Anúncios de um comando americano de guerra autônoma e de projetos de inovação ampliam a disputa pela capacidade de integrar drones, robôs e inteligência artificial à organização, à indústria e ao emprego do poder militar.
Por Ricardo Fan – DefesaNet
…
(RDN) A criação anunciada de um comando americano dedicado à guerra autônoma acrescenta uma dimensão institucional à transformação observada no campo de batalha ucraniano. Em pronunciamento realizado em 30 de setembro, na Base do Corpo de Fuzileiros Navais de Quantico, Pete Hegseth apresentou o Autonomous Warfare Command, ou AutoWarCom, destinado a ampliar a incorporação de capacidades autônomas e robóticas às forças dos Estados Unidos. A proposta prevê um comando chefiado por um oficial de quatro estrelas. reuters.com
O anúncio desloca o debate para uma questão que ultrapassa o desempenho dos equipamentos: como organizar uma força capaz de desenvolver, adquirir, integrar e empregar sistemas que podem mudar mais rapidamente do que os processos militares encarregados de incorporá-los?
Na reportagem “Ucrânia projeta um exército de robôs para reduzir a exposição de soldados no front”, o DefesaNet examinou a iniciativa privada apresentada por Mykhailo Fedorov e os limites da transferência de tarefas humanas para máquinas. O ponto central era a necessidade de converter protótipos e experiências em missões confiáveis, repetíveis e sustentáveis. Os anúncios americanos permitem avançar nessa discussão, examinando as estruturas que deverão sustentar essa capacidade. www.defesanet.com.br
A convergência entre os dois casos está no reconhecimento de um problema organizacional. A tecnologia pode ampliar as possibilidades de emprego, mas seu valor militar depende de quem estabelece requisitos, autoriza compras, prepara operadores, mantém equipamentos e transforma a experiência das unidades em melhorias.
…
Da necessidade no front à transformação institucional
A experiência ucraniana oferece uma referência concreta para medir a expansão da robotização terrestre. Segundo o Ministério da Defesa, o sistema DELTA registrou aproximadamente 112 mil missões de logística e evacuação executadas por veículos terrestres não tripulados desde o início de 2026 até o começo de setembro. Somente em agosto foram 25.143 missões, cerca de 3,3 vezes o volume de janeiro. mod.gov.ua
Esses registros indicam adoção crescente em tarefas essenciais à sustentação das tropas. Não demonstram, isoladamente, autonomia decisória, taxa de sucesso ou redução mensurada de baixas. Também não comprovam a viabilidade de uma infantaria humanoide. Sua relevância está em mostrar que sistemas terrestres não tripulados já participam de uma rotina operacional que exige treinamento, manutenção, reposição e coordenação.
A iniciativa Army of Robots, apresentada por Fedorov em setembro, procura ampliar o desenvolvimento tecnológico por meio de empresas, investimentos e testes com militares. Sua natureza privada precisa ser distinguida da reorganização estatal anunciada em Washington. Não há base para estabelecer uma relação causal direta entre os projetos.
A comparação é útil porque revela caminhos diferentes para enfrentar uma dificuldade comum: transformar necessidades militares em soluções disponíveis antes que a ameaça ou o ambiente operacional tornem essas soluções insuficientes.

…
Agincourt: aproximar aquisição e emprego
O Project Agincourt deverá preparar a implantação do AutoWarCom e desenvolver mecanismos de adaptação mais rápidos. O novo comando tem funcionamento previsto para outubro de 2027, o que situa o anúncio no campo da construção institucional, ainda dependente da definição de atribuições, recursos e procedimentos. www.wsj.com
Na apresentação de Hegseth, Agincourt inclui a aproximação entre operadores e empreendedores, com decisões e recursos distribuídos mais perto das unidades e dos comandos operacionais. Exercícios realistas e, quando possível, experiências de combate deverão alimentar os ciclos de desenvolvimento e avaliação. www.twz.com
A lógica procura reduzir a distância entre quem identifica o problema e quem pode modificar o sistema. Uma unidade que encontra dificuldades de comunicação, navegação ou emprego de sensores precisa conseguir transmitir essa experiência ao fabricante e receber uma solução em prazo operacionalmente relevante.
Entretanto, acelerar aquisições exige critérios claros. Uma modificação útil para determinada missão pode criar problemas de manutenção, treinamento ou compatibilidade quando ampliada para outras unidades. A flexibilidade precisa ser acompanhada por mecanismos capazes de registrar resultados, comparar alternativas e preservar padrões essenciais.
O desafio será conciliar experimentação local e integração conjunta. Permitir que unidades testem soluções diferentes pode ampliar a aprendizagem; transformar as melhores experiências em capacidade de força exige coordenação, documentação e suporte industrial.

