24 de Setembro, 2014 - 16:00 ( Brasília )

Geopolítica

Análise: alvos, implicações e futuro da ofensiva americana contra o Estado Islâmico

Campanha aérea iniciada nesta semana pode custar 1,5 bilhões de dólares por mês, e procura destruir instalações e suprimentos do EI. Mas além da ofensiva militar é preciso iniciativas econômicas e políticas locais para estabilizar a região


Por Emerson Brooking – Texto do Defense One

Tradução, adaptação, edição e título – Nicholle Murmel

No dia 22 de setembro a ofensiva aérea contra o Estado Islâmico (EI ou ISIS) se espalhou pela Síria em um ataque coordenado que incluiu 47 mísseis Tomahawk e aproximadamente 50 aeronaves da coalizão envolvendo nações do Oriente Médio. Essa ação foi inevitável após a série de voos de reconhecimento sobre o território sírio desde 26 de agosto deste ano. Outro elementos significativo foi o ataque a alvos do grupo Khorasan, afiliado à al Qaeda, mas sem relação com o EI. Ao todo, cinco nações árabes – Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Jordânia e Qatar – participaram das operações iniciais. A essa altura, há três questões a serem consideradas: os alvos dos ataques, as implicações, e os potenciais desafios no futuro dessa empreitada.

Que alvos foram atingidos?

Os alvos principais dos primeiros bombardeios na Síria foram bases de treinamento do ISIS, veículos militares, centros de comando e instalações de abastecimento. Essas estruturas estavam aglutinadas na “capital” do Estado Islâmico, Raqqa. Apesar de o Pentágono ainda não ter completado o levantamento dos danos em combate, representantes afirmam que o relatório inicial sugere alta eficácia da primeira onda de ataques. Estimativas preliminares apontam cerca de 70 baixas nas forças do ISIS, e o número final provavelmente será maior. Cerca de 95% da munição usada contra os extremistas era guiada, o que mostra a preocupação com o perigo estratégico do bombardeio indiscriminado, e o risco de dano colateral. A ofensiva do dia 22 também marcou a estreia do F-22 Raptor em combate.

É importante distinguir ataques a alvos fixos do ISIS da busca por indivíduos relevantes ou perigosos. – o segundo aspecto é o que vem caracterizando a chamada “Guerra ao Terror”. Diferente da maioria das redes terroristas, o Estado Islâmico conseguiu montar um arsenal considerável de equipamento militar convencional, incluindo armamentos de fabricação americana abandonados pelo Exército iraquiano – e os extremistas têm empegado constantemente esses equipamentos. Destruir esses alvos fixos junto com os campos de treinamento, depósitos de munição e suprimentos e outras instalações comprometerá de forma significativa a capacidade do EI conduzir operações militares letais.

Para muitos cidadãos americanos, esta deve ser a primeira vez que ouvem falar do grupo Khorasan, uma célula pequena com cerca de 50 “veteranos experientes da al Qaeda”, que se basearam no meio do caos amplo da guerra civil na Síria a fim de plnajear ataques para além do Oriente Médio. A decisão de incluí-los como alvos no esforço mais abrangente contra o ISIS foi tomada com base em dados de inteligência acerca de um “ataque espetacular iminente” que aconteceria nos Estados Unidos ou na Europa. Oito alvos do Khorasan foram destruídos na primeira onda de bombardeios da coalizão.

Quais são as implicações gerais da ofensiva contra o ISIS?

Em um primeiro momento, o aumento da zona de operação da campanha conta o Estado Islâmico demonstra um entendimento de que o EI há tempos vem distorcendo fronteiras internacionais a seu favor. Conforme dito por um dos parlamentares da Casa Branca ontem (23SET14) em comunicado à imprensa, “estamos lutando contra uma organização que opera sem respeito por froteiras – temos que olhar para a questão dessa forma”.

A condução desses ataques aéreos também mostra uma visão unificada em todo o esforço anti-ISIS. O Pentágono foi cauteloso em não revelar especificamente qual nação foi responsável por que parte da ofensiva, deixando que cada uma comunique oficialmente sobre o assunto. Parceiros regionais devem ser o mais transparentes possível acerca de suas contribuiçõs a fim de derrubar a noção de que se trata de uma ofensiva unicamente dos Estados Unidos. A visibilidade e a participação ativa desses países do Oriente Médio será crítica para reverter a ameaça representada pelo Estado Islâmico.

Dentro dos Estados Unidos há, no momento, apoio popular amplo aos ataques contra o EI, provavelmente resultado do forte impacto causado pelos videos documentando a execução dos jornalistas James Foley e Steven Sotloff. Ao todo, 79% dos americanos consultados entre os dias 12 e 15 de setembro, em pesquisa da emissora CBS News com o jornal New York Times, afirmaram enxergar o ISIS como uma aemaça. 71% dos entrevistados eram favoráveis aos ataques aéreos contra o EI no Iraque, e 69% aprovaram a expansão da ofensiva até a Síria.

Próximos questionamentos

A empreitada contra o Estado Islâmico se expandiu o suficiente para ter efeito considerável no atual debate sobre o FY15 National Defense Authorization Act e a Overseas Contingency Operations Account – os meios pelos quais as operações atuais são financiadas. As operações aéreas contra o EI custaram em média 7,5 milhões de dólares por dia no mês de agosto, mas os acontecimentos recentes sugerem que esse custo vai escalar consideravelmente. Um exemplo é a despesa total dos mísseis Tomahawk – em torno de 1,6 milhões de dólares por dia. Gordon Adams, professor de Política Externa Americana da American University e especialista em orçamento na área de Defesa sugere que o custo da ofensiva contra o ISIS pode chegar a 1,5 bilhões de dólares por mês.

Caso a missão da coalizão contra o EI se expanda mais, será também cada vez mais necessário considerar as leis que autorizaram esse uso da força. Em 22 de setembro, a Casa Branca enviou dois relatórios ao Congresso – um para a ofensiva contra o ISIS  outro para ações contra o Khorasan. As Forças Armadas americanas no momento estão voltadas para o Estado Islâmico amparadas pela Authorization for Use of Military Force (AUMF) de 2001, que avaliza operações contra a rede original da al Qaeda e organizações afiliadas.

E finalmente, é preciso perguntar como a coalizão contra o ISIS vai passar da simples contenção para a destrução real do grupo, seus equipamentos e instalações. Para alcançar esse objetivo mais amplo, é preciso planejar e implementar iniciativas locais de política e economia que acomodem a miríade de interesses e agentes instigadores de conflito.

Essas iniciativas precisam ser conduzidas pelas lideranças da região. Os Estados Unidos pode apoiar e coordenar a luta contra o Estado Islâmico, mas não podem, de forma unilateral ou puramente militar, derrotar grupos terroristas ou trazer estabilidade duradoura para o Oriente Médio.

Emerson Brooking é pesquisador associado em políticas de defesa no Conselho de Relações Exteriores.