CLAUDIO COUTINHO – A ARTE DE COMANDAR

Ricardo Guerra
Fisiologista do Exercício e tem Mestrado em
Fisiologia Esportiva, pela Liverpool John Moores University e
inúmeras atividades no futebol profissional em vários países.
O currículo mais detalhado está ao fim deste artigo.

O estádio do Rosário Central, o Gigante de Arroyito, é um verdadeiro alçapão; lembra muito La Bombonera, o lendário estádio do Boca Juniors onde a distância entre o alambrado, o gramado e as linhas do campo são quase inexistentes.

Naquela noite, a torcida colocava pressão no jogador, xingando constantemente e lançando objetos diversos sobre o campo. A impressão que se tinha era que a torcida estava pronta para invadir a qualquer momento. Basicamente, jogar num lugar desses é como jogar dentro de um inferninho. O ambiente era tão hostil que o Gigante de Arroyito, naquela noite, fazia a Bombonera parecer uma Disneylândia.

A pressão em volta desse jogo era monumental. O seguro, consistente e inteligente zagueiro central da Seleção Brasileira Amaral me disse por telefone: “Fomos dormir às cinco da manhã. Eram fogos que não acabavam mais. A polícia fechou as ruas em volta do hotel somente por uma quadra, ao invés de uma área maior. Eram fogos de artifícios a noite inteira. E eles ainda miravam no hotel e nas janelas dos quartos onde estávamos”.

Assim sendo, não é um jogador qualquer que tem a disposição e o caráter necessários para enfrentar uma parada dessas. Ao mesmo tempo, para aturar um desafio desses requer-se um tipo de jogador muito especial e com uma personalidade distinta. Portanto, características como coragem e, ao mesmo tempo, controle emocional são primordiais. Naquela ocasião não existia espaço para pipoqueiros ou bailarinas.

Seria um desafio muito grande encontrar um jogo dentro do cenário futebolístico hoje em dia com tamanha vitalidade, vigor físico e marcação acirrada quanto naquela partida da Copa do Mundo de 1978 entre o Brasil e a Argentina, um jogo que para a história ficou conhecido como a famosa “Batalha de Rosário”.

Vale a pena lembrar também que os juízes de futebol de outrora tinham mais tolerância a infrações e permitiam lances muito mais violentos e duvidosos do que hoje em dia.

Naquela ocasião, as divididas em campo muitas vezes passavam bem perto do limite do que era permitido pelas regras do jogo.

Em suma, não é qualquer um que consegue preparar um grupo de jogadores para tamanha façanha na casa do anfitrião. E foi essa disposição incessante em torno do vigor físico, da marcação implacável e da cobertura dos espaços demonstrada pelos jogadores de Coutinho que me impressionou, além do fato de estarem encarando o adversário de igual para igual.

Naquele jogo, o espírito aguerrido, a motivação e disposição extrema de nossos jogadores, e a organização tática em todos os elementos especialmente no sistema defensivo sem a posse de bola foram um fator histórico e inédito dentro do nosso futebol até aquele momento.

A coragem demonstrada pelos jogadores brasileiros naquele jogo é simplesmente inesquecível e um marco para a História do futebol brasileiro. De imediato, cheguei à conclusão de que aquele comportamento de nossos jogadores era especial e uma pessoa com muita capacidade de liderança e de gerenciamento humano estava por trás de tamanha façanha.

Afinal, quem ali dentro daquela Comissão Técnica estava apto para preparar o Brasil tão bem no aspecto psicológico do jogo? Foi a pergunta que fiz de imediato após ter visto aquela partida.

Seja a preferência do telespectador por um jogo mais ofensivo ou defensivo, fica claro que o empenho demonstrado pelos jogadores brasileiros tenha sido inegável. Portanto, a pergunta acima se torna ainda mais relevante.

De imediato, tive em vista saber se ali existia um psicólogo na Comissão Técnica brasileira. Afinal, o Brasil havia feito o uso de um psicólogo em 1958 e 1962, mas nada comprovava a utilização de um profissional da área em 1978, durante a Copa do Mundo. Havia rumores de que sim. Perguntei a diversos jogadores que jogaram naquela Seleção e nenhum deles confirmou a presença de um profissional dessa área na Comissão Técnica.

Então, fiz uma pesquisa dentro da literatura acadêmica e encontrei um estudo delineando a passagem de profissionais da Psicologia Desportiva na Seleção Brasileira. Nesse artigo, havia um relato sobre a passagem de um psicólogo com a Seleção de 1958 e 1962, mas nada com a Seleção de Claudio Coutinho.

Querendo realmente passar a limpo de uma vez por todas a questão, resolvi contactar as pesquisadoras que escreveram o artigo para saber se os psicólogos de 1958 e 1962 haviam também passado pela Seleção de 1978. Uma das pesquisadoras me respondeu dizendo que, definitivamente, esse tal profissional nunca havia trabalhado naquela Seleção. Apesar dessa confirmação, a pergunta ainda me inquietava, permanecia em aberto até então. Quem de fato poderia ter tamanha capacidade para liderar e preparar esses guerreiros de forma tão viril para uma partida de futebol? Eu tinha certeza de que ali tinha a mão de alguém muito preparado e com muita experiência para mobilizar um grupo de atletas em torno de objetivos comuns.

Naquela ocasião, eu ainda estava num momento inicial sobre minha curiosidade a respeito de Claudio Coutinho e sua passagem meteórica dentro do futebol brasileiro. Mas, à medida que avancei na minha pesquisa sobre esse grande técnico, comecei a observar que ele possuía um dom pouco averiguado e discutido.

Seguramente, a sua capacidade de liderar, motivar, gerenciar, empatizar e de se comunicar com um grupo de jogadores de forma tão eficiente foi uma de suas virtudes menos estudada ao longo dos anos. Vale a pena lembrar que, em geral, Coutinho e seu legado foram pouco analisados e estudados.

Uma das maiores virtudes de Claudio Coutinho era sua flexibilidade de raciocínio. Ele demonstrava essa habilidade no trato com cada jogador de forma específica para a necessidade de cada um. Também mudava a escalação da equipe conforme as particularidades dos oponentes. Paralelamente, tinha habilidade para escolher os melhores para as necessidades de um determinado momento.

Consequentemente, mostrou sua perspicácia na partida disputada em Rosário quando colocou o temido Chicão, ao lado de Batista, com o intuito de fechar completamente o meio, formando uma barreira em frente à defesa brasileira. Porém, curiosamente, não foi só o requisito tático que o fez escalar Chicão. A ocasião exigia alguém com muita personalidade e “huevos” de sobra. Com efeito, o volante de contenção e da várzea era um gigante psicologicamente, incapaz de amarelar em qualquer momento e muito menos numa ocasião tão solene e crítica como foi aquela partida. Igualmente, Chicão era frio, calculista e consistente na maneira de jogar.

