15 de Fevereiro, 2017 - 11:00 ( Brasília )

Operação Tropicalex - 2002 O Dia-a-Dia a bordo do NAe São Paulo


Operação Tropicalex - 2002


O Dia-a-Dia a bordo do NAe São Paulo.

Nota DefesaNet

Série de Matérias sobre a Operação Tropicalex 2002, onde o correspondente de DefesaNet, Prof Carlos Oliveira, esteve embarcado. Matérias republicadas pela sua importância .

Foi uma das primeias operações com o NAe A12 como o centro do exercício. Esperava-se um futuro promissor, porém 3 anos depois, o acidente com perda de vidas e o fim anunciado no dia 14FEV2017.

Operação Tropicalex - 2002  Link


O Dia-a-Dia a bordo do NAe São Paulo  Link

Tropicalex 2002 - A Operação do Grupo de Aviação Link



 

Prof Carlos Oliveira
Enviado Espewcial DefesaNet

 


São oito horas da manhã, já me encontro abordo do NAe São Paulo. Nesta hora é dado o sinal para a bandeira, momento em que ocorre a cerimônia de hasteamento do pavilhão nacional. É segunda-feira, 03 de junho de 2002, e dentro do NAe São Paulo o trabalho não para. Há um nervosismo no ar, não só pelos preparativos para mais uma saída do navio para o mar, mas também pelo jogo da seleção brasileira que está sendo realizado.  Aqueles que podem assisti-lo o fazem, os que tem trabalho estão atentos ao serviço, mas curiosos pelo placar.  O horário de partida do navio está previsto para às 10 horas, fato que se realiza pontualmente.

Na hora prevista lentamente começa o trabalho de desatracação no NAe São Paulo. Os rebocadores começam a afastá-lo do cais. Com isto a área do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro pode ser avistada como um todo. Para trás ficam os prédios desta ilha, que é um vital centro de apoio  de nossa marinha de guerra. Do alto do NAe São Paulo, é possível ver alguns navios que lá se encontram. Seja pelo fato de estarem sofrendo manutenção ou por que lá é o seu ponto de atracação. Em especial, a minha atenção se volta para um deles. Firmemente amarrado ao cais, com seu convés vazio e tendo ao fundo a cidade do Rio de Janeiro, se encontra o veterano Minas Gerais. Nele não há mais o numeral de identificação pintado no costado. Porém a pintura está em perfeito estado, e suas linhas revelam toda uma beleza que só os navios antigos possuem. Abordo  ainda é possível observar o olhar atento dos marinheiros. Que tem uma vista privilegiada desta cidade tida como maravilhosa. E será esta a última visão de terra que eles terão por vários dias.

Ao largo, mais a frente vê-se um fragata navegando. É impossível identificá-la a olho nú,. Tendo em vista o reflexo do sol na água. Por outro lado a ré é possível identificar a silueta da fragata Bosísio  longe. Bem antes da ponte Rio-Niterói. E é vendo esta movimentação que se tem a noção de que a esquadra está se preparando para mais um manobra.

Mas desde antes do navio abandonar o cais o trabalho já havia começado. A visão da cidade é um privilégio de poucos. E os que possuem este privilégio não estão de folga, muito pelo contrário. Estão trabalhando em seus postos. No tijupá, local onde me encontro, há uma numerosa equipe atenta a todos os movimentos externos ao navio. Seguindo orientação do passadiço eles identificam e monitoram todas as embarcações que se movimentam próximas ou no trajeto que o NAe São Paulo percorrerá. Há também um monitoramento das aeronaves que sobrevoam  o local. Por outro lado busca-se localizar as aeronaves da marinha que estão prevista para pousarem no próprio navio. Este trabalho será uma constante durante toda a viagem.

Logo após  a saída do NAe São Paulo do interior da Baia da Guanabara, uma curva a esquerda é realizada. Tem-se assim uma última visão da terra. Com a praia de Copacabana ao largo, o navio se despede e segue à imensidão do mar azul. Enquanto isto, os outros navios da esquadra tomam outro rumo, a um local pré-determinado, de onde iniciaram os seus exercícios específicos.

