Por Redação Defesanet
A política externa brasileira atravessa um momento de tensão estrutural entre discurso e percepção. Oficialmente, Brasília sustenta uma linha histórica: defesa do multilateralismo, respeito à soberania, rejeição ao uso unilateral da força. Na prática, contudo, a aplicação desses princípios tem sido percebida como seletiva.
Ao se solidarizar diplomaticamente com o Irã diante de ataques externos, o governo brasileiro enquadra sua posição dentro da defesa da soberania estatal. O problema é que essa postura ocorre sem ênfase proporcional na natureza do regime iraniano — um sistema teocrático autoritário que reprimiu violentamente manifestações internas, com centenas de mortos, incluindo mulheres em protestos recentes.
No caso do conflito envolvendo Hamas e Israel, a crítica ganha densidade. O Brasil condena ataques contra civis, mas evita classificar formalmente o Hamas como organização terrorista, ao contrário de EUA e União Europeia. Situação semelhante ocorre com o Hezbollah. A retórica brasileira enfatiza a crise humanitária, mas evita enquadramentos mais duros contra esses atores armados.
A controvérsia atinge seu ápice na guerra entre Rússia e Ucrânia. Embora o Brasil tenha votado na ONU em defesa da integridade territorial ucraniana, recusou-se a aderir a sanções contra Moscou e mantém diálogo político com o Kremlin. O mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional contra Vladimir Putin por deportação ilegal de crianças ucranianas não alterou substancialmente essa postura.
A crítica central é objetiva:
há uma assimetria na intensidade das condenações.
Israel recebe críticas públicas frequentes. Rússia e Irã recebem linguagem diplomática mais contida. Hamas e Hezbollah raramente são nomeados com a mesma ênfase que operações militares israelenses.
Para os defensores do governo, trata-se de coerência anti-intervencionista.
Para os críticos, trata-se de alinhamento ideológico disfarçado de neutralidade.
A política externa, que deveria ser instrumento de projeção estratégica, tornou-se arena de disputa simbólica doméstica. A percepção de seletividade corrói a imagem de neutralidade ativa que o Brasil tenta sustentar.
No cenário internacional atual — marcado por competição entre blocos, guerra convencional na Europa e conflitos assimétricos no Oriente Médio — posições ambíguas tendem a ser interpretadas como posicionamentos tácitos.
Neutralidade, em ambientes polarizados, raramente é percebida como neutralidade.
Cálculo de Poder e Interesse Nacional

A política externa brasileira sob a gestão atual não pode ser entendida como um reflexo neutro de interesses materiais, mas sim como expressão de uma agenda ideológica deliberada que se posiciona contra as potências ocidentais e em solidariedade com regimes e movimentos geopolíticos alternativos ao Ocidente tradicional.
Essa postura tem sido evidente nas escolhas retóricas e diplomáticas do Ministério das Relações Exteriores — o Itamaraty — que, em momentos de crise, tem preferido enfatizar a crítica às ações de países como os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, enquanto minimiza ou omite condenações equivalentes a ações de regimes que contestam diretamente o sistema liberal ocidental.
A reafirmação desse alinhamento foi clara em comunicados recentes sobre a escalada de hostilidades no Oriente Médio, onde o Brasil não só condenou os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, como também explicitou solidariedade com países que foram alvos dos “ataques retaliatórios” do Irã.
Tal posição foi justificada por autoridades brasileiras em termos de respeito à soberania e à necessidade de negociações diplomáticas, mas o foco na condenação de ações ocidentais e a omissão de uma crítica direta às ações iranianas revelam que o eixo ideológico da política externa atual vai além de um discurso genérico de paz e multilateralismo.
Esse padrão não se limita ao Oriente Médio. A orientação diplomática brasileira também tem se expressado em relação ao conflito entre Rússia e Ucrânia, onde o Brasil, embora oficialmente condene a violação da soberania ucraniana em fóruns multilaterais, evita apoiar medidas concretas que penalizem Moscou, como sanções econômicas — optando, em vez disso, por um discurso de negociações que muitas vezes ecoa as demandas russas por “cessar-fogo” sem retirada de ocupações ou sanções.
Essa ambiguidade estratégica tem sido interpretada por analistas como um reflexo da tentativa de construir uma posição que minimize o custo material para o Brasil, mas também como um alinhamento epistemológico com uma narrativa global alternativa que questiona a legitimidade do Ocidente como árbitro exclusivo da ordem internacional.
A mesma lógica ideológica se estende à América Latina, especialmente nas relações com Nicolás Maduro. O Brasil participou de declarações conjuntas com outros países contra ações unilaterais dos Estados Unidos em território venezuelano, formalizando oposição às iniciativas americanas e defendendo a resolução pacífica da crise na Venezuela sob o manto do direito internacional, apesar de Maduro ser amplamente criticado por sua liderança autoritária e pelo colapso econômico e social em seu país.
Essa resposta diplomática revela que a solidariedade estrangeira do Brasil não é dirigida de maneira simétrica a todos os regimes, mas favorece aqueles que — mesmo com trajetórias autoritárias — se colocam em oposição explícita às potências ocidentais ou que mantêm relações estratégicas com atores geopolíticos contestatórios, como o Irã e, historicamente, organizações alinhadas com este no cenário internacional.