Claudio Coutinho como treinador do Brasil na Copa de 1978 na Argentina

Antes da Copa, Chicão havia dito à Revista Manchete Esportiva:

— Eu me controlo. Agora mesmo, no Chile, jogando a Libertadores, peguei dois times cheios de jogadores argentinos. O Palestino e o Unión. Levei cotovelada na boca, até sangrou; fiquei quieto. Depois, levei outra, reclamei com o árbitro Ramón Barreto, que disse que meu adversário fizera “sem querer”. Aguentei tudo. Apenas, no final, chamei o lateral deles e disse: “Gringo, fique sossegado que, no Brasil, eu te pego”.

Ele era um líder dentro do campo e, naquela noite em Rosário, foi o mandachuva do duelo. Em completa comunhão com Batista, preconizou uma incessante vigilância dentro da defesa do time brasileiro. Por serem jogadores de defesa, infelizmente, nunca tiveram o devido reconhecimento no nosso futebol. 

Quando perguntei ao jogador Amaral se Chicão era comunicativo durante o jogo, no meio de uma partida, ele me disse:

— O Chicão dava a vida para ganhar o jogo e para te ver bem. Ele era um cara humilde, mas que não pipocava de jeito nenhum. Se ele via algum jogador do outro time fazendo jogo desleal contra alguém do nosso time, ele partia pra dentro, chegava em cima e falava: aqui não, aqui o pau vai comer e caçava o cara na hora certa. Ele nos dava uma segurança total.

Naquela noite, o time comandado pelo Capitão Claudio Coutinho jamais se intimidou e chegou a bater até mais do que os argentinos. Não é qualquer técnico que consegue passar tamanha coragem para um grupo de jogadores, ainda mais nas condições em que aquele jogo foi disputado. Em certos momentos, pode-se observar que os argentinos estavam mesmo intimidados. Chicão, por exemplo, olhava os caras de cima para baixo, como se estivesse jogando em casa. Era um jogador que se entregava de corpo e alma em prol de objetivos comuns e que eram para o bem da equipe como um todo. Naquela noite, de forma cirúrgica, Coutinho o havia escalado.

Em uma sociedade que frequentemente glorifica o indivíduo, gerando por vezes obsessões patológicas em torno de várias celebridades e artistas, em que as pessoas somente visam os benefícios próprios, não existe tarefa mais árdua do que convencer jogadores milionários, com egos super inflados, a subjugar seus ganhos individuais em prol do interesse da equipe. Se acrescentarmos a essa problemática realidade o extremo individualismo e todas as banalidades e vulgaridades que cercam esses indivíduos, o gerenciamento humano eficaz dessas equipes de futebol pode se tornar uma tarefa gigantesca. A necessidade de administrar as vontades múltiplas e dispersas dessas personalidades, que na maioria das vezes não são coesas em torno de objetivos comuns, se torna um desafio monumental para os técnicos. Curiosamente, essa habilidade de liderança que Coutinho possuía seria ainda mais de grande valia nos dias atuais.

Sob o mesmo ponto de vista, essa necessidade não só aflige o futebol. O exemplo hoje em dia do Dallas Cowboys, uma equipe renomada dentro do futebol americano, se torna bem ilustrativo para o problema a que chamamos atenção. Essa equipe tem na verdade jogadores considerados de ponta em quase todos os setores. No entanto, são verdadeiras estrelas sem qualquer tipo de conexão entre si. Nas últimas três temporadas, apesar de ter um time cheio de estrelas, não conseguiram ganhar sequer um jogo durante os playoffs. Em suma, não possuem liderança nem dentro, nem fora das quatros linhas.

Sob o mesmo ponto de vista, o renomado técnico de futebol americano Rex Ryan enfatizou o problema numa entrevista: “A prioridade tem que ser a equipe, não o indivíduo, deixe de ir atrás das estrelas e procure jogadores que joguem em prol do conjunto, da equipe. O Cowboys tinha 14 jogadores de extremo talento, que são de nível de Seleção (pro-bowlers). A estrela no capacete do Dallas Cowboys é perfeita para descrever o problema. São estrelas solitárias e eles precisam de alguém que vá unir essas estrelas em torno de um objetivo comum e que possa formar, nutrir uma galáxia”.

De forma semelhante, a Seleção Brasileira nas últimas três Copas é um exemplo nítido de falta de liderança e coesão interna ao redor de objetivos de maior valia. Precisamos de um líder que passe para essa garotada objetivos em prol do conjunto, de força maior, objetivos que transcendam o ego, que sejam duradouros e de valia imensurável.

Curiosamente, outro dia um garoto de oito anos me perguntou por que jogador fulano de tal tem tantos riscos nas sobrancelhas? O foco, dentro e fora do núcleo de uma equipe, não pode girar em torno do superficial. Sob o mesmo ponto de vista, as maquiagens, o botox, os preenchimentos e as sobrancelhas feitas aos cuidados de profissionais e demais banalidades descritas acima necessitam receber menos atenção por muitos jogadores. Se banalidades e vedetismos tomam a maior parte do tempo dos “narcisos” de uma equipe, ofuscando o foco na preparação para uma partida, elas devem ser extirpadas.

Precisamos de jogadores que sejam craques, mas tenham também uma mentalidade muito mais aguerrida, comparável aos jogadores de hóquei sobre o gelo. Nesse esporte, não tem frescura. Lá, há craques sem dentes, com narizes tortos e sangue escorrendo no rosto. São indivíduos com menor grau de egocentrismo, estão preparados para dar tudo em prol da equipe. Em contrapartida, hoje em dia, chega a ser bizarro esse comportamento de verdadeiras divas por uma parcela dos jogadores de futebol.

Vale dizer que não é impossível o indivíduo se apresentar como uma “árvore de Natal”, cheio de enfeites e, ao mesmo tempo, “comer a grama” em prol da equipe. Existem muitos exemplos de atletas que foram bem-sucedidos em seus esportes. E eles existem também no futebol.