…
Meridian: antecipar a guerra sem transformar previsão em certeza
O Project Meridian acrescenta um horizonte distinto. A iniciativa foi anunciada para estudar tecnologias e possibilidades de conflito de longo prazo, com participação de Elon Musk, Palmer Luckey e Newt Gingrich e apresentação de resultados prevista em 120 dias. ft.com
Hegseth descreveu um escopo que se estende do subsolo terrestre a regiões além da Lua. A formulação expressa a amplitude exploratória do projeto; não constitui demonstração de capacidades disponíveis ou anúncio de programas operacionais para todos esses ambientes. www.twz.com
Meridian poderá contribuir se identificar dependências tecnológicas, vulnerabilidades e possibilidades que os processos de planejamento existentes ainda não capturam adequadamente. Seu valor dependerá da passagem entre visão e escolha: quais hipóteses justificam pesquisa, quais exigem demonstrações e quais apresentam relevância suficiente para receber recursos?
Há uma tensão inevitável entre antecipar rupturas e atender necessidades imediatas. Investir apenas no que já funciona pode deixar uma força despreparada para mudanças futuras. Direcionar recursos excessivos a previsões pouco verificáveis pode comprometer capacidades necessárias no presente.
A prospecção estratégica precisa, portanto, trabalhar com cenários e graus de incerteza. O objetivo é preparar opções e orientar decisões, preservando a possibilidade de corrigir prioridades à medida que surgem novas evidências.

…
Coordenação ou nova camada burocrática?
O argumento favorável a um comando especializado está na possibilidade de dar prioridade, continuidade e responsabilidade à robotização. Uma estrutura com autoridade suficiente pode articular requisitos comuns, formação de pessoal, avaliação operacional e expansão industrial.
Também pode oferecer uma referência para tecnologias que atravessam diferentes forças e ambientes de emprego. Sensores, comunicações, software e sistemas de controle frequentemente precisam operar em conjunto, mesmo quando instalados em plataformas distintas.
O contraponto está na distribuição de competências. Sistemas robóticos precisam ser integrados às operações terrestres, aéreas e navais. Uma estrutura especializada que se afaste dessas necessidades pode criar um circuito próprio de aquisição e desenvolvimento, com dificuldades para incorporar seus resultados às unidades.
A centralização excessiva pode retardar a adaptação local. A descentralização sem coordenação pode multiplicar soluções incompatíveis e ampliar custos de suporte. O resultado dependerá de como serão divididas as responsabilidades por experimentar, adquirir, certificar, treinar, manter e empregar.
O teste institucional será concreto: verificar se a nova organização reduz o tempo necessário para entregar capacidades úteis e se essas capacidades permanecem disponíveis durante operações prolongadas.
…
Capacidades reais: disponibilidade, comunicações e controle
A avaliação da guerra robotizada precisa distinguir três condições: uma plataforma sem tripulação embarcada, um sistema controlado remotamente e um sistema capaz de executar determinadas funções de maneira autônoma.
A automação de navegação ou de análise de imagens não permite concluir que exista autonomia para selecionar e atacar alvos. Essa distinção deve orientar requisitos, treinamento, avaliação e definição de responsabilidades.
Também será necessário medir a dependência operacional de cada solução. Um equipamento pode retirar soldados de uma rota perigosa e, ao mesmo tempo, exigir equipes de recuperação, operadores adicionais, infraestrutura de comunicações e manutenção especializada.
O ganho precisa ser avaliado no conjunto da missão. Indicadores relevantes incluem disponibilidade, intervenções humanas, perdas, tempo de reparo, consumo energético e custo por tarefa concluída. Demonstrações bem-sucedidas oferecem evidência inicial; operações sustentadas exigem resultados repetidos sob condições adversas.
A rapidez de adaptação será uma vantagem apenas quando produzir mudanças verificáveis. Incorporar novidades continuamente, sem avaliar seus efeitos, pode aumentar a complexidade da força e reduzir sua previsibilidade.
…
Implicações para o Brasil
Para o Brasil, a principal questão é construir capacidade de aprendizagem e incorporação compatível com suas necessidades operacionais e seus recursos. A dimensão da estrutura americana não deve ser tomada como modelo automático.
Uma agenda nacional de robotização precisa começar por missões definidas, critérios de avaliação e acesso regular das empresas à experiência das tropas. Projetos devem avançar conforme demonstrem utilidade, disponibilidade e possibilidade de sustentação.
A relação com a indústria também exige continuidade. Protótipos precisam de oportunidades de teste, mas fabricantes necessitam de perspectivas de demanda para investir em produção, suporte e aperfeiçoamento. Compras episódicas podem entregar equipamentos sem consolidar a capacidade de mantê-los e modificá-los.
A autonomia tecnológica envolve ainda a possibilidade de reparar sistemas, atualizar software, integrar sensores e administrar dependências externas. O domínio dessas atividades influencia a capacidade de conservar equipamentos úteis quando fornecedores, componentes ou condições de emprego mudam.
Nesse contexto, experimentação e planejamento industrial precisam caminhar juntos. A força deve aprender com o equipamento; a indústria deve conseguir responder ao aprendizado.

…
A disputa pela capacidade de aprender
Os anúncios do Pentágono representam uma tentativa de adaptar a organização militar ao ritmo da transformação tecnológica. Seu alcance efetivo dependerá da implantação das estruturas, da definição de competências e da conversão de propostas em capacidades disponíveis.
A Ucrânia oferece experiência de emprego sob pressão contínua. Os Estados Unidos anunciam mecanismos para ampliar a incorporação de sistemas e antecipar novas possibilidades. Os casos apontam para uma disputa que envolve pessoas, processos, indústria e comando.
A robotização pode reduzir a exposição de militares e ampliar opções operacionais. Para alcançar esses resultados, precisa ser sustentada por uma força capaz de avaliar, corrigir e repetir aquilo que funciona.
A vantagem estratégica será medida pela capacidade de transformar aprendizagem em poder militar confiável — e de conservar essa capacidade quando o adversário começar a contestá-la.
…
Artigo relacionado:




















