02 de Setembro, 2012 - 12:00 ( Brasília )

Geopolítica

Dívida - Segredos de quando o Brasil faliu

Para evitar calote do Brasil em 82, EUA exigiram apoio na Guerra Fria e cobraram facilidades no comércio

Nota DefsaNet

Excelente série de artigos publicado no dia 02 Agosto 2012 em O GLOBO.

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Dívida - Banco Central: 'Desta semana, a gente não passa' Link

Dívida - Eleição de 1982 levou governo militar a adiar ida ao FMI

Dívida - Delfim - 'Volcker nos fez um favor. Os países tinham que ajustar' Link

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Danilo Fariello e Eliane Oliveira

 

Quebrado, só com US$ 4 bilhões de reservas e dívida de US$ 85 bilhões, em 1982 o Brasil presidido pelo general Figueiredo recebeu empréstimos dos EUA como tábua de salvação. Em troca, revelam documentos secretos do Itamaraty, os americanos exigiram vantagens. Pressionado pelo governo Reagan, o país se alinhou aos EUA na Guerra Fria e aceitou acordos comerciais, relatam Danilo Fariello e Eliane Oliveira. O então chanceler Saraiva Guerreiro alertou para "efeitos lesivos ao interesse nacional". Os militares adiaram negociação com o FMI para evitar desgaste na eleição de 1982


BRASÍLIA Há 30 anos, no auge da crise da dívida externa, os Estados Unidos foram a tábua de salvação do Brasil, com a liberação de empréstimos-ponte de US$ 1,5 bilhão no último trimestre de 1982. Essa ajuda deu fôlego ao país, mergulhado na insolvência, até a formalização de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no ano seguinte, mas o Brasil pagou um preço alto pelo apoio americano. Documento secreto do Itamaraty no Arquivo Nacional, ao qual O GLOBO teve acesso, mostra como os EUA impuseram condições e exigiram vantagens. Este e outros documentos sigilosos e depoimentos inéditos iniciam a série de reportagens sobre o chamado "setembro negro" e a crise da dívida.

Pressionado pelo governo americano, o Brasil teve de se submeter a uma série de exigências, desde o alinhamento incondicional aos EUA na Guerra Fria à aprovação de propostas encaminhadas pela maior potência do mundo ao sistema internacional de comércio, mesmo que essas normas pudessem ferir, no futuro, os interesses brasileiros.

Em memorando secreto ao presidente-general João Figueiredo, em fevereiro de 1983, o então ministro das Relações Exteriores, Ramiro Saraiva Guerreiro, alertou o governo para o "alcance excessivo da proposta dos EUA e prováveis efeitos lesivos sobre o interesse nacional".
 
A crise da dívida externa chegou ao auge após a moratória do México, em agosto de 1982, que foi seguida de uma severa restrição de liquidez nos mercados financeiros, e a brusca interrupção dos fluxos de empréstimos do sistema bancário internacional para os países em desenvolvimento. O período, conhecido como "setembro negro", foi marcado por vários eventos: choques do petróleo, aumento das taxas básicas de juros dos EUA e a guerra entre Irã e Iraque.
 
O Brasil, que se sustentava às custas de uma política dependente de capital externo, até então bem-sucedida, revelou-se uma nação insolvente. Em uma reunião do FMI na cidade de Toronto, no Canadá, a equipe econômica descobriu que, após a moratória do México, o Brasil era considerado a "bola da vez" pela banca internacional. O país só conseguiu evitar um calote generalizado porque teve a ajuda dos EUA, que haviam contribuído para o caos que se instalou na América Latina, ao elevarem os juros a uma taxa de quase 20% ao ano, após uma nova crise do petróleo.
 
Em outubro e novembro de 1982, o Tesouro dos EUA liberou dois empréstimos secretos para o Brasil, no total US$ 1,5 bilhão, o que ajudou o país a sobreviver até começarem as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em visita ao Brasil, em dezembro daquele ano, o então presidente americano, Ronald Reagan, comunicou que haveria outro aporte de US$ 1,2 bilhão do Banco de Compensações Internacionais (BIS), graças à atuação dos EUA.
 
Documento ultrassecreto do Sistema Nacional de Informação (SNI), liberado recentemente para consulta no Arquivo Nacional, revelou que o presidente Reagan "sugeriu que sua visita poderia dar início a conversações, a nível interministerial, a propósito de temas tais como cooperação nuclear, na área industrial e militar, assim como no campo das atividades espaciais".
 
Embora o Itamaraty estivesse alijado do processo de negociação da dívida, comandado pela equipe econômica, o chanceler Saraiva Guerreiro antevia uma fatura alta demais a ser paga em troca do apoio, impressão confirmada por ex-ministros da Fazenda de governos posteriores ao regime militar. No meio da crise, o ministro das Relações Exteriores recomendou ao governo "enxugar" a agenda do grupo de trabalho político-comercial entre Brasil e EUA em vigor.



Figueiredo pediu ajuda a Garnero 
 

BRASÍLIA Em julho de 1982, o empresário Mário Garnero, então à frente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), recebeu um telefonema do Palácio do Planalto. O então general-presidente João Figueiredo o chamava para uma reunião secreta em Bauru (SP), durante uma solenidade.

- Do que o senhor precisa, presidente? - perguntou então Garnero, ao chegar.
 
- Preciso que você me ajude a mostrar aos EUA que temos uma ideia para sair da crise - respondeu Figueiredo.

O presidente disse a Garnero que a situação econômica do Brasil era extremamente difícil e, como se não bastasse, seus ministros da área econômica não conseguiam ser recebidos pelo primeiro escalão do governo americano. O motivo alegado era a falta de um projeto concreto a ser apresentado ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
 
Para Figueiredo, Garnero era útil por suas estreitas relações com o então secretário de Estado americano, George Schultz, que havia sido conselheiro da Brasilinvest - agência privada de desenvolvimento do empresário. Garnero encontrou-se com Schultz em setembro, com quem conversou por duas horas. Disse ao secretário de Estado que estava na hora de ele visitar o Brasil.
 
- Ele disse que não tinha convite oficial. Providenciei-o no dia seguinte, com o aval do Planalto - conta Garnero.
 
EUA davam informações
 
Poucos dias depois, Garnero foi surpreendido com um telefonema do amigo: "O pato que vai ao Brasil é muito mais gordo do que você pensa", disse Schultz. O pato era o presidente Ronald Reagan, que em dezembro traria a Brasília mais de US$ 1 bilhão, avisado pelos bancos da necessidade de ajudar o país.
 
Ernane Galvêas, então ministro da Fazenda, lembra que o governo tinha pouco a oferecer aos credores, e eles temiam ser jogados num buraco.