No basquete, Dennis Rodman, por exemplo, que foi considerado um dos maiores reboteiros da história do basquete, jogava muitas vezes com o cabelo pintado de rosa. Contudo, na hora do “vamos ver”, ele não pipocava. O estrelismo não afetava o jogo dele. Ele tinha gente de grande porte a seu lado, com personalidade, e que o enquadravam quando ele passava dos limites no seu comportamento egocêntrico. Naquela equipe do Chicago Bulls, ninguém falava mais alto do que Michael Jordan. Paralelamente, o conhecimento do técnico Phil Jackson na área da Psicologia e Gerenciamento Humano era simplesmente épico e bem conhecido. Certa ocasião, quando era técnico do Lakers, Jackson chegou a utilizar os serviços de um Terapeuta, com especialização em comportamento de pessoas narcisistas. Ele precisava de uma assessoria para lidar melhor com o relacionamento entre Kobe Bryant e Shaquille O’Neal.

Quando a maioria dentro de um núcleo se apresenta de forma displicente e despreparada, e não joga nada, com certeza é preciso averiguar o que se passa. De fato, o 7 a 1 contra a Alemanha, a maior vergonha da história do futebol brasileiro, ainda está muito mal explicada e as causas dessa derrota ainda precisam ser investigadas. Um livro poderia ser escrito analisando todas as causas de tamanho vexame. O fato de não termos nem chegado às semifinais nas últimas duas Copas com tanto talento é outra aberração e as causas desse fracasso também precisam ser avaliadas. Da mesma forma, o fato de não nos classificarmos para as próximas Olimpíadas demonstra nosso grau de mediocridade em termos de liderança.

Todavia, se após convocado, o futebolista já entra ali com uma mentalidade de desleixo, fazendo pouco caso da competição e pensando nas férias, aí não há talento que resolva a situação. Ainda mais: muitos navegam no espírito de total comodidade e complacência, pois já fizeram fortuna e obtiveram os prêmios que consideram suficientes.

O renomado pugilista norte-americano Marvin Hagler disse em certa ocasião: “É muito difícil levantar de manhã cedo para correr quando dormimos em pijamas de seda”.

Também, o que mais tem hoje em dia, por diversas razões e pressões, são jogadores sendo convocados sem considerar o estado de espírito ou a vontade de estarem presentes naquela ocasião. Na minha opinião, esse foi um problema nas últimas três Copas. 

E justamente aqui entra novamente a sabedoria do Capitão Claudio Coutinho. Antes da escolha final dos convocados para a Copa do Mundo, Coutinho fez um estudo minucioso sobre dezenas de características de jogadores que ele estava observando. O grande jornalista Ney Bianchi, numa matéria antes da Copa na Revista Manchete Esportiva, deixou claro: “E ele dispunha de informações confidenciais que incluíam desde os modismos técnicos (maneira de jogar, comportamento num jogo cordial e num jogo catimbado, na chuva e no sol, no calor e no frio, dentro e fora do país) até os hábitos sociais (quem bebia, o que bebia, quando bebia, quem fumava, quando fumava, quem dormia cedo, quem dormia tarde, quem tinha problemas familiares, que tipo de problemas e daí por diante). Ele era um homem muito bem-informado. E sabia exatamente o que queria, quando chegou o grupo que estava em viagem. Nesse sentido, nunca houve outro treinador tão bem-informado. E que buscasse, conscientemente, todo o knowhow possível sobre os seus atletas”.

Parece impensável que hoje em dia o técnico da Seleção venha a descartar um jogador por fragilidade mental, especialmente quando tal jogador é representado por um megaempresário ou se por trás dele imperam outros interesses financeiros. Na última Copa, fora das quatro linhas, se viu até elementos devorando carne folheada a ouro em uma churrascaria local do Qatar, numa atitude completamente estúpida e sem sentido. Ao mesmo tempo, esse ato tem um significado muito maior, simbolizando a total falta de liderança e de ensinamentos de quem comanda. Tal atitude é uma demonstração da falta de sabedoria, de discernimento e de bom senso desses elementos. Afinal, trata-se de uma indicação das prioridades de quem foi àquele restaurante. Bem como uma indicação de quem está no comando e deixando de passar ensinamentos a esses jogadores. Afinal, será que se estivesse na moda ou demonstrasse maior status comer uma fatia de carne coberta de elementos parasitários, esses sujeitos a comeriam? Essa pergunta me parece pertinente diante de tamanha imbecilidade.

Muitos parecem mesmo crianças mimadas e mal-instruídas que precisam desesperadamente de serem resgatadas e reeducadas. Na verdade, precisam de um professor com sabedoria, alguém que possam admirar e lhes dar o exemplo, mostrando-lhes como priorizar o que é digno. Assim sendo, não precisam de puxa-sacos sem liderança nenhuma e que deixam rolar de tudo, dando total liberdade aos jogadores, permitindo-lhes que mandem no recinto. Infelizmente, esses jogadores são liderados por indivíduos com pouco conhecimento em outras disciplinas que possam servir de auxílio no ensinamento, no cultivo de um espírito de maior coesão e do estabelecimento de prioridades mais dignas. Eles precisam de um sujeito para mostrar o caminho e ensinar boas maneiras.  Afinal, temos jogadores seriamente envolvidos em casos graves com a Justiça.

Curiosamente, muitos técnicos estão muitas vezes mais preocupados em manter o controle de seus cargos e seus bens do que com qualquer outra coisa, preferindo por isso apaziguar e agradar aos rebeldes em vez de dirigirem a equipe como um todo. Ou seja, não estão ali para se sacrificarem e se colocarem em uma posição mais arriscada de confronto, onde estariam dispostos a botar em seus lugares aqueles jogadores que criam problemas internos. Muitas vezes, tal confronto é necessário e poderia acarretar dividendos para quem visa consolidar uma coesão interna dentro da equipe em prol do grupo. Com técnicos dessa estirpe bancando ser “professores”, seria preferível que os alunos não fossem à escola.

Em contrapartida, a coesão da seleção argentina na última Copa foi consequência de uma forte liderança que soube administrar personalidades diversas em prol da importante trajetória rumo à consumação e à glorificação. Grande parte do mérito dessa vitória é não apenas dos jogadores, mas também do próprio Lionel Scaloni, o técnico da equipe argentina que ajudou a incutir um nível elevado de união, coletividade e de amizade entre seus jogadores. Isso se deve a toda a sua capacidade de gerenciamento humano e de como tirar partido do que há de melhor em seus atletas. E era exatamente essa habilidade que Claudio Coutinho possuía. O próprio Coutinho era um homem digno, altruísta, demonstrando moderação e modéstia em sua conduta: todo reconhecimento que vinha em sua própria direção, ele direcionava aos seus jogadores. Acima de tudo, ele era empático e carregava tal qualidade nas mangas. Ele tinha uma sensibilidade única para sentir o estado de espírito de seus jogadores. De fato, ele se preocupava com todos.

