A avaliação de sistemas desenvolvidos pela Base Industrial de Defesa marca uma nova etapa na incorporação de aeronaves remotamente pilotadas ao planejamento operacional do Exército, alinhando a Força às principais tendências observadas nos conflitos contemporâneos.
Por Redação DefesaNet
(FYI) A rápida evolução dos sistemas aéreos não tripulados transformou profundamente o campo de batalha moderno. Se há poucos anos os drones eram empregados principalmente em missões de reconhecimento e vigilância, hoje desempenham funções que vão desde aquisição de alvos e correção de tiro de artilharia até ataques de precisão, guerra eletrônica e apoio logístico. Nesse contexto, a decisão do Exército Brasileiro de realizar uma campanha de avaliação de drones produzidos pela Base Industrial de Defesa (BID) representa um passo estratégico na adaptação da Força Terrestre às novas características da guerra contemporânea.
Realizada entre 22 de junho e 3 de julho, a campanha foi conduzida pela Diretoria de Fabricação em conjunto com o Centro de Avaliações do Exército (CAEx). O objetivo não foi selecionar imediatamente um fornecedor, mas avaliar diferentes soluções tecnológicas nacionais, identificar suas capacidades e limitações e gerar subsídios técnicos para futuros processos de aquisição, desenvolvimento doutrinário e aperfeiçoamento operacional.
A iniciativa demonstra uma mudança relevante na forma como o Exército conduz seus programas de modernização. Em vez de estabelecer requisitos rígidos antes do contato com a indústria, a Força opta por conhecer o estado da arte das soluções disponíveis no mercado nacional para, a partir dessa experiência, definir requisitos operacionais mais consistentes e aderentes às necessidades do combate moderno.
Essa metodologia aproxima o Exército das práticas adotadas por forças armadas de referência internacional, nas quais a experimentação operacional passou a desempenhar papel central no processo de desenvolvimento de capacidades. O conceito privilegia ciclos contínuos de avaliação, adaptação tecnológica e evolução doutrinária, reduzindo riscos de aquisição e acelerando a incorporação de inovações.
Embora o comunicado oficial não estabeleça relação direta com conflitos recentes, é evidente que a guerra na Ucrânia exerce forte influência sobre a revisão dos programas militares em praticamente todas as grandes forças armadas. O conflito consolidou os drones como um dos principais multiplicadores do poder de combate, alterando profundamente a dinâmica das operações terrestres.
O emprego massivo dessas plataformas demonstrou que sua importância ultrapassa o reconhecimento tático. Atualmente, sistemas não tripulados são empregados para vigilância permanente, identificação e designação de alvos, apoio à artilharia, ataques de precisão, operações de saturação, retransmissão de comunicações e missões logísticas em áreas de elevado risco. Em paralelo, a crescente utilização de drones impulsionou o desenvolvimento de sistemas de guerra eletrônica voltados à interferência, bloqueio e neutralização dessas plataformas, criando um ambiente operacional caracterizado por permanente disputa no espectro eletromagnético.
Nesse cenário, a campanha conduzida pelo Exército brasileiro revela uma compreensão de que a transformação tecnológica não depende apenas da aquisição de equipamentos. O verdadeiro desafio consiste em desenvolver doutrina, treinamento, organização e integração capazes de incorporar os sistemas não tripulados de forma efetiva às operações militares.
Outro aspecto estratégico da iniciativa é o fortalecimento da Base Industrial de Defesa nacional. Ao priorizar a avaliação de soluções desenvolvidas por empresas brasileiras, o Exército contribui para estimular inovação, ampliar a interação entre usuários e fabricantes e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros em uma área considerada cada vez mais sensível do ponto de vista estratégico.
A experiência internacional demonstra que a autonomia tecnológica tornou-se fator decisivo para a sustentação de operações militares prolongadas. Restrições à exportação, interrupções nas cadeias globais de suprimentos e embargos tecnológicos evidenciaram que a capacidade de produzir sistemas críticos no próprio país passou a integrar os elementos da soberania nacional.
Entretanto, a incorporação de drones ao inventário militar representa apenas uma etapa de um processo muito mais amplo. O desempenho dessas plataformas depende diretamente de sua integração com sistemas de comando e controle, inteligência, comunicações, sensores terrestres, radares, artilharia e redes digitais de compartilhamento de dados. Sem essa arquitetura integrada, o potencial operacional dos drones permanece significativamente limitado.
Outro desafio reside na escala de produção. Os conflitos recentes evidenciaram que drones passaram a ser considerados sistemas de elevado consumo operacional. A capacidade de produzir grandes quantidades de equipamentos, realizar manutenção contínua e repor rapidamente perdas tornou-se tão importante quanto o desenvolvimento tecnológico propriamente dito.
A evolução da guerra eletrônica também impõe desafios permanentes. Sistemas capazes de resistir a interferências, tentativas de bloqueio, spoofing e ataques cibernéticos tendem a adquirir importância crescente à medida que os ambientes de combate se tornam cada vez mais digitalizados.


Edvaldo – CCOMSEx)

Edvaldo – CCOMSEx)

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Ponto e Contraponto
Os defensores dessa iniciativa avaliam que a campanha representa uma mudança estrutural na modernização do Exército Brasileiro. Ao aproximar a Força da Base Industrial de Defesa e adotar um modelo de experimentação tecnológica, cria-se um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de capacidades nacionais, reduzindo riscos de aquisição e acelerando a atualização doutrinária diante das rápidas transformações do campo de batalha.
Por outro lado, analistas observam que o sucesso do programa dependerá da continuidade dos investimentos. A realização de avaliações técnicas, por si só, não garante a transformação da capacidade operacional. Será necessário assegurar recursos para produção em escala, desenvolvimento contínuo da indústria, integração dos sistemas aos meios já existentes e atualização permanente da doutrina de emprego, evitando que a iniciativa permaneça restrita ao campo experimental.


CCOMSEx)

Remotamente Pilotadas (SMRP) (Foto: Capitão Edvaldo – CCOMSEx)

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Análise Estratégica
O aspecto mais significativo da campanha conduzida pelo Exército Brasileiro não reside apenas nos equipamentos avaliados, mas na mudança de abordagem institucional. A Força demonstra reconhecer que os sistemas não tripulados deixaram de constituir um recurso complementar para assumir posição central nas operações militares contemporâneas.
A tendência observada nas principais forças armadas indica que a superioridade no campo de batalha dependerá cada vez mais da capacidade de integrar plataformas tripuladas e não tripuladas, inteligência artificial, guerra eletrônica, sensores distribuídos e redes digitais de comando e controle. Nesse ambiente, a velocidade de adaptação tecnológica passa a ser tão relevante quanto a aquisição de novos armamentos.
Ao iniciar esse processo por meio da avaliação de soluções desenvolvidas pela indústria nacional, o Exército Brasileiro sinaliza uma evolução consistente na construção de capacidades futuras. O desafio, a partir de agora, será transformar a experimentação em programas estruturantes, capazes de consolidar uma força terrestre mais conectada, resiliente e preparada para os conflitos multidomínio que caracterizam o cenário estratégico do século XXI.
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