandes volumes de dados, infraestrutura energética para alimentar data centers, ecossistemas de pesquisa, investimentos privados e políticas públicas voltadas à inovação.
Sob esse aspecto, Estados Unidos e China apresentam vantagens distintas. Washington continua concentrando parte significativa da pesquisa de fronteira e das empresas responsáveis pelos modelos mais avançados, enquanto Pequim se destaca pela capacidade de implementar rapidamente novas tecnologias em escala nacional, integrando planejamento estatal, setor industrial e mercado consumidor.
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A IA como instrumento de política externa
A estratégia chinesa também evidencia uma mudança importante na forma como as grandes potências utilizam tecnologia em suas relações internacionais.
Durante décadas, influência diplomática esteve associada à oferta de financiamento, infraestrutura, cooperação militar ou investimentos industriais. Na atual competição tecnológica, Inteligência Artificial passa a integrar esse conjunto de instrumentos.
Além de exportar plataformas digitais, Pequim amplia iniciativas envolvendo treinamento de especialistas, compartilhamento de modelos de código aberto, cooperação em computação de alto desempenho e desenvolvimento conjunto de aplicações voltadas à administração pública, segurança, agricultura, saúde e cidades inteligentes.
Para diversos países emergentes, essas iniciativas representam acesso a capacidades tecnológicas antes concentradas nas economias desenvolvidas, fortalecendo simultaneamente a influência diplomática chinesa.

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Semicondutores continuam sendo o principal fator limitante
Apesar da ofensiva diplomática, a liderança tecnológica permanece condicionada ao acesso aos semicondutores mais avançados.
Os Estados Unidos continuam exercendo significativa vantagem nesse segmento por meio de empresas como NVIDIA, AMD e outros fornecedores estratégicos, além do controle exercido em conjunto com aliados sobre equipamentos essenciais para fabricação de chips de última geração.
As restrições impostas à exportação de componentes avançados têm obrigado a China a acelerar investimentos em autonomia tecnológica, mas especialistas avaliam que essa transição ainda exigirá anos de desenvolvimento industrial e científico.
Assim, embora Pequim avance rapidamente em software e aplicações de IA, sua capacidade permanece parcialmente condicionada às limitações existentes na cadeia global de semicondutores.
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Uma nova bipolaridade tecnológica
A evolução recente indica que o sistema internacional caminha para uma configuração distinta daquela observada nas últimas décadas.
Em vez de uma única liderança tecnológica, cresce a possibilidade de formação de dois grandes ecossistemas parcialmente independentes.
De um lado, um conjunto liderado pelos Estados Unidos, apoiado por seus aliados tradicionais e baseado em empresas privadas de alcance global.
Do outro, um ambiente tecnológico impulsionado pela China, caracterizado por forte coordenação estatal, ampla integração industrial e crescente cooperação com países da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina.
Essa dinâmica tende a influenciar não apenas a Inteligência Artificial, mas também setores como computação em nuvem, redes 6G, satélites, cidades inteligentes, robótica, sistemas autônomos e aplicações militares baseadas em IA.
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A nova batalha pelas regras da Inteligência Artificial
– A visão favorável à estratégia chinesa
Os defensores da iniciativa liderada por Pequim argumentam que a governança internacional da Inteligência Artificial não pode permanecer concentrada nas grandes empresas de tecnologia e nos governos das economias desenvolvidas, sob o risco de consolidar uma nova forma de dependência tecnológica global. Na avaliação desse grupo, tecnologias capazes de transformar a economia, a segurança, a educação e a indústria devem ser reguladas por mecanismos multilaterais que reflitam maior diversidade de interesses e contem com participação efetiva dos países emergentes.
Sob essa perspectiva, a proposta chinesa de ampliar a cooperação internacional, incentivar modelos de código aberto, compartilhar infraestrutura tecnológica e estabelecer novos fóruns internacionais representa uma alternativa ao atual modelo, predominantemente influenciado pelos Estados Unidos e seus aliados. Para muitos países do chamado Sul Global, essa estratégia pode ampliar o acesso a tecnologias avançadas, reduzir barreiras de entrada para pesquisa e desenvolvimento e acelerar processos de transformação digital sem depender exclusivamente das plataformas ocidentais.
Os defensores dessa visão também observam que, ao longo das últimas décadas, diversas normas internacionais relacionadas à internet, ao comércio digital e às tecnologias da informação foram construídas sob forte influência das economias desenvolvidas. A criação de novos mecanismos de governança seria, portanto, uma tentativa de tornar essa arquitetura mais representativa de um cenário internacional cada vez mais multipolar.
– As limitações e os desafios da proposta
Por outro lado, especialistas alertam que a capacidade de influenciar a governança internacional depende menos da retórica diplomática e mais da sustentação tecnológica, científica e industrial que um país é capaz de oferecer. Embora a China tenha reduzido significativamente a distância em áreas como pesquisa aplicada, inteligência artificial generativa, computação em larga escala e integração entre governo e indústria, ainda enfrenta limitações estruturais em setores considerados críticos, especialmente na produção de semicondutores de última geração e em determinados equipamentos indispensáveis para a fabricação de chips avançados.
