Hermes 900 acidentado na Operação Cooperación XI, em 25MAR2026. Foto FAB
Fiel Observador
A sucessão de dois acidentes com o Hermes 900 colocou a Força Aérea Brasileira diante de um fato incontornável: sua capacidade de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR) entrou em zona crítica. Com apenas uma aeronave disponível para cumprir esse tipo de missão, enquanto aguarda a entrega de outra, a FAB passa a operar no limite — sem margem e com risco direto de perda de consciência situacional em missões de vigilância sobre áreas estratégicas.
O impacto não é apenas quantitativo. É também operacional e doutrinário. Em um ambiente em que a informação em tempo real dita o ritmo das operações, a redução da capacidade de ISR afeta desde o monitoramento de fronteiras até o apoio a ações mais complexas, inclusive em conjunto com outras forças.
O Hermes 900, desenvolvido pela Elbit Systems, sempre foi tratado como uma solução intermediária — capaz de cumprir missões de vigilância com boa autonomia e sensores modernos. Mas, na prática, a limitação quantitativa da frota e a ausência de uma camada superior de capacidades mostram que o conceito operacional já não atende plenamente às exigências atuais. Até hoje, a FAB opera essas aeronaves sem radares, sem sistemas dedicados de inteligência de sinais (SIGINT) e sem sensores multiespectrais mais avançados — além de não explorar a capacidade de emprego de armamento, mesmo com a existência de pontos duros nas asas.
Os conflitos recentes deixam claro que a integração entre ISTAR e ataque de precisão deixou de ser exceção. Tornou-se padrão. Drones passaram a ocupar um papel central, não apenas como plataformas de observação, mas como vetores capazes de detectar, acompanhar e engajar alvos com armamento stand-off, ampliando o alcance das operações e reduzindo a exposição de meios mais complexos.
É nesse contexto que se impõe a necessidade de um projeto emergencial para aquisição de drones de categoria 5 — plataformas HALE (High Altitude Long Endurance), com capacidade de operar com sensores mais avançados, como radares de abertura sintética, sistemas optrônicos de última geração, guerra eletrônica e inteligência de sinais, além da integração de armamento guiado de precisão.
Esse tipo de sistema entrega algo que hoje a FAB não possui: permanência prolongada sobre a área de interesse combinada com capacidade de ação imediata. Com enlaces de dados robustos e sensores de longo alcance, esses drones podem monitorar grandes áreas por longos períodos, identificar ameaças com antecedência e, se necessário, agir sem depender de outros vetores.
Além disso, permitem preservar ativos de maior valor e complexidade, como o Saab JAS 39 Gripen E, que passam a ser empregados apenas quando realmente necessários.
A capacidade de ataque stand-off é central nesse cenário. Em ambientes cada vez mais contestados, engajar alvos à distância, com precisão e menor risco, deixou de ser uma vantagem e passou a ser uma exigência operacional básica.
O segundo acidente com o Hermes 900 acaba funcionando como um ponto de inflexão. A lacuna atual expõe o problema de forma clara e cria as condições para decisões que, em circunstâncias normais, tenderiam a se arrastar por anos. A aquisição emergencial de drones armados precisa ser tratada como prioridade — não como possibilidade.
No fim, a equação é simples. A guerra mudou — e rapidamente. A FAB precisa acompanhar esse movimento. Operar com capacidades limitadas em um domínio que hoje é central para qualquer força aérea moderna não é mais uma opção.
A discussão já não é sobre substituir uma aeronave. É sobre redefinir um conceito operacional e reconstruir, com urgência, uma capacidade militar essencial.
Nota DefesaNet
Um drone Hermes 900 foi perdido durante a Operação Taquari 2 (cheias no RS, em 2024).
O segundo foi perdido durante o exerccicío Cooperacion, dia 25MAR2026, em Campo Grande, MS.
Em ambos acidentes não foram mencionadas as causas.




















