Editorial – DefesaNet
A iminente desativação dos A-4 Skyhawk representa muito mais do que o fim de uma aeronave histórica. Ela coloca em risco a continuidade de uma capacidade estratégica que levou décadas para ser construída: a aviação de combate de asa fixa da Marinha do Brasil.
É compreensível que a manutenção de uma frota reduzida e envelhecida se torne cada vez mais difícil. Os custos aumentam, a disponibilidade diminui e as limitações tecnológicas são evidentes. Entretanto, permitir que a Marinha perca completamente sua capacidade de operar aeronaves de caça significaria abrir mão de um patrimônio doutrinário, operacional e humano que dificilmente poderá ser recuperado no futuro.
Uma capacidade militar não é formada apenas por equipamentos. Ela depende de pilotos experientes, equipes de manutenção, doutrina, treinamento, procedimentos, logística e cultura operacional. Quando essa estrutura é desmobilizada, reconstruí-la pode levar décadas e exigir investimentos muito superiores aos necessários para preservá-la.
O Brasil possui uma das maiores áreas marítimas do planeta. A chamada Amazônia Azul abriga recursos estratégicos, plataformas de petróleo, rotas comerciais e infraestrutura crítica que exigem vigilância e proteção permanentes. Embora a defesa aérea seja uma missão compartilhada com a Força Aérea Brasileira, a Marinha possui necessidades específicas relacionadas às operações navais e à integração entre navios, submarinos e aeronaves.
A experiência internacional demonstra que marinhas de médio e grande porte procuram preservar sua aviação de combate, mesmo quando não dispõem de porta-aviões. O importante é manter a competência operacional até que surjam oportunidades para sua evolução.
Nesse contexto, torna-se necessário iniciar o processo de aquisição do sucessor para os A-4 Skyhawk. A aquisição de uma plataforma moderna, capaz de operar em missões de defesa aérea da Esquadra, ataque marítimo, reconhecimento e apoio às forças navais, deve fazer parte do planejamento estratégico da Força. Mais importante do que a escolha do modelo é evitar uma ruptura da capacidade.
Se a aviação de caça naval desaparecer, não será apenas um avião que deixará de voar. O Brasil perderá uma competência construída ao longo de gerações, comprometendo opções estratégicas para as próximas décadas.
Capacidades militares estratégicas não devem ser avaliadas apenas pelo custo de mantê-las, mas principalmente pelo custo de reconstruí-las quando se tornam novamente necessárias. E a história demonstra que recuperar uma capacidade perdida é sempre mais caro, mais demorado e mais difícil do que preservá-la.
A decisão sobre o futuro dos A-4 deve, portanto, ser vista como uma decisão sobre o futuro da própria Aviação Naval brasileira. Encerrar esse capítulo sem uma transição planejada significaria aceitar que a Marinha do Brasil deixe de possuir uma de suas mais nobres e complexas capacidades operacionais.





