Numa das várias conversas que tive com Julio Cesar “Uri Geller”, um dos maiores dribladores que o futebol brasileiro já viu, ele me disse: “Se preocupar com os 11 dentro do campo que estão sorrindo e dar atenção a eles é fácil. O capitão se preocupava com quem estava no banco, com quem tava de fora. Quem não jogava na quarta, treinava na quinta. E era nesse dia que ele botava todo o conhecimento dele de dentro da psicologia em prática. Ele era único, e se preocupava com todos”.

De fato, Coutinho dava a mesma atenção para reservas e titulares. Todos se sentiam acolhidos e como parte de um grupo.

Numa conversa inédita com Savva Biller, um estudioso da posição e um dos goleiros que fazia parte do Los Angeles Aztecs, no ano que Coutinho trabalhou com aquela equipe norte-americana, ele me disse: “Eu era um jovem goleiro que era reserva na época que ele chegou no Aztecs. Ele falava comigo como se eu fosse a pessoa mais importante da equipe. Quando ele falava comigo ele me fazia sentir como se eu fosse o titular da posição. Eu sempre o via, diariamente, conversando individualmente com vários jogadores”.

Muitos jogadores de futebol são extremamente intuitivos e sagazes, farejando de longe a índole do técnico. Os treinadores carismáticos, com capacidade de liderança e de caráter forte, são os que têm a maior probabilidade de serem admirados e de terem o exemplo seguido pelo seu time. Diante de uma figura com tamanha liderança e senso de justiça, os atletas estão dispostos a dar a dar tudo pelo seu técnico.

Quando um jogador percebe que o técnico se importa com ele como pessoa, mais até do que ele tem a oferecer como atleta, em tais circunstâncias, esse indivíduo passa a ser disposto a dar a cara às balas pelo seu líder.

Julio Cesar me disse de forma clara:

— Coutinho não me convocou para alguns amistosos. Ele sabia que eu estava abalado. Do nada, num certo dia, ele chegou à minha favela, na Cidade Alta, foi lá no meu barraco, sentou-se à minha mesa, para tomar comigo e minha mãe uma “sopa de entulho”. Você tá entendendo? Ele foi lá me pedir desculpas por não ter me convocado, tomou a sopa de entulho e foi embora. Como é que você não vai correr em campo para um homem desses?”.

O zagueiro central Amaral, por telefone, foi enfático:

“— A personalidade dele era marcante. Ele respondia ao que tinha que responder. Respeitava todo mundo. Gostava que você o chamasse de Coutinho. Não tinha essa de ter de ficar chamando de “professor”. Era um cara aberto. O que ele mais gostava era quando a gente levava ideias para ele. Gostava da participação de todos e de trocar ideias”.

Relatos como esses deixam claro o lado empático desse homem. Coutinho era muito humano e se preocupava, acima de tudo, com o bem-estar dos jogadores. O sentimento e a vontade de ajudar o próximo, e de se colocar à disposição de todos é uma atitude cada vez mais escassa nos dias de hoje. Afinal, não é qualquer técnico que se dispõe a conhecer o lado mais íntimo e as aflições mais profundas dos seus jogadores. Isso requer tempo e uma sincera curiosidade, por parte do líder, para de fato conhecer os seus comandados na intimidade.

A habilidade didática de Cláudio Coutinho para explicar conceitos táticos também era extraordinária. Numa conversa longa por telefone, Klaas de Boer, que foi seu assistente técnico durante sua passagem no Los Angeles Aztecs, na temporada de 1981, me disse:

— Os métodos de comunicação dele eram extraordinários. Ele se comunicava muito bem com os jogadores e conseguia rapidamente passar, de forma eficiente, o posicionamento tático. Ele passava uma positividade que, de fato, era contagiante. Era um homem extremamente culto e agradável; um homem da Renascença”.

Embora essa habilidade de ensinar ou aconselhar, nada tenha a ver com o conhecimento tático e técnico do jogo, muitas vezes ela se torna ainda mais importante, principalmente nos dias de hoje. E é justamente nesse aspecto que a estrela e a liderança do cultíssimo, sábio e saudoso Claudio Coutinho está atualmente em falta. Nesse sentido, ele estava muito à frente dos outros profissionais da área. O Capitão deixara a sua marca, passando conceitos de grande valia para  os jogadores da sua equipe, tais como um espírito forte e abnegado, e uma sólida coesão interna.

A nadadora olímpica e ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, afirmou sobre Coutinho, numa entrevista:

— Nossas grandes equipes sempre foram capitaneadas por  grandes líderes e ele oi uma dessas figuras.

Coutinho administrava uma equipe de futebol como ninguém. A equipe do Flamengo, tricampeã carioca em dois na os (1978–79), era uma verdadeira Seleção, um timaço com jogadores reservas que poderiam atuar em qualquer time de ponta, até mesmo na Seleção Brasileira. Naquela época, mesmo alguns reservas poderiam fazer parte de outras seleções, até mesmo como titulares.

Na década de 1980, só os jogadores que atuavam no Rio de Janeiro, seriam suficientes bastava para mandar três ou quatro times que poderiam jogar uma Copa do Mundo, de igual pra igual, fazendo par com as melhores equipes.

Uri Geller me disse:

—Na mesma posição, Coutinho contava com Andrade e Vitor. Às vezes, jogava o Andrade; e o Vitor era convocado para jogar na Seleção Brasileira, no final de semana. Ele contava com um jogador reserva que era convocado para na Seleção do Brasil”.

Sua capacidade e experiência de gestão humana, para deixar todos felizes e satisfeitos, ficava ainda mais nítida em situações em que era preciso gerenciar craques por todos os lados. Não é qualquer um que tem a capacidade de apaziguar diversos egos e vaidades, em torno de objetivos comuns.

Se fosse fácil, o supertime do Paris Saint-Germain, dos últimos anos, já teria conquistado a Champions League, pois ali não faltam craques. Não adianta botar 11 estrelas dentro de campo e achar que eles vão resolver, sem liderança ou sem um educador. Tem que haver sinergia e comunhão entre os que jogam. O mesmo se observa com a “geração de ouro” da Bélgica, que disputou a mais recente Copa do Mundo. Aquela Seleção, apesar de sempre bem-cotada, jamais ganhou um título. Portanto, não basta ter craques, sem um mentor com capacidade de motivar e cultivar esse vínculo entre os que jogam.

