Talibã: cinco anos depois de Cabul

Sem oposição capaz de ameaçar seu poder, o Emirado Islâmico consolida o controle do Afeganistão e amplia relações pragmáticas com Rússia, China, Índia e Europa, enquanto repressão, terrorismo e crise humanitária limitam sua legitimidade

Por Redação DefesaNet

(RDN) Cinco anos após a tomada de Cabul, em 15 de agosto de 2021, o Talibã já não pode ser tratado como uma força insurgente instalada provisoriamente no poder. O movimento transformou sua “vitória militar” em domínio territorial, concentrou a autoridade política em torno do líder supremo Hibatullah Akhundzada, neutralizou a oposição organizada e atravessou o período inicial de sanções e isolamento sem enfrentar uma ameaça capaz de derrubar o Emirado Islâmico.

O regime permanece formalmente reconhecido apenas pela Rússia, mas essa limitação diplomática deixou de representar isolamento operacional. China, Índia, Irã, Paquistão, países da Ásia Central, governos europeus e organismos internacionais mantêm canais de interlocução com Cabul.

As razões são pragmáticas: terrorismo, segurança de fronteiras, migração, comércio, exploração mineral, repatriação de cidadãos afegãos e estabilidade regional exigem algum grau de coordenação com quem efetivamente controla o país.

O Talibã, portanto, não apenas sobreviveu. Consolidou-se porque os principais atores regionais concluíram que negociar com o regime é menos dispendioso do que tentar substituí-lo. A normalização prática avança mais rapidamente do que qualquer mudança interna significativa, enquanto o Ocidente perde capacidade de condicionar o comportamento de Cabul.

Da insurgência ao monopólio do poder

A principal conquista do Talibã foi converter uma estrutura insurgente, organizada durante duas décadas para combater forças estrangeiras e o antigo governo afegão, em um sistema capaz de exercer autoridade sobre praticamente todo o território. A transição não produziu um Estado moderno ou institucionalmente inclusivo, mas recompôs um centro de poder após o colapso da República Islâmica do Afeganistão.

A guerra convencional desapareceu. A Frente Nacional de Resistência, concentrada em áreas do norte e associada a antigos adversários do Talibã, conserva capacidade limitada para realizar ações localizadas, mas não dispõe de força militar, apoio externo ou presença territorial suficiente para disputar Cabul. Outros grupos oposicionistas permanecem fragmentados, operando no exílio ou sem meios para sustentar campanhas prolongadas.

A redução dos combates trouxe efeitos concretos. Estradas que anteriormente estavam sujeitas a emboscadas, postos de controle rivais e ataques contra forças governamentais passaram a operar sob uma única autoridade. O Talibã também utiliza redes locais, estruturas religiosas, inteligência interna e mecanismos coercitivos para monitorar comunidades e impedir a reorganização de adversários.

Essa estabilidade, entretanto, não nasceu de reconciliação política. O regime não convocou eleições, não restabeleceu um Parlamento representativo e não incorporou forças opositoras a um sistema pluralista. As decisões estratégicas permanecem concentradas no núcleo religioso de Kandahar, sob a autoridade de Akhundzada, enquanto ministros e comandantes administram setores específicos sem constituírem centros autônomos de legitimidade.

O resultado é um monopólio da força relativamente eficiente, mas institucionalmente estreito. O Talibã controla o país porque derrotou ou neutralizou seus adversários, não porque tenha construído um pacto nacional abrangente.

Segurança relativa não significa pacificação

A redução da violência associada à antiga guerra não eliminou a ameaça terrorista. O Estado Islâmico–Khorasan, conhecido como ISIS-K ou ISKP, continua sendo o principal adversário armado do Emirado Islâmico e uma preocupação para governos da Ásia Central, Rússia, China, Irã e potências ocidentais.

O grupo procura explorar divisões religiosas, atacar comunidades xiitas, atingir representantes estrangeiros e demonstrar que o Talibã não possui controle absoluto do ambiente jihadista. Sua capacidade territorial é inferior à observada em seus períodos de maior expansão, mas sua estrutura clandestina permanece capaz de organizar atentados, recrutar militantes e inspirar operações além das fronteiras afegãs. Em agosto de 2026, o Conselho de Segurança das Nações Unidas voltou a classificar a ameaça do Estado Islâmico–Khorasan como persistente.

O Talibã, por sua vez, transformou o combate ao ISIS-K em um dos principais argumentos para ampliar relações com governos estrangeiros. Cabul apresenta-se como barreira contra uma organização ainda mais radical, transnacional e hostil aos Estados da região. Essa narrativa tem utilidade diplomática: países que rejeitam o sistema político talibã podem justificar contatos operacionais como medida de contraterrorismo.

