A Fisiologia e a Final da Copa do Mundo

Ricardo Guerra
É Fisiologista do Exercício e tem
Mestrado em Fisiologia Esportiva,
pela Liverpool John Moores University.


Nota DefesaNet

O presente artigo foi escrito antes do jogo. Porém o que podemos notar é que a Argentina foi talvez afetada pela FUCO — Fatigue Unresolved Carry Over (Fadiga Residual Não-resolvida). O termo é descrito pelo autor no artigo.

O Editor




A Argentina chega com um desgaste fisiológico acentuado. A aguerrida equipe de Messi & Cia. vai à final após ter jogado duas prorrogações: contra Cabo Verde e Suíça. E também com um dia a menos de descanso pois jogou a semifinal contra a Inglaterra na quarta-feira, enquanto a Espanha enfrentou a França na terça. Essa desvantagem fisiológica da Argentina poderá vir à tona na final.

Durante a segunda fase da Copa do Mundo, o tempo de recuperação antes da partida seguinte talvez não seja suficiente. Assim, implementar estratégias de recuperação e controlar a carga de trabalho é fundamental.

Uma equipe pode se virar sem usar algumas dessas estratégias, quando apenas uma partida é disputada, com bastante tempo de descanso anteriormente. As estratégias de recuperação fisiológica são essenciais quando partidas consecutivas reduzem significativamente o tempo de recuperação. E são ainda mais importantes quando uma das equipes jogou uma prorrogação e a adversária, não.

E é exatamente essa a situação com a qual a Argentina se depara para enfrentar a Espanha, nesse domingo, na final da Copa do Mundo.

A Argentina poderá sofrer o que eu chamo FUCO — Fatigue Unresolved Carry Over (Fadiga Residual Não-resolvida), que descreve a dificuldade e desafios de uma equipe em se recuperar plenamente, após muitas partidas consecutivas.

Vale lembrar que a Argentina esteve em uma situação muito difícil contra a seleção da Suíça, minutos antes de o atacante Embolo ter sido expulso, infantilmente. Só após a expulsão a Argentina passou a dominar, pois jogava então com um a mais. A sorte estava do seu lado.

É difícil ignorar o fato de que todas as equipes entraram nessa Copa após terminarem exaustivas temporadas em seus campeonatos nacionais e continentais. Além de terem que enfrentar, nos Estados Unidos, temperaturas elevadas, às quais não lhes seria fácil se adaptar.

A segunda fase da Copa oferece excelente oportunidade para aplicar conhecimentos da Fisiologia e para melhorar a recuperação dos jogadores. Se uma equipe não quiser sucumbir ao FUCO, precisa do apoio da Ciência.

Nas últimas décadas, a Fisiologia do Exercício registrou avanços significativos. Esportes como o Ciclismo e o Atletismo foram pioneiros na incorporação de vários métodos de recuperação. Além deles, várias unidades de forças militares especiais adotaram essas técnicas, aprimorando seu desempenho físico e eficácia. Muitas adotaram uma abordagem inovadora e vanguardista, experimentando uma ampla gama de técnicas em vários domínios da Fisiologia para atingir o máximo desempenho. Elas adaptaram suas estratégias para atender às necessidades fisiológicas específicas de cada elemento, demonstrando notável flexibilidade. Observei de perto essas práticas e posso atestar esse espírito inovador.

Seguindo essa tendência, muitas equipes estão agora agregando abordagens semelhantes, alguns países se destaquem mais do que outros. Instituições escandinavas de pesquisa de renome internacional estabeleceram um alto padrão desde os primórdios da Fisiologia do Exercício.

Ao contrário da crença popular, os jogadores muitas vezes precisam de um tempo significativo para se recuperar entre as partidas. Após uma partida especialmente exigente, o sistema musculoesquelético pode sofrer consideráveis alterações.

Alguns aspectos dessa recuperação levam até semanas para serem totalmente restaurados. Essas estratégias são cruciais quando o intervalo entre as partidas deixa pouco tempo para recuperação.

A Seleção Argentina enfrentará as dificuldades da FUCO ou a sua conhecida garra sera capaz de superar o problema?

As Comissões Técnicas devem evitar que os jogadores atinjam um estado de esgotamento físico. Os responsáveis precisam adotar uma dupla estratégia: controlar meticulosamente a carga de exercício entre as partidas e adotar protocolos de recuperação adequados.