Os jogadores atuais, mais do que nunca, precisam de um técnico com sabedoria, alguém que possam admirar e lhes dar o exemplo, mostrando como priorizar o que é digno.

Coutinho era um educador. Numa entrevista, o jogador Adílio, um dos maiores craques que já pisou nos gramados brasileiros, foi enfático na sua opinião sobre ele:

“Coutinho era um educador muito forte em noção de vida e comportamento. A minha felicidade foi tê-lo encontrado, porque eu era orfão de pai e mãe, e fui muito aconselhado por ele, que me mostrou o caminho. E eu só segui”.

Especialmente tendo em vista todas as tentações que giram em torno da fama e da fortuna, a liderança de uma figura ícone, como a do personagem Yoda, do filme “Guerra nas estrelas”, se torna ainda mais necessária para orientar uma equipe a diferenciar o certo do errado.

Embora essa habilidade de ensinar ou aconselhar nada tenha a ver com o conhecimento tático e técnico do jogo, muitas vezes se torna ainda mais importante.  Tais situações requerem um líder que gerencie as diferentes personalidades.

Phil Jackson, o renomado e vitorioso técnico do Los Angeles Lakers e do Chicago Bulls tinha essa habilidade. Ao mesmo tempo, conseguia administrar Kobe Bryant e Shaquille O’Neal e deixá-los satisfeitos. E no Chicago Bulls, ele administrava jogadores com personalidades difíceis, como Dennis Rodman, Scottie Pippen e Michael Jordan. Botar esse pessoal remando no mesmo rumo não é fácil.

Mais recentemente, a Seleção Argentina, atual campeã mundial, se mostrou discreta, mas motivada por um espírito de forte união, mantendo o foco na importante trajetória rumo à conquista da Copa.

Da mesma forma, Coutinho fez com o time do Flamengo nos últimos anos da década de 1970 e no primeiro ano da década de 1980.

Neste mundo moralmente relativista, o jogador não precisa apenas de um treinador, mas de um educador, de um professor e de um líder. Os treinadores mais bem-sucedidos são aqueles que não só detêm conhecimentos técnicos e táticos de jogo, mas demonstram também um perfeito entendimento do espírito dos jogadores. Assim, são capazes de tutelar e convencer esses jogadores, muitas vezes problemáticos e de difícil convívio, a lutarem por objetivos comuns e coletivos, acima das vaidades egocêntricas e necessidades pessoais.

Técnicos com a habilidade de transmitir aos seus atletas a ideia de que vale mais a pena lutar por glórias e objetivos mais duradouros, que transcendem os interesses egocêntricos, são muitas vezes os que tendem a ter maior êxito, quando comparados aos que focam apenas em aspectos técnicos e táticos do jogo.

Seria impossível entender a Filosofia e a Pedagogia de Claudio Coutinho sem nos aprofundarmos em sua formação militar. Grande parte das pessoas tendem a associar uma formação militar com costumes ou maneiras autoritárias e exageradamente disciplinares. No entanto, o tema é muito mais complexo do que essa conotação rasa.

Cláudio Coutinho estava longe de ser qualquer coisa parecida com um autoritário.  Ao contrário, tinha muito caráter e uma personalidade firme; mas, ao mesmo tempo, era extremamente empático, ameno e aberto ao diálogo. Era firme, mas ponderado; era um pensador.

Antes da Copa, ele declarou à imprensa:

— Há vários tipos de treinadores: o engraçado, o durão, o boa-praça, o paternalista… há de tudo. O importante é saber usar a própria autoridade. E quanto menos usá-la, melhor. Autoridade se perde rapidamente”.

Em geral, os valores (ethos) civis de uma sociedade se contrastam de uma forma significante quando comparados com a cultura de guerreiros (samurais, apaches, legiões romanas, vikings, espartanos etc.).

A Cultura do Exército está muito mais próxima dos valores dessas culturas de guerreiros do que de uma sociedade civil. Os valores desses grupos divergem. No código dos guerreiros, por exemplo, uma agressão, mesmo aleatória, pode até mesmo ser valorizada e celebrada. No entanto, a mesma agressão, dentro de uma sociedade civil, levaria o agressor à cadeia.

Em contrapartida, em geral, códigos vinculados à sociedade civil são caracterizados pelo individualismo, a busca incessante do caminho próprio e a liberdade para o cidadão fazer o que bem entender, desde que não atinja a liberdade do próximo.

Afincados a esses valores, decorre na sociedade civil a busca da celebridade, da riqueza desgovernada e de um reconhecimento individual que, hoje em dia, beira o patológico. O egoísmo e o materialismo exacerbado caracterizam essa sociedade. Em contrapartida, as filosofias vinculadas aos códigos dos guerreiros dão maior importância e valorizam: coesão, obediência, honra e uma mentalidade muito mais altruísta. Ao mesmo tempo, valorizam o sacrifício em prol do grupo. É uma perspectiva filosófica imbuída pelo coletivismo, pela interdependência de todos dentro de um grupo.

Sob o mesmo ponto de vista, hoje em dia, os mais bem-sucedidos técnicos de futebol são aqueles que, muitas vezes, conseguem resgatar o máximo possível dessa dinâmica de grupo do passado, onde os interesses comuns, em prol da equipe, são os que imperam. É como o espírito do esporte amador, onde a glória é tudo.

É uma dose maior desses valores espartanos, vinculados a um “código de guerreiros”, que precisamos em nossas Seleções. Pode ser difícil fomentar essa dinâmica, pois a nossa sociedade está em níveis quase patológicos de egoísmo e egocentrismo. No entanto, não é impossível conseguir essa comunhão entre os que fazem parte de uma equipe. Afinal, existem exemplos de vários técnicos que exercem comando em equipes de diferentes modalidades desportivas que conseguiram passar alguns desses conceitos para os seus grupos.

Vale a pena mencionar que a Seleção Brasileira que ganhou a Copa de 1970 era um exemplo de engajamento intragrupal, em todos os aspectos. Existia harmonia social, tática e técnica entre os jogadores. Poderiam até existir algumas diferenças entre certos jogadores. No entanto, a grande maioria se dava muito bem e existia um afeto entre aqueles campeões.

Essa mesma conexão também se viu na Seleção de 1994. Por isso, por mais talento individual que se tenha num elenco, não existirá sucesso sem o mínimo de solidariedade e espírito coletivo entre os que compõem.

Muitos leigos, ultrapassados e retrógrados, acham que o espírito coletivo afeta negativamente ou ofusca o desempenho da estrela individual. Essa ideia é absurda. A Seleção de 1970 era inundada de estrelas (era uma galáxia!), mas todos em comunhão dentro do campo.

