Com o mercado internacional super aquecido a credibilidade de defesa do Brasil dica em cheque pelos paios vazios Foto Lançamento do míssil MBDA Meteor desde o caça F-39 Gripen.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
O Brasil vive hoje uma contradição perigosa: mantém uma das maiores forças armadas da América Latina em números, mas carece do elemento mais básico para sustentar qualquer conflito moderno — munição. Não se trata mais de um problema pontual ou administrativo, mas de uma falha estrutural que empurra o país para uma situação operacional alarmante. Em um cenário internacional instável, com guerras de alta intensidade voltando ao centro da geopolítica, o Brasil corre o risco de descobrir, tarde demais, que sua capacidade militar é, em grande parte, apenas aparente.
Na Força Aérea Brasileira, o quadro é particularmente simbólico. Poucos caças voam e treinam, mas sua real capacidade de combate é extremamente limitada. Os mísseis BVR Derby, da Rafael, que deveriam garantir engajamentos além do alcance visual, estão vencidos e jamais foram empregados em lançamentos operacionais pelos F-5 modernizados. Já os mísseis Python 4 existem em números tão reduzidos que, durante grandes eventos internacionais, aeronaves chegaram a voar armadas com apenas um míssil em uma das asas — algo impensável em forças aéreas minimamente preparadas para o combate. A situação se agrava com a ausência dos mísseis IRIS-T, da alemã Diehl — justamente o míssil WVR, Within Visual Range (Alcance Visual), escolhido para equipar o Gripen E — que não foram entregues, possivelmente em função de restrições de exportação.
Nesse contexto, a única capacidade real de combate ar-ar da aviação de caça brasileira passa a se concentrar nos mísseis Meteor, integrados ao Gripen E. Sem eles, os caças mais modernos da Força Aérea estariam, na prática, completamente “sem dentes”, incapazes de exercer superioridade aérea de forma crível. O resultado é claro: o Brasil possui aviões de combate modernos, mas não dispõe de um conjunto equilibrado e disponível de armamentos — em quantidade e validade — para empregá-los de forma efetiva em todo o espectro de combate.
No mar, a realidade não é mais tranquilizadora. As novas fragatas da classe Tamandaré, apresentadas como símbolo da renovação naval brasileira, enfrentam um problema básico e constrangedor: não possuem munição disponível para seus canhões de 76 mm, reflexo direto da falta de orçamento. Na prática, isso transforma navios modernos em plataformas de presença, mas não de combate. Uma marinha que não consegue garantir capacidade de engajamento real perde sua função dissuasória e passa a operar mais como instrumento político do que militar.
No Exército Brasileiro, a situação é ainda mais grave e se aproxima de um colapso logístico. Faltam munições de todos os tipos — desde armas leves até sistemas de maior calibre. Há escassez de munição para armas coletivas, estoques limitados para morteiros e disponibilidade de artilharia restrita praticamente ao consumo anual de instrução. Os estoques de munição 105 mm dos carros de combate Leopard 1, todos os tipos, estão praticamente esgotados. Mais preocupante ainda é o caso dos modernos Centauro II: apesar da incorporação recente, esses blindados dispararam apenas em testes, sem que o Exército tenha adquirido munição operacional para seu emprego real. Ou seja, o país investe em plataformas modernas, mas não garante o mínimo necessário para utilizá-las.

A situação se agrava com a concentração de estoques em regiões sensíveis. Grande parte da munição disponível foi deslocada para Roraima, como medida preventiva diante das tensões entre Venezuela e Guiana. Embora compreensível do ponto de vista estratégico regional, essa decisão deixa o restante do território nacional ainda mais vulnerável, reduzindo drasticamente a capacidade de resposta em outras frentes.
O mais paradoxal é que o Brasil possui uma base industrial relevante no setor de defesa, com capacidade inclusive de exportação de munições. Ainda assim, as próprias Forças Armadas enfrentam escassez interna. O problema, portanto, não está na capacidade de produção, mas na prioridade orçamentária. A maior parte dos recursos da defesa é consumida por despesas obrigatórias, como salários e pensões, restando uma parcela insuficiente para investimentos, manutenção e aquisição de insumos críticos.
Em um mundo onde o consumo de munição em conflitos modernos é massivo e contínuo — como evidenciado na guerra da Ucrânia — o Brasil entra em qualquer cenário de crise já em desvantagem. Sem estoques adequados, sem reposição contínua e com cadeias logísticas frágeis, o país não teria capacidade de sustentar sequer um conflito regional prolongado, quanto mais um cenário de guerra de maior intensidade.
O Brasil ainda preserva a aparência de potência regional, com grande efetivo, programas de modernização em andamento e presença internacional relevante. No entanto, essa imagem esconde uma fragilidade fundamental. Força militar sem munição é uma ilusão — uma estrutura oca, incapaz de sustentar combate real. Se não houver uma mudança profunda nas prioridades, no planejamento e na alocação de recursos, o país corre o risco de manter forças armadas que existem no papel, desfilam em cerimônias, mas não estão preparadas para lutar.

Detalhe do canhão da Fragata Classe Tamandaré de 76mm
Nota DefesaNet
Relevantes também as munições de armas leves para as tropas de infantaria e segurança. Embora as munições de diversos calibres para toda a gama de pistolas (9mm, 45mm, etc), fuzis (5,56mm, 7,62mm) e metralhadoras (.30 e ,50) são fabricados por empresas brasileiras. Com um mercado internacional aquecido nem sempre os prazos de entrega consguem ser atendidos.





