O conhecimento dessa dinâmica dupla — controle da carga e estratégias de suplementação — não é comum no futebol. Mesmo em países com acesso a esse conhecimento, não é incomum que um treinador possa dar menos importância à implementação dessas estratégias.

É surpreendente o que alguns treinadores fazem com seus jogadores nas 48 horas que antecedem a uma partida. Essa questão persiste há décadas, com histórias de cargas de treinamento absurdas, utilizadas antes de jogos importantes, tendo muitas ocorrido nas Copas do Mundo da década de 1980.

O grande treinador argentino Carlos Billardo foi um grande observador dessas tendências mencionadas acima. Ele percebeu o que, até hoje, muitos continuam ignorando. Billardo, um visionário, que tinha formação em Medicina, era um detalhista e prestava atenção minuciosamente ao controle das cargas de treinamento entre as partidas da Seleção campeã na Copa do México, em 1986. Era inovador e adotava modernos conceitos científicos no futebol.

Tanto a Espanha quanto a Argentina conquistaram vitórias impressionantes contra seus adversários nas semifinais, com ambas as partidas sendo decididas no tempo regulamentar, evitando a prorrogação.

Os dois finalistas possuem uma dinâmica de equipe coesa, que joga em perfeita harmonia. O individualismo, o estrelismo e vedetismo que aflige e assola outras seleções estão ausentes desses dois finalistas. Essas duas equipes se consolidam como as duas melhores do mundo.

Com uma impressionante mescla de talento individual e forte coesão tática, a Espanha representa um desafio considerável para qualquer adversário, especialmente em partidas decisivas. Várias vezes, demonstrou a sua força, quando mais importava.

Apesar dessa desvantagem fisiológica que descrevemos (FUCO – Fadiga acumulada não-resolvida), a Argentina, em varias situações, se recusou a perder, mostrando sua resiliência indiscutível. Seus jogadores têm a determinação de nunca se renderem, e seu espírito indomável e coesão são mais do que evidentes.

É uma equipe unida, cujos integrantes estão em plena sintonia uns com os outros e lutam por uma causa que transcende quaisquer interesses e aspirações individuais. Possuem um aguerrido espirito coletivo, carregando as esperanças de seus compatriotas e detém um inegável vínculo com a História e a Cultura da sua Nação.

O desejo e a gana de vitórias vão além de meras estatísticas e, talvez, essa motivação, combinada com sólidos elementos estratégicos e táticos, possam garantir mais um campeonato mundial.

No entanto, o futebol tem a sua maneira de ser imprevisível. Tudo será possível nessa finalíssima. O calendário das semifinais concedeu uma vantagem à Espanha. Será que Scaloni, em algum momento, conversou ou tomou conselhos indispensáveis de seu compatriota Carlos Billardo?

O resultado do jogo de poderá nos dar a resposta.


SOBRE O AUTOR

  • Ricardo Guerra é Fisiologista do Exercício e tem Mestrado em Fisiologia Esportiva, pela Liverpool John Moores University.

    Trabalhou com vários clubes de futebol no Oriente Médio e Europa, incluindo as seleções do Egito e do Catar. Em 2015, foi Fisiologista do Exercício do Olympique de Marseille, época em que o time chegou à final da Copa da França contra o PSG.

    Ricardo detém a mais importante licença de treinador da FA — Associação de Futebol da Inglaterra e também da UEFA — União das Associações Europeias de Futebol.

    Viajou pelo Mundo, coletando dados e quantificando a capacidade fisiológica de jogadores de diversos continentes. Seus artigos foram publicados em mais de cinco idiomas em várias organizações de notícias.

    Atualmente, o fisiologista está radicado nos Estados Unidos, é candidato a PhD em Fisiologia do Exercício, está escrevendo um livro sobre o futebol brasileiro. Recentemente, o autor prestou consultoria para núcleos da Policia Italiana. Ele também é formado pela academia de polícia do estado da Florida nos EUA.

    Ricardo aprimorou sua experiência nas técnicas de treinamento da modalidade strongman trabalhando em estreita colaboração com alguns dos principais competidores do mundo. Sendo um entusiasta dessa forma de treinamento, ele adaptou esses métodos para atender às necessidades fisiológicas de vários esportes.

    Ele pode ser contatado pelo e-mail rvcgf@hushmail.com

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