Além das restrições tecnológicas, persistem preocupações internacionais relacionadas à transparência dos algoritmos, proteção de dados, propriedade intelectual, liberdade acadêmica e independência das instituições reguladoras. Diversos países avaliam que modelos de governança exigem elevado grau de confiança entre os participantes, aspecto que ainda representa um desafio para a estratégia diplomática chinesa.
Outro fator limitante é a permanência de uma ampla vantagem ocidental em diversos componentes do ecossistema global de inovação. Estados Unidos e aliados continuam concentrando parte significativa das universidades de referência, dos centros de pesquisa, do capital de risco, das empresas responsáveis pelos modelos de IA mais avançados e dos organismos internacionais responsáveis pela definição de padrões técnicos. Essa combinação de capacidade científica, financeira e institucional dificulta mudanças rápidas no atual equilíbrio tecnológico.
Nesse contexto, a iniciativa chinesa dificilmente substituirá, no curto prazo, a influência exercida pelos Estados Unidos. O cenário mais provável é o de uma competição prolongada pela definição das normas, dos padrões técnicos e das instituições que regularão o desenvolvimento da Inteligência Artificial, consolidando uma nova dimensão da rivalidade estratégica entre as grandes potências, na qual a disputa pelo poder será travada não apenas pela inovação tecnológica, mas também pela capacidade de estabelecer as regras que orientarão seu emprego em escala global.
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Contextualização Estratégica
A disputa entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas uma corrida pela criação dos modelos de Inteligência Artificial mais sofisticados. Ela passou a envolver infraestrutura computacional, cadeias de suprimentos, normas internacionais, propriedade intelectual, diplomacia tecnológica e influência política.
Em outras palavras, a competição desloca-se do domínio exclusivo da inovação para a capacidade de estabelecer os padrões que orientarão seu uso global.
Esse movimento guarda paralelos com disputas históricas envolvendo telecomunicações, navegação, internet e sistemas financeiros internacionais, nos quais o poder foi exercido não apenas por quem possuía a melhor tecnologia, mas também por quem definiu as regras de funcionamento do sistema.
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Implicações Estratégicas
Para países como o Brasil, a crescente bipolarização tecnológica impõe desafios relevantes. A adoção de soluções de Inteligência Artificial passará a envolver não apenas critérios técnicos ou econômicos, mas também considerações relacionadas à segurança digital, soberania tecnológica, proteção de dados, interoperabilidade e alinhamentos geopolíticos.
Na área de defesa, a IA já se consolida como elemento essencial em sistemas de comando e controle, apoio à decisão, guerra eletrônica, logística, vigilância, inteligência e operação de sistemas autônomos. A definição dos padrões tecnológicos adotados hoje poderá influenciar a interoperabilidade militar e a autonomia estratégica das próximas décadas.
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A disputa não é apenas pela IA, mas pelas regras do futuro
O pronunciamento de Xi Jinping não representa uma confirmação de que a China tenha ultrapassado os Estados Unidos na liderança da Inteligência Artificial. Seu verdadeiro significado estratégico é mais amplo: sinaliza a intenção de ampliar a influência chinesa sobre a arquitetura institucional que regulará essa tecnologia em escala global e de reduzir a predominância ocidental na definição de normas, padrões técnicos e mecanismos de governança.
A competição entre Washington e Pequim já não se restringe ao desenvolvimento de algoritmos mais sofisticados ou ao lançamento de modelos de IA cada vez mais avançados. Ela passou a abranger uma ampla gama de fatores estratégicos, incluindo a produção de semicondutores, a capacidade de processamento em larga escala, o controle das cadeias globais de suprimentos, a definição de padrões tecnológicos, a diplomacia digital e a construção de instituições capazes de estabelecer as regras do ambiente internacional.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma tecnologia disruptiva para assumir o papel de infraestrutura estratégica do século XXI. Assim como ocorreu com o domínio dos oceanos no século XIX ou com a supremacia aeroespacial e nuclear durante a Guerra Fria, a capacidade de influenciar o desenvolvimento da IA tende a tornar-se um dos principais instrumentos de projeção de poder das grandes potências.
Para países como o Brasil, esse cenário exige uma abordagem pragmática. Mais do que escolher entre os ecossistemas tecnológico americano ou chinês, será fundamental preservar autonomia decisória, fortalecer a Base Industrial de Defesa, investir em pesquisa nacional, formar recursos humanos altamente qualificados e participar ativamente dos fóruns internacionais que definirão os padrões de interoperabilidade, segurança e governança da IA.
A questão central, portanto, não é determinar quem lidera hoje a Inteligência Artificial, mas identificar quem terá condições de moldar seu futuro. A potência que conseguir combinar inovação tecnológica, capacidade industrial, influência diplomática e liderança normativa não apenas desenvolverá sistemas mais avançados, mas também estabelecerá as regras sob as quais governos, empresas e sociedades utilizarão a IA nas próximas décadas. É nessa arena — menos visível que a corrida pelos modelos generativos, porém muito mais decisiva — que se desenrola a verdadeira competição estratégica entre Estados Unidos e China.
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