Existe, contudo, uma contradição estrutural. O Emirado combate o Estado Islâmico–Khorasan, mas continua sendo acusado de tolerar ou manter relações com outras organizações jihadistas, especialmente redes historicamente associadas à Al-Qaeda e ao movimento talibã paquistanês. A distinção entre combater um grupo terrorista e oferecer ambiente permissivo a outros limita a credibilidade internacional de Cabul.

Para o Paquistão, essa questão é particularmente sensível. Islamabad apoiou o Talibã durante diferentes fases da guerra, mas passou a enfrentar tensões crescentes com o novo governo afegão diante da presença de militantes do Tehrik-e-Taliban Pakistan em áreas próximas à fronteira. A antiga relação de dependência foi substituída por uma convivência difícil entre dois atores que compartilham vínculos históricos, mas possuem prioridades estratégicas divergentes.

O isolamento formal começa a perder relevância

O reconhecimento russo do Emirado Islâmico representou uma ruptura simbólica na política internacional em relação ao Afeganistão. Embora outros governos ainda evitem reconhecer formalmente o regime, a Rússia tornou explícita uma tendência já observada na prática: o Talibã passou a ser tratado como autoridade permanente.

A China mantém contatos diplomáticos e econômicos regulares com Cabul, avalia oportunidades de mineração e busca garantias de que grupos associados ao separatismo uigur não utilizarão o território afegão. Pequim não precisa endossar ideologicamente o Emirado para considerá-lo útil à segurança de sua fronteira ocidental e à proteção de seus interesses na Ásia Central.

A Índia, que havia evacuado sua embaixada em 2021, restabeleceu inicialmente uma presença técnica e posteriormente elevou sua representação diplomática. Nova Délhi procura preservar influência em um espaço tradicionalmente disputado com o Paquistão, impedir que o território afegão seja utilizado contra interesses indianos e manter acesso a projetos comerciais e de conectividade regional.

Irã e os países da Ásia Central também desenvolveram mecanismos de convivência. Para Teerã, pesam a segurança da fronteira, o fluxo de refugiados, os recursos hídricos compartilhados e a proteção da população xiita hazara. Para Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão, a prioridade está na prevenção da infiltração jihadista, no comércio e na manutenção dos corredores energéticos e logísticos.

A aproximação europeia é mais discreta, porém igualmente significativa. Governos que condenam as políticas talibãs negociam repatriações, deportações, acesso humanitário e medidas de segurança. O contato não equivale ao reconhecimento, mas produz uma normalização funcional: ministros e comandantes anteriormente associados a listas de sanções passaram a receber delegações, discutir concessões econômicas e participar de negociações internacionais.

A diferença entre legitimidade jurídica e utilidade política tornou-se, assim, o principal instrumento de reinserção do Talibã. O regime ainda não conquistou plena aceitação, mas já tornou sua exclusão impraticável.

A retirada ocidental e a perda de capacidade de influência

Os Estados Unidos e seus aliados conservaram instrumentos financeiros, sanções, influência sobre instituições multilaterais e capacidade de monitoramento remoto. Não conservaram, porém, presença territorial ou interlocutores internos capazes de condicionar decisivamente as escolhas de Cabul.

A política ocidental passou a depender de duas ferramentas: pressão diplomática e assistência humanitária. A primeira não conseguiu alterar a estrutura ideológica do regime. A segunda tornou-se vulnerável a cortes orçamentários e às próprias restrições impostas pelo Talibã às organizações internacionais.

Essa perda de influência tem origem no modo como terminou a intervenção. A retirada militar destruiu rapidamente a sustentação operacional do antigo governo, cujas forças dependiam de apoio aéreo, inteligência, manutenção, logística e financiamento estrangeiros. O colapso das instituições em agosto de 2021 demonstrou que parte significativa da capacidade estatal construída durante duas décadas não era autossustentável.

O Talibã interpretou esse desfecho como confirmação de sua estratégia: resistir por tempo suficiente até que os custos políticos e militares se tornassem insustentáveis para o adversário. Cinco anos depois, o regime não possui incentivos concretos para fazer concessões fundamentais, pois observa governos estrangeiros retomando contatos mesmo sem avanços em direitos políticos, participação feminina ou formação de um governo inclusivo.