São mais de 11 horas da manhã, e o almoço é servido. Ao todo estão no navio aproximadamente 1900 pessoas. E alimentar a todos é uma tarefa que exige muito planejamento. Para que isto ocorra de forma correta, o navio dispõe de três cozinhas. Que irão servir o mesmo tipo de comida para os cabos e marinheiros, suboficiais e sargentos e oficiais. A qualidade da comida é sempre muito boa. Fator decisivo para o bom desempenho no trabalho. E um dos motivos que me deu muito prazer foi o de descobrir que o chefe dos cozinheiros era um velho conhecido meu. Sobre isto falarei mais tarde em um texto exclusivo sobre a alimentação abordo do NAe São Paulo.

Com o almoço terminado a tripulação é reunida para receber as instruções gerais. Isto ocorre no interior do hangar. Este que é o maior espaço interno disponível no navio é um local muito importante.  Pois além de ser o local de encontro para recebimento de orientações sobre a tarefas a serem executadas a cada dia, é nele que em caso de emergência será reunido todo aquele que não se encontra em serviço. Também é o local apropriado para a prática de exercícios físicos e é claro, o local onde são guardadas as aeronaves. Neste  local todas as pessoas que são destacadas nesta viagem são agrupadas. Por destacados se compreende todo aquele que não faz parte da tripulação do  navio, seja ele um militar ou um civil. Aos destacados é organizado uma reunião, Briefing, na qual será apresentado o navio, os procedimentos a serem adotados em caso de emergência, a rotina diária e uma visão panorâmica da viagem. Feito isto todos os destacados são liberados para cumprirem suas obrigações internas no navio.

Durante a realização do Briefing, pode ser observado o ruído provocado pela chegada das aeronaves de asa fixa ao NAe São Paulo. A chegada das mesmas se deu em alto mar, num ponto pré-determinado. Inicia-se assim o treinamento ao qual o NAe São Paulo esta envolvido. A principal missão do NAe São Paulo na Operação Tropicalex, é a de "Qualificar e Requalificar Piloto a Bordo - QRPB". 

Para tanto foram enviados ao navio cinco aeronaves AF-1 Skyhawk monoplace.  Paralelo a isto pode-se afirmar que também se está adestrando os tripulantes de bordo, nas funções auxiliares a operação com aeronaves.  Inicialmente fui ao tijupá para poder observar o treinamento com aeronaves. Neste ponto elevado, em que se pode ter uma visão geram do convés de vôo. É possível ver todas as fases de um vôo. Posteriormente, fui para o próprio convés de vôo. Onde pude constatar as mesmas fases, porém com um grau de detalhamento maior. De um modo geral o exercício com as aeronaves apresenta-se, inicialmente, como algo monótono. Esta aparente monotonia é uma visão equivocada. Pois ao vivenciá-la no decorrer dos dias, pude constatar detalhes novos e melhor avaliar o real valor da mesma.

A fase de treinamento com as aeronaves ocorre até quase o por-do-sol. Momento em que as aeronaves são recolhidas para serem limpas e posteriormente guardadas no interior do hangar.  Com o por-do-sol, muitos poderam pensar que o dia terminou. Isto é verdade para muitos, porém não para todos. Pois na realidade de um navio de guerra, o dia nunca acaba. Há sempre alguém de serviço.  Esta é a realidade de quem está encarregado com a navegação, com a perfeita manutenção das aeronaves e com o conforto dos tripulantes.

Na rotina do navio, é neste horário que se realiza algumas atividades de lazer. Como a atividade física, a higiene pessoal, a refeição da noite, o estudo ou a distração compartilhando da companhia dos colegas ou assistindo a televisão. Às 21 horas é servido a ceia, que é a última refeição do dia. Após este horário vigora o silêncio. Que só será interrompido às 6 horas do dia seguinte. 

Pode-se dizer que a rotina do navio é esta. E assim serão todos os demais dias da Operação Tropicalex 2002. Em outros textos cada uma das minhas observações serão trabalhadas mais detalhadamente. E assim pretendo construir um quadro mais real e completo do que foi esta operação.


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