Sem o mar, o Brasil seria duramente afetado em sua economia e segurança, alerta especialista

Professor do departamento de estudos de guerra do King’s College analisa impactos de tensões internacionais sobre rotas marítimas e o papel do Brasil no Atlântico Sul

Por Primeiro-Tenente (RM2-T) Stilben

Sem acesso ao mar, o Brasil enfrentaria limitações profundas em sua capacidade de crescer, se defender e se projetar internacionalmente. O oceano Atlântico não apenas conecta o País ao mundo, como sustenta sua economia: cerca de 95% do comércio exterior brasileiro passa por rotas marítimas, evidenciando a dependência estrutural do ambiente marítimo para o funcionamento do Estado e do mercado.

Essa dimensão ganha ainda mais relevância quando se observa a extensão da chamada Amazônia Azul, que ultrapassa 5,7 milhões de quilômetros quadrados sob jurisdição brasileira. A área concentra recursos estratégicos, como petróleo e gás, além de biodiversidade e rotas essenciais para o fluxo de mercadorias e dados — incluindo cabos submarinos que sustentam comunicações globais. Trata-se de um espaço que amplia o território nacional para além do continente e exige presença constante do Estado.

O aumento das tensões internacionais e os impactos recentes sobre rotas marítimas estratégicas reforçam a centralidade do mar nas disputas contemporâneas. Episódios que afetam pontos sensíveis do comércio global, como o Estreito de Ormuz, demonstram como crises localizadas podem gerar efeitos sistêmicos. Nesse contexto, discutir o papel do Brasil no Atlântico Sul e sua capacidade de proteger interesses marítimos torna-se essencial.

Para analisar esses desafios, a Agência Marinha de Notícias conversou com o professor do departamento de estudos de guerra do King’s College (Reino Unido), Dr. Vinícius de Carvalho. Confira!

Agência Marinha de Notícias (AgMN) – O que significa, na prática, e do ponto de vista estratégico de soberania e economia, o acesso que o Brasil tem ao mar?
Prof. Vinícius: Eu diria que todo país com acesso ao mar, em termos de soberania e economia, tem alguma facilidade para o comércio internacional e para o escoamento dos seus bens. Estamos falando de uma economia forte, proteção de riquezas e aquisição de insumos. Em uma grande parte do mundo, o comércio internacional ainda é feito pelo mar, então esse acesso, principalmente na perspectiva do tamanho e dimensão que o Brasil tem, é importante no sentido de garantir que os canais econômicos vindos do mar sejam sempre mantidos e fluentes para o País.

AgMN – Em um cenário de guerra ou instabilidade global, qual seria o maior risco para um País como o Brasil, que depende do oceano para 95% do comércio exterior?
Prof. Vinícius: No cenário de guerra ou de instabilidade global, especialmente em que rotas marítimas são diretamente afetadas, há um impacto muito grande para todos os países, globalmente, não apenas para um específico. O fato de ter um grande comércio internacional baseado ou dependente do mar, como é o caso do Brasil, não é exclusividade, boa parte do mundo o tem também, e qualquer grande conflito ou mesmo uma instabilidade grande é ameaça para todo o comércio global. O País seria duramente afetado.

AgMN – O senhor diria que o brasileiro tem consciência da importância estratégica da chamada “Amazônia Azul”? Por quê?
Prof. Vinícius: A consciência sobre a importância estratégica da Amazônia Azul precisa ser olhada de uma perspectiva histórica. Se nós lembrarmos de 20 anos atrás, isso seria quase zero. Mas desde a criação do conceito de “Amazônia Azul”, desde o início de uma reflexão maior sobre o papel do oceano para o Brasil, para a economia brasileira, e com o trabalho grande que a comunicação estratégica da Marinha tem feito, essa consciência vem se tornando cada vez mais evidente. Então, acho que é importante olhar em perspectiva. Se nós formos olhar nos últimos dez anos, tal conhecimento cresceu bastante. E se o trabalho continuar sendo feito na dimensão e capacidade que tem sido, seguramente vai aumentar exponencialmente.

