José Múcio e o legado da pacificação sem poder

José Múcio, Ministro da Defesa. Foto Agência Brasil

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

08 Abril 2026

O principal legado de José Múcio Monteiro no Ministério da Defesa será, muito provavelmente, o de ter ajudado a pacificar a relação entre o governo e as Forças Armadas em um momento de forte tensão institucional. Ao assumir a pasta no início de 2023, após a crise política do pós-eleição e os eventos de 8 de janeiro, sua prioridade foi reduzir ruídos, reconstruir canais de diálogo e afastar os militares do centro do debate político. 

Nesse aspecto, cumpriu um papel relevante: devolveu previsibilidade à relação entre o poder civil e os comandos militares e contribuiu para evitar novos episódios de instabilidade.

Mas esse legado político contrasta com um saldo extremamente fraco — ou praticamente inexistente — naquilo que deveria ser a missão central de um ministro da Defesa: fortalecer capacidades militares, definir prioridades estratégicas e preparar o país para um ambiente internacional cada vez mais volátil.

Ao fim de sua gestão, não há uma única entrega concreta que represente um salto de capacidade para o Brasil. Não houve lançamento de um programa estruturante de defesa antiaérea. Não houve avanço relevante em drones de combate, guerra eletrônica, defesa cibernética ou munições inteligentes. Não houve, sobretudo, uma nova visão integrada de dissuasão.

O que se viu foi, essencialmente, a administração da inércia. A prioridade foi evitar o colapso de programas herdados: na Marinha, manter o PROSUB e as fragatas Tamandaré; na Força Aérea, garantir alguma continuidade ao Gripen; no Exército, tentar destravar o Sisfron. Projetos importantes, mas concebidos há mais de uma década — muitos ainda longe de plena operacionalidade.

Esse é o ponto mais crítico: o Brasil segue operando programas iniciados há 10 ou 15 anos que ainda não foram concluídos — e que, em um ciclo normal, já deveriam estar entrando em fases de modernização de meia-vida. Em vez disso, continuam consumindo recursos sem gerar plenamente as capacidades prometidas.

Enquanto isso, o mundo mudou. O próprio ministro reconheceu que os conflitos atuais envolvem drones, inteligência artificial, guerra eletrônica e novos sistemas de armas, exigindo adaptação e investimento contínuo.  Mas essa percepção não se traduziu em decisões concretas.

A guerra voltou ao centro da política internacional. Países estão se rearmando, acelerando programas e redefinindo suas doutrinas. O Brasil, porém, atravessou esse período sem lançar um único projeto transformador.

Múcio optou por um perfil conciliador, discreto e de baixa confrontação. Essa escolha foi eficaz para estabilizar o ambiente político, mas também revelou um limite claro: a ausência de liderança estratégica capaz de impor prioridades, disputar orçamento e conduzir mudanças estruturais.

Mais do que isso, seu ministério expôs uma fragilidade recorrente da Defesa brasileira: a dificuldade de exercer autoridade real sobre as Forças e alinhar projetos dentro de uma estratégia nacional coerente. A pasta funcionou mais como mediadora do que como formuladora.

Sua gestão será lembrada como a da normalização institucional — o que não é pouco, dado o contexto em que assumiu. Mas também tende a entrar para a história como uma oportunidade perdida.

O Brasil teve a chance de transformar estabilidade política em avanço estratégico. Não fez nem uma coisa nem outra por completo.

Em resumo, José Múcio deixa um Ministério da Defesa mais estável, porém sem avanço proporcional em capacidade militar. Pacificou os quartéis, mas não reequipou as Forças — e tampouco demonstrou capacidade de liderá-las estrategicamente.

Em um mundo cada vez mais perigoso, isso não é apenas uma limitação de gestão. É um risco de Estado.

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