Por General de Brigada André Luiz de Souza Dias e Coronel Julio Cezar Fidalgo Zary
Cultuar a história nacional é um dever de todos. Os feitos realizados pelo Exército, uma vez analisados, inevitavelmente direcionam o holofote para eventos de grande destaque nacional, que tanto fortalecem o legado de orgulho patriótico, quanto contribuem para a formação de um sólido sentimento de pertencimento.
A saga da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Segunda Guerra Mundial, se enquadra com precisão neste contexto, revelando exemplos marcantes de heroísmo, como os observados na Batalha de Montese.
Após a vitoriosa Operação Encore, quando finalmente os aliados suplantaram as poderosas defesas alemãs nos montes que se debruçavam sobre a estrada SS 64 (Porretana), teve início uma nova fase na guerra na Itália, que ficou conhecida como a Ofensiva da Primavera.
A conquista de Castel d’Aiano, pela FEB, em 5 de março de 1945, selou o fim de uma penosa parte de sua trajetória em combate (a conquista de Monte Castelo).
A partir daquele ponto, os Aliados iniciaram uma verdadeira “corrida” para o Norte, buscando alcançar rapidamente o Passo de Brenner, de forma a impedir que as tropas germânicas remanescentes reforçassem suas defesas, na própria Alemanha.
Antes disso, para que o 5º Exército dos Estados Unidos da América e o 8º Exército britânico acessassem a Planície do Pó, uma última localidade, situada no flanco esquerdo do IV Corpo de Exército norte-americano (IV C Ex), deveria ser conquistada: Montese.
Contribuindo com a finalidade de fazer com que todas as defesas alemãs dos Apeninos de fato colapsassem, coube à FEB esta importante tarefa.
A cidade de Montese fazia parte da última linha de defesa inimiga, denominada “Gengis Khan”, que visava a retardar o avanço rumo ao vale do rio Pó, localizada 5 km ao norte da posição de Monte Castelo. Como a operação final foi defasada no tempo, o 5º Exército iniciou a sua manobra apenas em 14 de abril de 1945, após massivo bombardeio aéreo e terrestre.
Naquele mesmo dia, tropas norte-americanas e brasileiras do IV C Ex atacaram a porção Oeste da zona de ação e, no dia seguinte, o II C Ex atacou, em direção a Bolonha.
Desta feita, além de Montese, os febianos também se encarregaram da conquista das elevações de Montello, ponto cotado 888 e região de ponto cotado 747. Em consequência, para o início do ataque à Montese, as forças brasileiras tiveram que ocupar a frente compreendida entre a encosta noroeste do Monte Della Torraccia e o Monte Grande D’Aiano, com a 92ª Divisão de Infantaria à esquerda e a 10ª Divisão de Montanha à direita, ambos grandes comandos estadunidenses.
Conforme a Ordem Geral de Operações nº 33, da FEB, de 13 de abril 1945, ficou estabelecido que, ao Norte (direita do dispositivo), o III Batalhão do 1º Regimento de Infantaria (1º RI) atacaria a frente compreendida entre a elevação Morotti e o Vale do Cannelli, ao passo que, ao centro, o II Batalhão do 1º RI atuaria entre Natalino e o ponto cotado 777.
Ao Sul, o 11º RI avançaria na frente compreendida entre ponto cotado 771 e a Cappella Di Ronchidos, para conquistar Montese – ponto cotado 888 – Montello, ataque principal da força brasileira.
Cabe ressaltar que o inimigo em presença era a 114ª Divisão Ligeira germânica (Jägerdivision), que contava com dois regimentos e havia atuado na Iugoslávia, antes de sua transferência para a Itália. Tratava-se, portanto, de tropa bastante experimentada e especializada no combate em terrenos acidentados, baixas montanhas, bem como em áreas urbanas, o que valorizou ainda mais o feito dos pracinhas.
Às 13h30 min, do dia 14 de Abril, teve início o ataque propriamente dito, sobre o triângulo Montese – ponto cotado 888 – Montello, prosseguindo até às 15h45min, momento em que Montese foi ocupada.
Posteriormente, o III Batalhão do 11º RI alcançou seu objetivo, conquistando Serreto e as imediações de Paravento. Entretanto, o inimigo, aguerrido como de costume, ainda resistia obstinadamente em Montebuffone. Assim, os combates prosseguiram até o dia seguinte (17 de abril).
Os três dias de luta deixaram um saldo de 426 baixas brasileiras. Nesta Batalha, morreram o Aspirante Mega e o Tenente Ary Rauen, dentre tantos outros bravos. Vale ressaltar que, nas ações preparatórias para o ataque a Montese, em 12 de abril, o Brasil perdeu o 2º Sargento Max Wolff Filho.
Durante uma patrulha de alto risco, como tantas outras às quais ele se oferecia voluntariamente para comandar, foi mortalmente atingido por uma rajada de tiros inimigos, na fase final da missão. Era a temida metralhadora “Lurdinha” ceifando mais uma vida brasileira. Em seu livro, Histórias de Pracinha – Oito Meses com a Força Expedicionária Brasileira, o correspondente de guerra Joel Silveira detalha o fato.
Ao lado do Tenente Octávio Costa¹, de um posto de observação, ele foi testemunha ocular do momento em que o sangue ardente de Max Wolff regou gelado o solo italiano.
O combate de Montese foi, enfim, vencido com o total protagonismo da FEB e representou, sem dúvida alguma, uma etapa de enorme importância para a Ofensiva da Primavera. Os objetivos planejados foram plenamente alcançados e a tropa adversária, exaurida ao extremo, vendeu caro cada centímetro conquistado pelos pracinhas, dando testemunho da magnitude do sucesso febiano.
Para se ter uma ideia, os tedescos consumiram mais de 3.200 projéteis de canhão na Batalha. Foi uma vitória bastante dura para o soldado de Caxias. Dessa forma, por tudo que fizeram, representam e significarão para o Exército e o Brasil, os expedicionários devem ser heróis sempre lembrados.



¹Foi General de Divisão, Secretário-Geral do Exército, dentre outros importantes cargos, autor de importantes livros sobre a FEB e autor da marcante e profunda frase: “A farda não é uma veste que se despe com facilidade e até com indiferença, mas uma outra pele, que adere à própria alma, irreversivelmente para sempre”
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Sobre os autores:
General de Brigada André Luiz de Souza Dias – Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer, com sede em Santa Maria-RS. Nesta mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado – Batalhão Cidade de Santa Maria, no biênio 2019-20. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os seguintes Mestrados Acadêmicos: em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil; em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha; e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).
Coronel Julio Cezar Fidalgo Zary – Formado em 1997, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, é Assistente do Comandante Militar da Amazônia, cujo Comando tem sede em Manaus-AM. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, comandou o VII Contingente brasileiro na Missão de Paz na tríplice fronteira Líbano – Israel – Síria. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências da Motricidade Humana, ambos no Brasil. É o atual Vice-diretor do Museu Virtual da Força Expedicionária Brasileira (MVFEB).




















