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12 de Outubro, 2013 - 15:19 ( Brasília )

Malvinas / Falklands - Em carta, Brasil pediu a Thatcher para não enviar tropas

Presidente Figueiredo alertou para risco de 'confronto armado de proporções graves' na região Documento de 1982, ao qual a Folha teve acesso, foi divulgado pela fundação da ex-premiê britânica

 

LEANDRO COLON
DE LONDRES



Dias antes de as tropas britânicas desembarcarem de forma maciça nas Malvinas, na guerra de 1982 contra a Argentina, o governo brasileiro fez um último apelo direto à então primeira-ministra Margaret Thatcher para evitar o confronto.

É o que revela carta do então presidente João Baptista Figueiredo (1918-1999), enviada à premiê em 12 de maio daquele ano.

O documento, com registro de "caráter pessoal", foi identificado pela Folha no acervo da Fundação Margaret Thatcher, que cuida dos arquivos da "Dama de Ferro".

Segundo a entidade, a carta se tornou disponível este ano, em meio a outros papéis, dias antes de ela morrer, em 8 de abril, vítima de derrame.

Uma lei britânica prevê acesso a documentos de um governo depois de 30 anos.

O apelo de Figueiredo, que alerta para riscos a todo o continente, foi em vão. Nove dias depois, em 21 de maio, forças britânicas chegaram às Malvinas, numa reação à invasão argentina no dia 2 de abril, desencadeando o momento mais grave e sangrento da guerra.

A manchete da Folha do dia seguinte, 22, foi "Ingleses invadem Malvinas". A disputa durou até 14 de junho de 82, deixou mais de 900 mortos e terminou com vitória britânica. Até hoje, a diplomacia entre os dois países não superou a guerra.

No dia em que enviou a carta ao Reino Unido, Figueiredo visitava, em Washington, o presidente dos EUA, Ronald Reagan, aliado de Thatcher. O brasileiro se equilibrava numa tentativa de posição neutra em relação à guerra.

Figueiredo começa a mensagem a Thatcher citando uma carta dela do dia anterior, em que a premiê teria se mostrado disposta a iniciar uma negociação.

Diz o presidente: "Tendo em mente o avanço da atividade militar no Atlântico Sul, o que aumenta os riscos de um confronto armado de proporções graves, quero reiterar a Vossa Excelência a preocupação do meu país, do governo e da opinião pública, que tais riscos podem estragar os esforços diplomáticos que estão sendo feitos pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Sr. Perez de Cuellar".

"Tal ocorrência, como sua Excelência pode imaginar, pode ter repercussões graves e profundas tanto na imagem continental americana, bem como em todo o mundo", continua a carta. E conclui: "Espero, portanto, que as partes em nenhum momento deixem de adotar flexível e construtiva atitude nas presentes negociações nas Nações Unidas".

"RARO"

Mestre em História Comparada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos maiores estudiosos da posição do Brasil durante a guerra, Rafael Macedo Santos destaca a importância do documento, cujo conteúdo desconhecia.

Sabia-se até hoje apenas do teor de uma mensagem enviada um mês antes, 10 de abril, e divulgada na época pelos jornais.

"Sem dúvida, é um documento muito raro por se tratar de uma fonte primária. Figueiredo menciona diretamente os riscos para a segurança interamericana", afirma Macedo Santos.

"Essa carta de 12 de maio é importante porque foi a última tentativa do Brasil de buscar um acordo entre as partes, o que na altura dos acontecimentos, todos sabiam que parecia impossível", ressalta o historiador.

Uma carta de 10 de abril de 82, logo depois de a Argentina invadir as Malvinas, também foi liberada este ano pela fundação de Thatcher.

Nela, Figueiredo é mais discreto. O presidente pede que se encontre uma solução e coloca o Brasil à disposição para "contribuir" no diálogo.

 

SERVIÇ0 NO EXTERIOR


MESSAGE F.ROM THE PRESIDENT OF THE FEDERATIVE REPUBLIC OF BRAZIL, SENHOR JOAO BAPTISTA FIGUEIREDO TO THE RT HON. MRS MARGARET THATCHER, PRIME MINISTER OF THE UNITED KINGDOM OF GREAT BRITAIN AND NORTHERN IRELAND


"I am most grateful to Your Excellency for your kind telegram of yesterday's date, May 11th.

It is encouraging to have a reaffirmation of the endeavour of the British Government to find a negociated solution for the question.

Bearing in mind, however, the growing military activity in the South Atlantic, which increases the risks of an armed confrontation of serious proportions, I wish to reiterate to Your Excellency the concern of my country, its Government and public opinion, that such risks might man the diplomatic efforts now being made by the Secretary General of the United Nations, Mr Perez de Cuellar. Such occurrence, as Your. Excellency can well imagine, could have serious and deep repercussions both in the American Continental picture as well as in the world.

I trust, therefore, that the parties to the question, in no moment should fail to aclipt a flexible and constructive attitude within the present regociations in the United Nations, and I once again reaffirm the wishes of my country for a successful end for such efforts in the shortest possible period of time.

With my highest consideration."

London, May 12th, 1932.
3C4-3342-