A exclusão feminina como política de Estado

A repressão às mulheres não constitui um efeito secundário do governo talibã. Ela integra a própria arquitetura ideológica e institucional do Emirado.

Desde 2021, mais de cem decretos restringiram o acesso feminino à educação, ao emprego, à circulação, à saúde, à Justiça e aos espaços públicos. Aproximadamente 2,4 milhões de meninas foram impedidas de frequentar o ensino secundário. O Afeganistão permanece como o único país a proibir formalmente meninas de cursar o ensino médio e mulheres de frequentar universidades.

Levantamentos da ONU Mulheres indicam que 52% das afegãs deixam suas casas apenas uma ou duas vezes por mês, enquanto somente 7% permanecem empregadas, diante de uma participação masculina estimada em 84%.

As consequências ultrapassam a dimensão dos direitos individuais. A exclusão compromete a formação de professoras, médicas, enfermeiras e funcionárias públicas. Em uma sociedade na qual restrições culturais limitam o atendimento de mulheres por homens, impedir a formação de profissionais femininas também reduz o acesso da população à saúde.

A política produz efeitos econômicos cumulativos, retira milhões de pessoas da força de trabalho e amplia a dependência das famílias. Também prejudica as organizações humanitárias, que necessitam de funcionárias para alcançar mulheres e crianças em comunidades conservadoras.

O regime sustenta que os direitos femininos são respeitados de acordo com sua interpretação da lei islâmica e da cultura afegã. Na prática, porém, a progressiva ampliação das proibições demonstra que não se trata de uma acomodação temporária provocada pela transição de poder, mas de uma política deliberada e centralizada.

A crise humanitária pressiona uma estabilidade precária

O Afeganistão enfrenta uma combinação de pobreza, insegurança alimentar, desemprego, secas, fragilidade agrícola, restrições financeiras e redução da ajuda internacional. A aparente estabilidade das estruturas de segurança convive com uma sociedade dependente de assistência externa e exposta a choques climáticos e migratórios.

A pressão foi ampliada pelo retorno em massa de afegãos que viviam no Irã e no Paquistão. Até 1º de agosto de 2026, aproximadamente 1,08 milhão de pessoas haviam retornado ao país somente neste ano. Desse total, mais de 413 mil foram registradas como deportadas. Em 2025, os retornos chegaram a cerca de 2,9 milhões.

Muitos retornados chegam sem recursos, moradia ou perspectivas de emprego. As comunidades que os recebem já enfrentam dificuldades para acessar alimentos, água, saúde e educação. O movimento populacional, portanto, não representa apenas um problema humanitário, mas um possível vetor de instabilidade interna e regional.

Ao mesmo tempo, o financiamento internacional diminui. O apelo humanitário de US$ 1,7 bilhão das Nações Unidas estava apenas 25% financiado em agosto. Mais da metade das 74 organizações voltadas às mulheres consultadas pela ONU poderá suspender atividades ou encerrar operações no período de um ano.

Forma-se, assim, uma contradição adicional. Países que condenam o Talibã reduzem os recursos destinados justamente à população submetida às políticas do regime. A retração humanitária não necessariamente enfraquece a liderança talibã; pode, ao contrário, aumentar a dependência social das estruturas controladas pelo Emirado.

Estabilidade ou repressão administrada?

A interpretação favorável ao Talibã destaca três resultados: o fim da guerra convencional, a redução de parte da violência cotidiana e a recomposição de uma autoridade central. Depois de décadas de conflito, esses fatores possuem peso real para uma população que conviveu com ofensivas militares, atentados, deslocamentos e fragmentação territorial.

O regime também demonstrou capacidade para arrecadar receitas alfandegárias, controlar postos fronteiriços, reabrir rotas comerciais e impor decisões em regiões anteriormente disputadas. Sua permanência por cinco anos, sem uma rebelião militar de escala significativa, demonstra coesão superior à prevista por parte dos observadores em 2021.

O contraponto é que ausência de guerra não equivale a paz política. A estabilidade talibã está baseada na eliminação do pluralismo, na repressão ao dissenso, na concentração de poder e no fechamento do espaço cívico. Não existem mecanismos institucionais capazes de absorver conflitos sociais, étnicos e políticos sem recorrer à coerção.

Também seria prematuro transformar a contenção da oposição e do ISIS-K em prova de capacidade estatal consolidada. O Talibã possui eficiência na segurança interna e no controle social, mas enfrenta limitações em saúde, educação, administração econômica, infraestrutura e prestação de serviços. Sua capacidade anunciada de governar todo o país não corresponde integralmente à capacidade real de promover desenvolvimento e reduzir vulnerabilidades estruturais.

