COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

15 de Fevereiro, 2014 - 11:40 ( Brasília )

25 anos da retirada soviética do Afeganistão - Soldados, desaparecidos na guerra

Há 25 anos as tropas soviéticas deixaram o Afeganistão. Mas até hoje continua a busca de solados, desaparecidos naquela guerra.

Kira Kalinina

Nikolai Bystrov caiu prisioneiro e chegou a ser guarda-costas do comandante dos mujahids Ahmad Shah Massoud. Agora ele passa vários meses por ano no Afeganistão ajudando um comitê especial a buscar os antigos soldados soviéticos, desaparecidos naquela guerra. Nikolai Bystrov e Yuri Stepanov, que tinha retornado com a ajuda de Nikolai à pátria, relataram à Voz da Rússia as suas historias.

Nikkolai Bystrov nasceu em 1964 no território de Krasnodar. Na idade de 18 anos foi convocado para o serviço militar. Poucos meses depois foi feito prisioneiro no Afeganistão. Tentou fugir mas esta tentativa fracassou. Foi espancado cruelmente mas sobreviveu por um milagre e teve encontro com o comandante dos mujahids Ahmad Shah. Depois da segunda tentativa fracassada de fuga, resignou-se com o destino. Aprendeu a língua, aprendeu a viver entre os afeganes e converteu-se no islã. Dois anos mais tarde, quando se preparava a recuar, Massoud concedeu aos prisioneiros a possibilidade de retornar para a pátria. Mas Bystrov resolveu ficar:

“Massoud reuniu-nos todos, - um total de sete pessoas, - e disse: "Quem quer ir para estrangeiro? Quem quer ir de volta para a União Soviética? Ou para a América, para Inglaterra, Paquistão ou Irão?”. Mas naquela época todos temiam retornar para a pátria. Todos disseram: “Queremos ir para a América”. Mais um disse: “Quero ir para a França”. E somente eu não levantei a mão. Ele perguntou: "E você por que não levanta a mão?" - Respondi: 'Não quero ir a nenhum lugar'”.

Bystrov serviu durante muitos anos na guarda pessoal de Ahmad Shah. Não deixava entrar ninguém, sem revistar antes, no aposento do seu chefe: fossem jornalistas, dignitários ou, inclusive, amigos. Mais tarde casou com uma parenta longínqua do seu chefe. Agora eles têm dois filhos e filha e toda a família vive na Rússia. Bystrov retornou para a sua terra natal apenas onze anos depois.

Agora ele trabalha no Comitê Encarregado dos Assuntos dos Soldados – Internacionalistas e quase todos os anos passa vários meses no Afeganistão. Aí eles procuram os restos mortais dos soldados soviéticos, desaparecidos naquela guerra, e trazem-nos de volta, para a pátria:

“Quero encontrar todos os rapazes. Pois eu voltei vivo. Quero devolver os restos mortais aos pais, para que eles tenham paz espiritual sabendo que o filho voltou, embora não vivo, e pôde ser sepultado. Sei a gente do Afeganistão, conheço a sua mentalidade, os seus hábitos. Vou fazer isso enquanto eles colaboram comigo. Eles sempre falam comigo, não se recusam. Sabe, uma guerra não está terminada enquanto não está enterrado o último soldado. E eu quero pôr fim a esta guerra”.

Estas suas viagens para o Afeganistão ajudaram a trazer de volta para a Rússia também os soldados sobreviventes, que tinham caído prisioneiros mais ou menos no mesmo tempo que Bystrov. Um deles é Yuri Stepanov. Ele passou mais de vinte anos na prisão dos mujahids. Eis a sua recordação do retorno para a pátria:

“Mais tarde, quando obtivemos os passaportes afeganes, chegamos a Cabul e Nikolai explicou-nos, como era a situação na Rússia. Explicou que a Rússia era diferente e que era preciso ajudar o grupo de busca”.

Um quarto do século depois da conclusão da guerra, a busca de soldados desaparecidos continua. Nikolai Bystrov e os que trabalham com ele estão certos: é preciso esclarecer o destino de cada soldado, desaparecido no Afeganistão.

Texto/tradução: Voz da Rússia