AgMN – Com rotas marítimas interrompidas — como vemos hoje em regiões como o Estreito de Ormuz — quais são os impactos imediatos para o Brasil?
Prof. Vinícius: O Brasil tem reserva de petróleo, é um País produtor em grande escala e, mesmo não necessitando tanto de importações do tipo, sofre com a subida dos preços mundiais. Isso impactará o País e o consumidor, no dia a dia do cidadão comum. Esse é um impacto de longo prazo, porque é preciso considerar que uma interrupção no Estreito de Ormuz é mais ou menos como se você fosse um atleta e, por alguma razão, acidente ou algo assim, tivesse que parar de correr hoje. E, mesmo que você consiga voltar daí a alguns dias, até ser o que era antes levará um tempo, exigindo fisioterapia, treinamento e outros cuidados. A mesma lógica se aplica aqui: a reabertura do canal não representa um recondicionamento imediato da economia global com tranquilidade. Ou seja, o impacto é enorme para o Brasil. Talvez não se sinta isso imediatamente, mas, em alguns meses, começará a ser percebido com mais intensidade.

AgMN – O Brasil está preparado para proteger suas riquezas no mar, como petróleo da Margem Equatorial e recursos da Amazônia Azul?
Prof. Vinícius: Ante a dimensão da nossa Zona Econômica Exclusiva e a pujança da Amazônia Azul, é ilusão pensar que há como controlar e proteger cada centímetro. Por isso, é imprescindível desenvolver mecanismos próprios (como o SisGAAz – Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul) e, de certa forma, mais meios capazes de permitir a proteção e a vigilância dessas áreas. Nossas Forças Armadas, especialmente a Marinha, devem ter condições de se modernizar continuamente para dar conta dessa área e manter coordenação com outros atores envolvidos na proteção dos recursos do mar. O objetivo é que tanto a Margem Equatorial quanto os recursos da Amazônia Azul sejam devidamente protegidos e explorados de forma consciente, cuidadosa e não predatória.

AgMN – Qual é o papel da Marinha do Brasil em um cenário de crise internacional que afete o Atlântico Sul?
Prof. Vinícius: É muito importante destacar que a Amazônia Azul é a nossa casa. Ela não é o quintal, mas sim a casa toda, pois também habitamos nesse oceano. Se um determinado conflito escalasse para o Atlântico Sul, as rotas comerciais – não só de petróleo, mas dos 95% de nosso comércio exterior – ficariam literalmente congestionadas. Nesse cenário, será necessária a presença, a dissuasão e a atuação 24 horas por dia da Marinha do Brasil, com seus meios e militares. A Marinha do Brasil é a instituição com expertise para isso, seguramente.

AgMN – Os cabos submarinos são hoje uma infraestrutura crítica. O Brasil está vulnerável a ataques ou sabotagens nesse campo?
Prof. Vinícius: O mundo inteiro está bastante vulnerável a sabotagem nesse campo. É praticamente impossível proteger completamente as vias desses cabos submarinos em todo o mundo. Por isso, é importante ter uma noção clara não só da importância de mantê-los, mas também de estar presente para dissuadir e proteger, especialmente na parte entre os cabos e o litoral – por onde chegam aos consumidores. Há exemplos no Mar do Norte e no Mar Báltico que representam demonstrações de que mesmo as Marinhas mais bem equipadas têm alguma dificuldade na proteção dessas infraestruturas críticas.

AgMN – A função da Marinha como Autoridade Marítima é suficientemente compreendida pela sociedade brasileira? O que está em jogo nessa atribuição?
Prof. Vinícius: O termo Autoridade Marítima significa uma Marinha com múltiplas funções – regulamentar atividades mercantes, promover e implementar a Lei de Segurança do Tráfego Aquaviário, assegurar a salvaguarda da vida humana e a segurança da navegação (não só no mar aberto, mas também nas vias interiores). Não é todo mundo que sabe disso, então isso precisa ser mais divulgado e até mesmo respeitado, porque, ao estar ciente dessas atribuições, a população não só valoriza a Força, mas também cobra as autoridades para que tenham um olhar de maior reconhecimento para ela.