O mesmo cuidado deve ser aplicado à ideia de normalização internacional. O aumento dos contatos diplomáticos não significa aceitação das políticas do Emirado. Governos estrangeiros negociam com Cabul porque necessitam administrar riscos. O Talibã obteve reconhecimento de sua permanência, mas ainda não conquistou legitimidade ampla.

A acomodação regional redefine o tabuleiro

A consolidação do Emirado altera o equilíbrio na Ásia Central e Meridional. A Rússia ganha espaço ao romper o bloqueio diplomático e apresentar-se como interlocutora capaz de tratar segurança e terrorismo sem condicionar o diálogo a reformas políticas. A China amplia sua presença econômica e protege interesses na periferia ocidental. A Índia reduz o espaço estratégico paquistanês ao restabelecer contatos próprios com Cabul.

O Paquistão, apesar de sua histórica proximidade com o Talibã, não emerge necessariamente como vencedor. A autonomia demonstrada pela liderança afegã e o problema dos militantes paquistaneses evidenciam que Islamabad não controla o Emirado. A fronteira permanece fonte de tensão, e as deportações de afegãos acrescentam pressão humanitária e política.

O Irã ganha um interlocutor necessário, mas enfrenta riscos ligados à água, aos refugiados, ao tráfico e à segurança da comunidade xiita. Os países europeus procuram reduzir fluxos migratórios e prevenir ameaças terroristas, ainda que isso os obrigue a negociar com um governo cujas políticas condenam oficialmente.

Quem perde maior capacidade de influência é o Ocidente. Washington e seus aliados continuam economicamente relevantes, mas já não determinam a agenda política afegã. Quanto mais os atores regionais ampliarem suas relações com Cabul, menor será a eficácia do isolamento como instrumento de pressão.

Implicações de médio e longo prazo

A primeira implicação é a provável permanência do Talibã. Sem oposição militar organizada, intervenção estrangeira ou ruptura interna de grande escala, o Emirado possui condições para continuar governando. Mudanças poderão ocorrer por disputas internas entre o núcleo religioso de Kandahar e setores interessados em maior abertura econômica e diplomática, mas não há evidências de que essas divergências estejam próximas de provocar uma fragmentação decisiva.

A segunda é a consolidação de um modelo de reconhecimento gradual. Outros países podem seguir o movimento russo caso considerem que os benefícios econômicos e de segurança superam o custo político. Mesmo sem novos reconhecimentos formais, o aumento de missões diplomáticas, acordos comerciais e reuniões oficiais produzirá uma integração de fato.

A terceira é a permanência do risco terrorista. O ISIS-K continuará explorando insatisfações, divisões religiosas e limitações da segurança talibã. Ao mesmo tempo, a tolerância a outras redes jihadistas manterá dúvidas sobre o compromisso de Cabul com a prevenção de ameaças transnacionais.

A quarta é o aprofundamento do custo social da exclusão feminina. A retirada de meninas das escolas e universidades produzirá uma geração com menor qualificação, reduzirá o número de profissionais da saúde e ampliará a pobreza. Esse efeito poderá comprometer a própria governabilidade que o Talibã procura preservar.

Por fim, a combinação entre retorno forçado de refugiados, cortes na assistência internacional, mudanças climáticas e baixa capacidade econômica poderá transformar a crise humanitária no principal fator de instabilidade. O regime demonstrou capacidade para vencer uma guerra e controlar adversários, mas ainda não demonstrou capacidade equivalente para administrar uma sociedade submetida a pressões demográficas e econômicas crescentes.

Uma realidade que o exterior decidiu administrar

Cinco anos depois da queda de Cabul, o Talibã está mais distante da derrota do que da normalização. O regime não cumpriu as expectativas internacionais de inclusão política, respeito aos direitos femininos ou ruptura verificável com todas as redes extremistas. Mesmo assim, ampliou seus canais externos porque os países da região passaram a considerá-lo uma realidade permanente.

Essa acomodação não representa aprovação ideológica. Representa o reconhecimento de que nenhuma alternativa viável está disponível e de que os riscos produzidos pelo Afeganistão precisam ser administrados por meio de quem controla o território.

O Talibã venceu a disputa pela sobrevivência e começa a vencer o isolamento sem abandonar o núcleo de seu projeto político. Esse é o resultado estratégico mais relevante dos últimos cinco anos: o mundo aproxima-se de Cabul mais rapidamente do que Cabul se aproxima das condições exigidas pelo mundo.

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