Julio Cesar confirmou que muitos jogadores da equipe do Flamengo que dominou a década de 1980 já vinham jogando juntos e se conheciam desde a época do mirim. Assim sendo, muitos não se dão conta da necessidade dessa conexão e sinergia, descartando ingenuamente a sua importância.

Na maioria das vezes, essa dinâmica, fortemente presente em equipes bem-sucedidas, não é quantificada e passa despercebida.

Amaral nos enfatizou:

— Aquela Seleção de 78 foi um grupo unido e saudável, tanto que mantemos o contato, uns com os outros, até hoje. Para a imprensa, havia um revanchismo entre Rio de Janeiro e São Paulo. Para a gente, dentro do grupo, isso não existia”.

O zagueiro central ainda foi mais longe nas suas críticas:

— A imprensa da época botava muita pressão em cima do grupo e do Coutinho para ele mudar os convocados. Também faziam intrigas. Em contrapartida, antes da excursão que fizemos à Europa, antes da Copa, Coutinho, para nos dar tranquilidade, disse para todos ficarem tranquilos e jogarem seu futebol porque, dali em diante, ele não iria cortar mais ninguém, a não ser por incapacidade física ou lesão. Essa atitude foi fundamental para nos dar a tranquilidade para jogarmos”.

Ainda mais: Coutinho também carregava o orgulho de ser Brasileiro e não tinha qualquer complexo de inferioridade, que perdura em muitos outros até hoje, mais de 40 anos depois da sua morte trágica. Ele falava de igual para igual com os jornalistas de qualquer lado, dava entrevista em diversos idiomas.

Ele, de fato, empoderava seus jogadores, com a sua retórica com os jornalistas e a imprensa em geral.

Na excursão que o Brasil fez à Europa antes da Copa do Mundo, depois do disputado e violento jogo contra a Inglaterra, em Wembley, uma das matérias da Manchete Esportiva afirmava que, antes, os europeus nos chamavam de frouxos. Coutinho comentou:

— Diziam, para quem quisesse ouvir, que para espantar um jogador brasileiro basta dar-lhe duro. Ele não gosta de jogar pesado. Nem do corpo a corpo. E, muito menos, de apanhar. Agora, eles nos chamam de animais.

E Coutinho conclui:

Não mandei bater. Nem na Alemanha, nem na Inglaterra, dois jogos violentos. Mas a ordem era para ninguém fugir do pau. E, isso, esse time faz”.

E na mesma matéria em relação à Copa do Mundo, Coutinho disse:

— Vamos maneirar um pouco. Apenas de que eles já sabem que, se derem, levam. E em dobro. Mas não somos desleais e vamos mostrar que podemos ganhar a Copa sem violência.

Naquele jogo, em certas ocasiões, os ingleses bateram até mais que os brasileiros; no entanto, só eles podiam bater e jogar virilmente. A imprensa de lá só via a maldade de cá. E a cobertura da imprensa inglesa, depois daquela excursão do Brasil, foi tendenciosa e vergonhosa, sem qualquer autocrítica.

Na conhecida revista inglesa “World Soccer”, o jornalista Eric Batty afirmou:

— Zico é demasiadamente superestimado. Os centroavantes Reinaldo e Nunes não conseguem jogar contra defesas europeias. Os brasileiros não sabem jogar duro — apenas sujo. E os bons árbitros reduzirão seu time a oito ou nove homens, se eles continuarem jogando na Argentina como fizeram em Wembley”.

A verdade, é que, em toda a sua história futebolística, a Inglaterra nunca teve um Reinaldo e, muito menos, um Zico. E Nunes foi aquele que “arrebentou” com a defesa do Liverpool, em 1981, na final de Tóquio.

Esse preconceito e mentalidade ainda colonialistas, perduram até os dias de hoje. O recalque e a inveja do talento do futebol brasileiro, ainda persiste.

Há alguns anos, Sir Alex Ferguson, o lendário treinador do Manchester United por mais de 25 anos, deu uma declaração contra o jogador David Luiz que, na época, jogava pelo Chelsea e se envolveu em uma disputa com um dos jogadores do Manchester, que recebeu o cartão vermelho.

— O árbitro se deixou levar pelo fato de ele [David Luiz] estar rolando no chão e duvido que tomaria outra decisão se não tivesse visto aquilo. É algo que vemos nestes jogadores europeus, estrangeiros e sul-americanos” — frisou o então treinador do United.

De acordo com o que Ferguson disse, será que ele está dando a entender que os únicos que não fingem lesões são os jogadores britânicos?… Bem, talvez tais atletas simplesmente não tenham tantas oportunidades para dramatizar suas lesões no centro do maior palco do futebol mundial — a Premier League —, uma vez que eles são cada vez mais uma raridade entre os titulares das maiores equipes do mundo. E a cada ano que passa, eles parecem ter menos espaço em decorrência de serem substituídos pelo talento estrangeiro — precisamente, o mesmo talento cobiçado, em muitas ocasiões, pelo próprio Ferguson para fazer parte de seu plantel.

Se Fergusson viesse com essa ladainha pra cima do Coutinho iria tomar na hora uma lambada, iria tomar um “ippon”.

Em certa ocasião, antes da Copa,quando um jornalista inglês lhe perguntou se já considerava o Brasil suficientemente europeizado Coutinho respondeu no mesmo tom irônico da pergunta:

— “Estamos tão abrasileirados, quanto vocês sempre pretenderam ser.”

Quer dizer, a inteligência da resposta de Coutinho é, simplesmente, espetacular e arrasadora, um tiro certeiro na cara do jornalista bretão. Como um líder desses, arisco no raciocínio, não conseguiria empoderar seus comandados? Coutinho tocava o coração das pessoas.

Agora, faço uma pergunta ao leitor:

— Alguém acha que, se Claudio Coutinho estivesse à frente da Seleção Brasileira no 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineirão, seus jogadores iriam permitir tamanha vergonha? E ainda na partida da disputa do terceiro lugar, tomaram mais três gols da Holanda?

Era um bando de jogadores sem brios, sem vergonha e sem sangue nas veias. Em dois jogos de uma Copa do Mundo, tomaram dez gols. A acachapante derrota para a Alemanha foi uma falha sistêmica e um episódio sem precedência entre seleções campeãs do Mundo. E seria ainda pior se os alemães não tirassem o pé do acelerador. Certamente, se tivéssemos um Chicão ou um Brito, em qualquer desses dois jogos, a parada seria outra; como dizem: o buraco seria mais embaixo.