No Oriente Médio, a política externa atual brasileira também se expressa em termos de alianças simbólicas e reconhecimento diplomático. O apoio declarado à Palestina, formalizado no reconhecimento do Estado palestino e na crítica constante às ações de Israel, reforça a estratégia de posicionar o Brasil como voz do “Sul Global”, em contraposição às narrativas hegemônicas ocidentais sobre segurança e legitimidade do uso da força.
O eixo ideológico dessa política não se traduz apenas em críticas específicas, mas em uma narrativa mais ampla: o Brasil busca reconfigurar seu papel na ordem internacional como um ator que questiona as práticas e prioridades das potências ocidentais — em especial dos Estados Unidos — e realinha sua diplomacia com estados e blocos que representam modelos alternativos de organização política e de exercício de poder.
Isso é visível no protagonismo que o país tem buscado dentro de mecanismos como o BRICS, onde se enfatiza a necessidade de uma ordem internacional multipolar que dilua a preponderância ocidental tradicional e promova modelos de governança em que a soberania estatal e a não-intervenção sejam absolutos centrais.
Essa escolha ideológica não é neutra. Ela implica uma crítica explícita às ações ocidentais e uma preferência por narrativas que destacam a soberania e a contestação ao intervencionismo ocidental como princípios orientadores.
Essa orientação não se manifesta apenas em palavras — resulta em práticas diplomáticas e posicionamentos que refletem uma visão de mundo em que a autoridade dos mecanismos tradicionais, muitas vezes liderados pelo Ocidente, é questionada em favor de uma reorganização global que incorpora atores e regimes historicamente marginalizados ou antagônicos à ordem liberal global.
Em suma, a política externa brasileira atual é melhor compreendida não como um mero cálculo pragmático de interesses materiais, mas como uma política consciente de promoção de um bloco epistemológico alternativo ao Ocidente tradicional, que se expressa simultaneamente na crítica persistente às ações de Washington, na solidariedade diplomática com estados que contestam essas ações, e na ênfase em multilateralismo entendido sob uma ótica que privilegia a soberania contra a “hegemonia ocidental”.
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Nota da redação – O silêncio sobre o Tibete: soberania seletiva e Realpolitik¹
Um ponto frequentemente ausente no debate público brasileiro — mas relevante na análise de coerência diplomática — é a questão do Tibete.

O Brasil, assim como a esmagadora maioria dos Estados do sistema internacional, reconhece formalmente o Tibete como parte integrante da China e adota a política de “Uma Só China”. Desde a incorporação do território por Pequim, consolidada após a entrada do Exército de “Libertação” Popular em 1950, praticamente nenhum governo brasileiro levantou questionamentos formais sobre soberania tibetana em fóruns multilaterais.
A repressão cultural e política no Tibete — incluindo restrições religiosas, controle populacional e vigilância estatal — é documentada por organizações internacionais. Ainda assim, a reação internacional tem sido limitada a críticas pontuais, sem sanções estruturais ou contestação jurídica ampla. O caso tibetano tornou-se, na prática, um tema marginal na diplomacia global.
Como referência cultural, o filme Seven Years in Tibet dramatiza o período da anexação chinesa e retrata a transformação abrupta da sociedade tibetana sob domínio de Pequim. Embora seja uma obra cinematográfica e não um documento histórico oficial, consolidou no imaginário ocidental a percepção de uma incorporação marcada por assimetria militar e choque civilizacional.
No plano político brasileiro, governos de diferentes espectros — inclusive a atual administração — mantiveram silêncio institucional sobre qualquer reivindicação de autodeterminação tibetana. Esse silêncio, contudo, não é isolado: ele reflete uma convergência sistêmica global.
A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, destino central das exportações de commodities e ator estrutural no BRICS. Qualquer contestação frontal da soberania chinesa sobre o Tibete implicaria custo econômico e diplomático elevado.
A crítica recorrente de setores oposicionistas sustenta que há seletividade na aplicação do discurso de defesa dos “oprimidos” quando o tema envolve potências estratégicas como Pequim. A leitura alternativa é que a política externa brasileira — como a da maioria dos Estados — opera sob lógica de poder e interdependência, não sob universalismo moral consistente.
O caso tibetano expõe, portanto, uma tensão estrutural: entre retórica normativa e cálculo geopolítico. E demonstra que, quando confrontados com grandes potências, quase todos os Estados — não apenas o Brasil — optam pela estabilidade estratégica em detrimento de confrontação diplomática.
¹Realpolitik é um conceito de política internacional que descreve a condução das relações externas com base em interesses concretos de poder, segurança e vantagem estratégica, e não em princípios morais, ideológicos ou valores universais. A palavra vem do alemão (“política real”) e ganhou força no século XIX, associada à unificação da Alemanha sob liderança de Otto von Bismarck. A ideia central é simples: Estados agem para preservar poder e interesse nacional, mesmo que isso contradiga discursos éticos.
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