Entre Washington e Ancara: a estratégia de Celso Amorim para reposicionar o Brasil na geopolítica da defesa

Antalya Diplomacy Forum 2026, é um evento único com a presença de dezenas de líderes mundiais com o tema “Mapping Tomorrow, Managing Uncertainties” em 17-19 Abril 2026.

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

A realização do Antalya Diplomacy Forum 2026, ´terá como tema “Mapping Tomorrow, Managing Uncertainties” em 17-19 Abril 2026. Sob os auspícios do presidente da Turquia Recep Tayyip Erdoğan, ocorre em um momento de crescente instabilidade internacional, marcado por rivalidades estratégicas, tensões comerciais e disputas tecnológicas. Nesse cenário, a presença de Celso Amorim — ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores e hoje o principal articulador da política de defesa e relações diplomáticas brasileiras — adquire um peso que vai além do simbolismo diplomático. Ela reflete uma estratégia deliberada de reposicionamento do Brasil em um mundo mais fragmentado e competitivo.

A visita de Amorim ganha ainda mais relevância por coincidir com a presença, também na Turquia, de uma delegação militar brasileira liderada pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Humberto Montenegro Junior. A agenda inclui reuniões com o Exército turco e visitas a empresas do setor de defesa, em um movimento claro de prospecção de parcerias estratégicas e aprofundamento da cooperação bilateral.

Celso Amorim, apresentado como – “Chief Advisor to President, Federative Republic of Brazil participará da do painel Emerging Partnerships in International Peace Mediation“, dia 18 Abril.

Também participam as autoridades brasileiras:

Carlos Márcio Bicalho Cozendey – Secretary of Multilateral Political Affairs of the Ministry of External Relations, Federative Republic of Brazil, Future of Latin America and the Caribbean (LAC): New Realities

André Aranha Corrêa do Lago President of COP30, Federative Republic of Brazil

Esse movimento ocorre em paralelo ao endurecimento da postura dos Estados Unidos. Sob a orientação do U.S. Department of State e no contexto do governo de Donald Trump, Washington passou a adotar mecanismos indiretos para conter a influência de rivais no hemisfério. A nova política de restrição de vistos deixa claro que acordos militares com empresas da China e da Rússia serão tratados como potenciais ameaças à segurança americana, elevando o custo político e pessoal para autoridades envolvidas.

É nesse ambiente que o Brasil busca construir uma alternativa. Sob a condução de Amorim, ganha força uma estratégia de diversificação de parcerias e redução de dependência histórica de fornecedores tradicionais, especialmente Estados Unidos e Israel. Essa diretriz não implica ruptura, mas sim a tentativa de ampliar margem de manobra estratégica e autonomia decisória.

A aproximação com a Turquia se insere exatamente nesse contexto — e com um diferencial importante: o Brasil planeja estruturar essa cooperação por meio de acordos governo a governo, elevando o nível da parceria e reduzindo riscos contratuais, políticos e operacionais. Esse modelo permite maior previsibilidade, facilita transferência de tecnologia e reforça o compromisso estratégico entre os dois países.

Mais do que compras pontuais, o foco está em cooperação industrial estruturante. Empresas como a Otokar, no segmento de veículos blindados, e a Baykar, referência global em drones de ataque, aparecem como parceiras-chave em projetos que preveem produção no Brasil, transferência de tecnologia e fortalecimento da base industrial de defesa.

Essas iniciativas respondem a lacunas concretas das Forças Armadas brasileiras, especialmente em capacidades como drones armados e renovação de meios blindados. Ao mesmo tempo, oferecem uma alternativa a fornecedores tradicionais, frequentemente associados a restrições políticas, limitações de uso e dependência tecnológica.

A relação, no entanto, é de mão dupla. O Brasil também busca ampliar a inserção internacional da Embraer, tendo como principal vetor o Embraer KC-390 Millennium. A Turquia surge como potencial cliente e parceiro relevante, tanto pela necessidade de modernização de sua frota quanto pela possibilidade de cooperação industrial, incluindo a produção de jatos civis.

A escolha de Ancara é estratégica. Embora membro da OTAN, a Turquia adota uma política externa cada vez mais autônoma, o que a torna um parceiro flexível e menos sujeito às amarras políticas tradicionais do Ocidente. Para o Brasil, isso permite avançar na modernização de sua defesa sem provocar atritos diretos com outras potências, ao mesmo tempo em que preserva espaço de negociação.

No fundo, a presença simultânea de Celso Amorim e da delegação do Exército Brasileiro em território turco evidencia que não se trata de uma aproximação pontual, mas de um movimento coordenado entre diplomacia e setor militar. Ao buscar reduzir dependências, diversificar parcerias, estruturar acordos governo a governo e fortalecer sua indústria de defesa, o país tenta construir uma posição mais autônoma e pragmática no cenário internacional. Em um mundo onde acordos militares são cada vez mais interpretados como alinhamentos estratégicos, a margem para neutralidade diminui — e cada escolha passa a ter implicações geopolíticas diretas.

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