A tremenda disposição demonstrada pelo Brasil na “Batalha de Rosário” não foi vista nem de perto, nem de longe nas apresentações dessa Seleção.

O pugilista norte americano Marvin Hagler permaneceu invicto por mais de dez anos. Ele mencionou que um dos fatores que o motivava durante tanto tempo era um certo temor que ele carregava consigo. Ele disse:

— Há um monstro que sai de dentro de mim quando estou no ringue. Acho que isso me faz lembrar dos tempos em que eu não tinha nada, quando passava fome. O monstro é esse, e ele me assusta”.

Obviamente, esse é um sentimento muito poderoso e instintivo que alguém pode usar para buscar motivação e se reinventar. Hagler tinha medo de voltar às origens difíceis, de passar fome novamente. E, por isso, lutava feito um leão, dava tudo no ringue.

Seria muito difícil encontrar um cara com tamanha disposição nos dias de hoje em nossas Seleções. Seguramente, nossos jogadores estão muito longe desse conceito que Hagler carregava consigo. Com os bolsos cheios e a vida resolvida, alguns se acham acima do bem e do mal.

Como pode um País, com tanto talento individual, em todos os setores do campo, não chegar nem nas semifinais nas últimas duas Copas. E seria ainda pior: ainda fazer o papelão que fez no 7 a 1, em pleno território nacional, na frente de sua população?

O “capitão” da equipe, antes da cobrança dos pênaltis, nas oitavas de final contra o Chile já estava chorando e pediu para ser o último batedor, em caso de necessidade, até mesmo atrás do pobre goleiro. Um absurdo exemplo da total falta de liderança.

Com um “líder” desses, o que poderíamos esperar daqueles que, supostamente, deveriam seguir o “líder”? E o que isso nos diz a respeito de quem escolheu esse elemento para ser capitão?

Fato: onde existe liderança, tal desgoverno nunca ocorreria.

Agora, imaginem: Dunga chorando antes de bater pênaltis? Do mesmo modo: Romário, craque e valente dentro do campo, tirando a responsabilidade de si na hora da cobrança e passando para os ombros de outro?

Lembro do Romário pegando a bola na decisão por pênaltis com apreensão, mas caminhando com fé, e como alguém que estava pronto para morrer de pé, se fosse o caso, na final de 1994 contra a Itália.

Também lembro do Zico, um dos maiores jogadores que o Mundo já viu, com toda a coragem e personalidade possível, pegando a bola para bater na disputa de pênaltis contra a França, mesmo após ter perdido um pênalti durante o jogo; ele entrara, momentos antes, frio em um jogo quente mas, na hora do pênalti, enquanto alguns fingiam que “não era com eles”, Zico não fugiu da raia. Maior bravura do que a demonstrada pelo Galo, um monstro sagrado, seria difícil de encontrar.

Jogadores dessas equipes, imbuídos de uma mentalidade aguerrida, contrastam com os de outras seleções que voltam para a casa antecipadamente, com suas tropas de maquiadores, cabeleireiros, aplicadores de botox e com água oxigenada para encher até uma piscina. Em suma, precisamos de um técnico que consiga tirar o melhor de nossos jogadores. 

Nossa Seleção precisa da liderança de alguém que tenha uma filosofia e um sistema de valores mais espartanos e menos consumistas, menos materialistas e menos ocos. Alguém que, por menor que seja, consiga passar alguns desses ensinamentos e que eles sejam carregados para dentro e fora do campo, criando objetivos de irmandade, de espírito coletivo, de verdadeiros guerreiros.

Enfim, alguém que acenda a chama dentro do coração desses gigantes, com talento de sobra, mas administrados — dentro e fora dos gramados por pessoas muito limitadas.

Vejamos a equipe da Croácia que joga um futebol lindo e tem craques por todos os lados. Durante a Copa do Mundo demonstrou ser verdadeiramente detentora de muita personalidade e uma forte identidade. Sua coesão pode ter raízes na História de seu país, forjada a partir do conflito que se seguiu à desintegração geográfica da Iugoslávia na década de 1990. O craque, Luka Modrić, um dos jogadores mais talentosos e técnicos do mundo, além de ser um dos mais inteligentes em campo, falou sobre como o assassinato de seu avô por um grupo de chetniks moldou seu caráter. Outros jogadores enfrentaram, diretamente ou indiretamente, o trauma de tais eventos históricos.

Sem dúvida, seria um desafio encontrar uma experiência coletiva que pudesse servir para galvanizar e motivar um grupo de jogadores para realizar feitos extraordinários. “Tomates” — como dizem os portugueses — é o que não falta nessa gente. Gente imbuída de um espírito de valentia, garra, determinação e coragem a dar de sobra. Considerando que a equipe da última Copa é composta por jogadores significativamente diferentes daqueles que jogaram na final contra a França, durante a Copa do Mundo anterior, na Rússia, o crédito pelo sucesso deve ser dado à liderança do técnico principal.

Essa liderança acima descrita e a disposição demonstrada pela Seleção de Cláudio Coutinho não existiu para o Brasil nas últimas três Copas. O conhecimento multifacetado que Coutinho detinha se faz ainda mais necessário.

Além do saber em diversas áreas, Coutinho tinha um engajamento social e uma filosofia de vida que serviriam como um verdadeiro antídoto contra o veneno, a barbárie, contra o mangue das banalidades que afoga cada vez mais pobres almas em nossa sociedade e que aflige muitos dos que jogam em nossas Seleções. Ele estaria dentro do bote entregando salva-vidas.

***

Chega a ser incrível o rápido desenvolvimento e sucesso do gaúcho Claudio Pêcego de Moraes Coutinho na carreira de treinador de futebol. Quando ele assumiu a Seleção, só tinha alguns anos de experiência como treinador principal e, em curto tempo, fez o que fez não só com a Seleção, mas com o Flamengo também. Depois dos dois empates durante a Copa contra a Suécia e a Espanha, a Seleção ganhou da Polônia e do Peru, de forma convincente.

Na partida de Rosário contra a Argentina, o Brasil esteve nitidamente melhor em campo e só não ganhou a partida pela proeza técnica mostrada pelo goleiro Ubaldo Fillol, que fez defesas milagrosas.

Regularmente, diferenças milimétricas ou detalhes inquantificáveis dentro de um jogo determinam o curso ou resultado de uma partida. Muitas vezes, uma bola na trave ou uma defesa milagrosa no final da partida, são a diferença entre a vitória ou a derrota. A sorte faz parte de qualquer jogo e é difícil encontrar um campeão sem sorte.