AgMN – Em um mundo mais conflituoso, o Atlântico Sul pode deixar de ser uma zona relativamente pacífica? O Brasil está pronto para essa mudança?
Prof. Vinícius: A gente está supondo que o Atlântico Sul é uma zona pacífica. Mas, se observarmos, por exemplo, o Golfo da Guiné, pode-se dizer o contrário, que não é tão pacífico assim. Se considerarmos também que há, por exemplo, ilhas americanas e inglesas no Atlântico Sul, e que esses países possuem material nuclear, armas nucleares, e interesses na região, verifica-se que não é tão pacífico assim. Se a gente olhar que, por exemplo, a Argentina ainda reclama o direito de soberania sobre as Malvinas, ainda que não haja um conflito cinético agora, trata-se da mesma situação.

Ou seja, há uma declaração de que o Atlântico é uma zona de paz, mas é preciso não cair na ilusão de que existem áreas pacíficas e protegidas no mundo que nunca deixarão de ser assim. Nesse sentido, é crucial que o Brasil garanta o acesso ao mar para sua defesa, para manter suas linhas de comunicação com o restante do mundo e para assegurar a soberania do seu território.

AgMN – Quão importante é monitorar e coibir adequadamente pesquisas científicas clandestinas ou atividades não autorizadas em nossa área marítima? 
Prof. Vinícius: Há uma grande responsabilidade do País, na Zona Econômica Exclusiva e na Amazônia Azul, de vigilância e de certificação de tudo o que ocorre também em termos de pesquisa. Já houve várias tentativas de extrair ou patentear recursos em nossa região. Por isso, o Brasil precisa assegurar, por meio de sua Defesa Naval, que não haja nessas porções oceânicas quaisquer estudos, comércio ou atuação não autorizada que causem violação à soberania nacional ou aos nossos recursos.

AgMN – Ilhas como São Pedro e São Paulo e Trindade são essenciais para a extensão da nossa plataforma continental. Existe risco real de o Brasil perder influência ou controle sobre essas áreas no futuro? O que isso significaria estrategicamente?
Prof. Vinícius: Estamos vivendo algo que não víamos há mais de meio século: países sugerindo tomar parte de territórios ou ilhas que pertencem a outras nações, diretamente violando o princípio fundamental da soberania. Isso realmente é preocupante, pois são países de grande porte militar que agem contra outros que não estão à altura em termos robustos de defesa. Isso significa que devemos estar preparados para quaisquer cenários, seja para dissuadir ou combater. Em algum momento, alguma grande potência pode manifestar mais do que um interesse em alguma das ilhas oceânicas brasileiras, o que deve gerar respostas brasileiras à altura.

Inscrições abertas para simpósio sobre segurança no Atlântico Sul

Diante desse cenário e da importância estratégica do Atlântico Sul, a Marinha do Brasil realizará, em 10 de abril, das 8h30 às 12h, o 3º Simpósio Marítimo da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), com o tema “ZOPACAS – Fortalecendo a Cooperação Marítima e a Segurança no Atlântico Sul”. O evento será realizado em formato híbrido, com atividades presenciais na Escola Naval e transmissão ao vivo pela plataforma Zoom Webinar e pelo canal oficial da Marinha no YouTube.

O simpósio será um fórum para debater o fortalecimento da ZOPACAS como mecanismo de promoção da paz, da segurança e da estabilidade no Atlântico Sul. Durante o evento, serão apresentados os subtemas “Desenvolvimento da Consciência Situacional Marítima Integrada no Atlântico Sul” e “Planejamento Espacial Marinho (PEM)”.

As inscrições estão abertas e podem ser realizadas no site: www.marinha.mil.br/simposiozopacas, onde estão disponíveis informações complementares sobre o evento.

Fonte: Agência Marinha de Notícias

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