O Pós-Milico: identidade, travessia, consciência e depuração – Parte I


Por Walter Felix Cardoso Júnior
wfelixcjr@gmail.com

Nota do Autor

Dedico este ensaio ao meu pai, o Coronel Walter Felix Cardoso, já falecido, mas que ainda povoa minha mente e coração.

Walter Felix

“Pós-milico” é uma expressão informal, quase coloquial, mas carregada de sentido. Num primeiro plano, ela designa a vida depois da fase militar: o tempo em que o homem deixa a ativa, ou vai se afastando da identidade central de militar, e precisa reorganizar rotinas, propósitos, linguagens, vínculos e lugar no mundo. Num plano mais profundo, porém, pós-milico não é apenas o que vem depois da farda. É também aquilo que sobra de essencial quando a farda já não ocupa o vértice.

A pergunta decisiva deixa então de ser funcional e passa a ser existencial: quem é o homem para além da função militar?

Essa transição pode ser difícil e nem sempre recebe a atenção que mereceria da família, do entorno relacional e da própria Força. Há protocolos para ingresso, formação, adaptação, comando, promoção, passagem de função e desligamentos administrativos. Mas não existe, de modo claro e humano, um verdadeiro protocolo de transição para o pós-milico. Não existe uma pedagogia ampla e honesta para a passagem à reserva, à chamada “inatividade”.

E, no entanto, todos são afetados por esse processo, uns mais, outros menos. Seus efeitos mais profundos não são burocráticos, mas psicológicos, morais e espirituais. O pós-milico saudável deveria preservar aquilo que houve de nobre na carreira militar: disciplina, senso de dever, capacidade de organização, camaradagem, lealdade, discrição, resistência, prontidão para servir, responsabilidade diante do coletivo, além de coragem física e, principalmente, moral.

Tudo isso pode continuar sendo patrimônio do homem, mesmo quando a estrutura institucional já não é mais o seu eixo principal. Mas o pós-milico também exige superação. Exige ir além daquilo que, por vezes, endurece em excesso: a rigidez desnecessária, a identidade aprisionada ao posto ou à graduação, o apego automático à hierarquia, a dificuldade de ouvir outros mundos e certa secura afetiva que alguns ambientes reforçam ainda mais.

Há uma diferença importante entre manter virtudes e conservar couraças. Por isso, um pós-milico ajustado não é o ex-militar amargo, preso ao passado, repetindo glórias, remoendo decepções ou vivendo de ressentimentos. Tampouco é aquele que renega tudo o que viveu, como se precisasse apagar a própria história para seguir adiante.

O melhor pós-milico é uma transfiguração. O homem aproveita a fibra que construiu, mas a recoloca a serviço de uma etapa mais livre, mais consciente, mais sábia e, tomara, mais humana.

Esse homem pode evoluir em muitas direções saudáveis. Pode ser mentor ou conselheiro. Pode ser síndico, educador, escritor, estudioso, líder comunitário. Pode ser marido mais presente, avô mais atento, homem espiritualizado, interlocutor maduro, alguém que ajuda a sociedade a não perder a motivação interna nem a responsabilidade ética diante das obrigações comuns. O importante não é o novo rótulo, mas a qualidade interior com que ele passa a ocupar o próprio lugar.

No quartel, aprende-se a servir sob ordens; no pós-milico, aprende-se a servir por consciência. Há nessa passagem um deslocamento essencial: da obediência funcional para a autoridade interior. E talvez seja justamente aí que comece o verdadeiro pós-milico: quando o homem percebe que sua maior patente pode ser tornar-se inteiramente ele mesmo.

Esse processo, no entanto, não ocorre sem tensões. Durante muito tempo, tratou-se de uma profissão em que a vida pessoal não podia interferir. Depois, é preciso reaprender o inverso: a vida interior e a doméstica não podem mais ser tratadas como apêndices secundários. O acolhimento da casa, da família e dos afetos simples  deixa de ser detalhe e passa a ser parte do reequilíbrio.

Sem desacelerar, não vai dar. Pensar nas novas oportunidades deve ser um processo minimamente agradável, respirável, orgânico. O pós-milico não pode ser apenas a continuação cansada da lógica anterior por outros meios. É preciso sentir saudade de voltar a ser si mesmo. Ou talvez descobrir, pela primeira vez com mais clareza, quem se é sem a moldura permanente da função.

Nessa travessia, torna-se valioso encontrar companheiros de estabilização: outros pós-milicos que souberam funcionar em nova ordem das coisas, com limites expandidos, consciência mais larga e capacidade de acolher sem cinismo nemreprovação. A transição fica menos árida quando o homem percebe que não estásozinho em seu estranhamento.