Também vale a pena dizer que o cerco estava montado para facilitar o caminho do país anfitrião. Sabe-se lá o que poderia ter acontecido se o Brasil passasse à frente do marcador, na partida de Rosário? Talvez fosse mesmo impossível ao Brasil sair com a vitória naquele jogo. Possivelmente, não teria sido permitido, pois algum artifício de última hora seria administrado.

No entanto, o técnico brasileiro deixou o Brasil invicto na Copa de 1978 e só não foi à final em decorrência de artifícios altamente duvidosos que eliminaram o Brasil por saldo de gols. A volta para casa, sem a Copa, serviu de munição para os detratores desse grande técnico.

Ainda mais que existe até hoje certo preconceito contra técnicos que nunca jogaram futebol profissionalmente. Seguramente, muitos ex-jogadores veem com maus olhos aqueles que almejam ser técnicos de futebol sem a experiência de jogador profissional. Talvez acreditem que essas posições de destaque devem ser reservadas somente a ex-jogadores.

Cláudio Coutinho, com todo o conhecimento que detinha naquela época, estaria, hoje em dia, à frente até mesmo de qualquer técnico brasileiro. Sua trajetória e o que ele representou para o futebol brasileiro ainda precisa ser elucidado com maior profundidade.

Ele era um homem com convicção blindada, mas flexível no raciocínio. E não somente em relação ao gerenciamento humano, mas também na utilização do elenco, em sua totalidade, da maneira mais eficiente, pois utilizava escalações diversas, de acordo com as necessidades dos jogos.

Rodrigo de Paul, jogador argentino, é um dos exemplos de determinação e garra da seleção albiceleste: um meio-campista duro e rústico, que chega nas divididas com vigor, incorporando o espírito guerreiro que personifica uma Seleção. Após a vitória na final, ele escreveu em uma de suas redes sociais:

— Não busquem dinheiro; busquem glória! Sejam campeões do mundo e todo o povo se lembrará de vocês e irão vos agradecer pelo resto da vida”.

De forma parecida, o Capitão Claudio Coutinho disse à revista Placar, em 1978:

— A melhor maneira de se motivar um grupo é chamá-lo para a concretização de um grande objetivo. E a Copa é esse objetivo. Qualquer obstáculo é superado; o frio, o cansaço, tudo é vencido. A meta vale qualquer sacrifício.

Isso já diz tudo: a conquista de um título é a maior realização pessoal para um jogador de futebol e vale mais do que qualquer bem material. Certamente, vale muito mais do que um pedaço de carne folheada a ouro, consumida por pobres almas, sem rumo e sem comando, que deveriam ter mais sede de vitória — a glória maior do esporte.

Precisamos de braços mais fortes e mãos mais amigas e unidas. Precisamos de alguém que — como disse Rex Ryan, com muita sabedoria —, “consiga unir estrelas solitárias em uma galáxia”.

O “cometa” Claudio Coutinho passou com uma velocidade jamais vista pelos céus do Brasil. Enquanto esteve presente, deu tudo pelo Brasil, acreditava na soberania da Nação, amava a Pátria, deu a cara às balas nas entrevistas, tutelou e botou os prepotentes ingleses em seus devidos lugares, tanto dentro e fora do campo, com fogo e com a cabeça em Wembley. Na Argentina, deixou tudo nos campos de batalha, Foi invejado por deter um conhecimento que ninguém tinha e, muitas vezes, foi desmerecido e injustiçado.

No entanto, para as centenas de pessoas que estiveram sob sua tutela, ele as sensibilizou, deu luz e esperança onde a escuridão reinava. E formou uma galáxia. Tocava no coração e dava atenção às pessoas, independentemente de qualquer bem material que elas pudessem ou não possuir. Ou do que pudesse receber em troca.

Coutinho foi e continua eternamente amado pela Nação Rubro-Negra que, de suas mãos, viu nascer uma das equipes mais entrosadas e sensacionais que o Mundo do futebol já viu.

Ex unitate vires! [A força da unidade!] — Inesquecível!

Imaginem se a trágica e precoce morte desse gigante sagrado do futebol brasileiro não tivesse ocorrido. Ele estava em plena ascensão e longe do auge, pois era muito jovem quando faleceu. Acredito piamente que, se tivesse mais tempo no comando da Seleção, teria ganho uma Copa do Mundo.

Em uma das conversas que tive com Julio Cesar “Uri Geller”, um driblador nato, disse a ele que considerava Claudio Coutinho quase  era um psicólogo.

Num dos artifícios mais marcantes com o intuito de motivar um grupo de atletas que já escutei, o driblador me disse:

— Antes da final no Maracanã, em 1980, contra o Atlético Mineiro, antes da ida ao estádio, ainda na concentração, o homem botou uma caixa de sapatos na nossa frente e disse: “A minha preleção pra vocês, hoje, está dentro dessa caixa, a minha preleção pra vocês, hoje, está dentro dessa caixa”.

— Quando abrimos a caixa, havia um sapato de salto alto. Quer dizer: o homem era genial,  ele era um líder com o coração. Estava nos alertando contra o excesso de confiança e para entrarmos em campo com os pés no chão.

Quando disse de novo que Coutinho era um psicólogo, na mesma hora e de imediato, ele me disse:

— Velho, velho… ele era muito mais do que um psicólogo. Ele era muito mais do que um psicoólogo. Ele era diferente. O conhecimento dele era absurdo, velho. O homem tinha muito mais conhecimento do que um psicólogo; ele era um psiquiatra. Velho,  ele era um psiquiatra.

Capitão Claudio Coutinho: ame-o ou deixe-o!

Ricardo Guerra é Fisiologista do Exercício e tem Mestrado em Fisiologia Esportiva, pela Liverpool John Moores University. Trabalhou com vários clubes de futebol no Oriente Médio e Europa, incluindo as seleções do Egito e do Catar. Em 2015, foi Fisiologista do Exercício do Olympique de Marseille, época em que o time chegou à final da Copa da França contra o PSG.

Ricardo detém a mais importante licença de treinador da FA — Associação de Futebol da Inglaterra e também da UEFA — União das Associações Europeias de Futebol.

Viajou pelo Mundo, coletando dados e quantificando a capacidade fisiológica de jogadores de vários países. Seus artigos foram publicados em mais de cinco idiomas em várias organizações de notícias. Atualmente, Ricardo está radicado nos Estados Unidos, é candidato a PhD em Fisiologia do Exercício, está escrevendo um livro sobre o futebol brasileiro e pode ser contatado pelo e-mail rvcgf@hushmail.com

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