Também ajuda muito não se envergonhar das sombras do passado, nem rejeitar a luz que chega. O amadurecimento não depende de negar dores antigas, mas de lhes dar lugar justo. Feridas velhas que não são tratadas tendem a virar tiranias futuras. Apego excessivo, nostalgia crônica, amargura, agressividade defensiva e sensação de não pertencimento frequentemente escondem lutos mal elaborados.

Há, porém, um ponto especialmente sensível nessa travessia e que não pode ser ignorado. Como deve agir o pós-milico quando não aceita crimes, deformações graves ou erros grosseiros que percebe emergindo dos novos e estranhos rumos tomados pelo comando de sua antiga “Legião”?

Essa talvez seja uma das provas mais difíceis da passagem. Porque, nesse ponto, não se trata apenas de reinventar rotina ou reconstruir identidade. Trata-se de decidir a quem pertence, em última instância, a própria lealdade.

Durante a carreira, muitos aprenderam a conter-se, suportar, confiar na cadeia de comando e preservar a coesão. Tudo isso tem sua razão. Mas chega um momento em que o homem precisa reconhecer que nenhuma estrutura humana pode ocupar o lugar da consciência moral. Quando o comando se afasta gravemente da honra que deveria encarnar, a fidelidade cega deixa de ser virtude. Pode tornar-se cumplicidade, servidão interior ou autoabandono.

Nessas horas, o pós-milico maduro precisa distinguir instituição e comando circunstancial, tradição e deformação, lealdade e cumplicidade. A Força, enquanto ideal, pode continuar merecendo respeito; certos homens, atos e omissões, não necessariamente. Não é traição recusar-se a aplaudir o que se considera indigno. Em muitos casos, isso é precisamente o contrário: é um último serviço prestado ao que ainda resta de nobre.

Mas também aqui é preciso equilíbrio. O homem não deve tornar-se cúmplice silencioso do que reprova, nem prisioneiro raivoso daquilo que o feriu. Não convém viver ajoelhado diante do erro, mas tampouco viver possuído por ele. Há uma forma sóbria de resistência: não legitimar o desvio, não ornamentar a mentira, não emprestar honra pessoal ao que se julga desonroso, e preservar a lucidez sem se deixar devorar pelo ressentimento.

Outra libertação difícil consiste em não se tornar refém, nem cúmplice, daquilo que se reconhece como ruim, injusto ou contrário aos próprios valores, apenas por medo de represálias, isolamento ou reprovação. Há vínculos legítimos, mas há também dependências disfarçadas de fidelidade. O pós-milico maduro precisa aprender a distinguir lealdade de servidão emocional.

Também ajuda lembrar que ninguém é responsável pela consciência do outro, e que não devemos pagar internamente pelo que outros fizeram de errado. Há culpas indevidas que precisam ser devolvidas ao seu lugar.

Além disso, é importante reaprender o simples. Cuidar de plantas, conversar com cães e gatos, observar formigas trabalhando, reconhecer formas nas nuvens, reduzira pressão do entorno, permitir-se pausas desarmadas, andar nu por dependências veladas da casa. Tudo isso pode parecer pequeno, mas ajuda a baixar a ansiedade, reorganizar a alma e devolver ao homem uma escala mais humana da vida.

Nem toda reconstrução começa com grandes projetos. Às vezes ela começa quando a respiração interna deixa de marchar e a mente para de contar. O pós-milico ideal, em resumo, deve ser forte, sem ser bruto; disciplinado, sem ser engessado;   respeitável, sem exigir reverência; experiente, sem viver de nostalgia; lúcido, sem cinismo; útil, sem precisar de plateia. Deve saber escolher com quem troca bons fluidos, precaver-se da sensação de não pertencimento e distinguir vínculos de dependência. Deve compreender que o seu lugar na sociedade não é apenas um espaço externo, mas também uma faixa de sintonia interior.

No fim, o verdadeiro pós-milico talvez comece quando o homem deixa de perguntar apenas o que fará depois da carreira e passa a perguntar, com mais coragem: que tipo de ser humano desejo me tornar agora?

A farda pode ter moldado muito, mas chega um momento em que a tarefa maior já não é repetir mecanicamente a forma antiga. É integrar experiência, cicatrizes, virtudes e consciência num modo mais alto de existir.

O pós-milico, quando bem vivido, não é decadência. É depuração. Talvez o melhor pós milico não seja o homem que simplesmente saiu da caserna, mas o homem que finalmente retirou a caserna de dentro do lugar onde ela já não precisava mandar.

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