COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Tecnologia

21 de Maio, 2014 - 11:30 ( Brasília )

EUA indiciam militares chineses por espionagem industrial; entenda


Os Estados Unidos indiciaram cinco oficiais do Exército chinês de invadirem os sistemas de informática de cinco empresas e um sindicato americanos, supostamente em busca de informações que conferissem vantagens competitivas a estatais chinesas.

Os secretário de Justiça americano, Eric Holder, disse que a espionagem eletrônica teve "dimensões significativas", com o roubo de segredos comerciais e documentos internos, e que ela exigia "uma resposta agressiva".

Segundo Holder, é a primeira vez que é confirmada a participação de agentes estatais chineses neste tipo de caso.

A China negou as acusações, que chamou de "invenções", alertou que elas podem prejudicar as relações entre os dois países e exigiu que sejam retiradas.

No entanto, não é a primeira acusação de espionagem digital contra o Estado chinês.

Em fevereiro, a empresa americana de segurança eletrônica Mandiant já havia alertado haver na China um dos grupos mais ativos do mundo em espionagem industrial, identificado pela sigla APT1.

No seu relatório, a Mandiant destacou que o APT1 tem muito em comum com um braço secreto de espionagem do Exército chinês conhecido como Unidade 61398.

Os cinco chineses acusados pelo governo americano fazem parte da Unidade 61398.

Entenda mais sobre ela:

Onde ela está?

Em seu relatório, a Madiant diz ter investigado centenas de invasões desde 2004 e atribui a maioria delas a grupos que denomina como APT, sigla para "advanced persistent threat" (ameaças avançadas persistentes).

"Estamos convencidos que estes grupos agem a partir da China e que o governo chinês está ciente disso", diz o documento.

O mais ativo destes grupos é conhecido como APT1, que age desde 2006. Ele é "provavelmente patrocinado pelo governo", segundo a Madiant.

"Acreditamos que o APT1 consegue realizar ações de grande alcance e recebe apoio direto do governo."

A empresa rastreou as invasões promovidas pelo grupo e concluiu que elas partiram de um prédio de 12 andares na área de Pudong, em Shangai, área onde também fica localizada a Unidade 61398.

A empresa americana ainda afirmou que a unidade militar e o grupo APT1 demonstram ter o mesmo nível de recursos e capacidade técnica.

Qual seu tamanho?

O grupo de espionagem tem centenas de funcionários ou até mesmo milhares, segundo a Madiant.

Todos falam inglês fluente e são altamente especializados em redes eletrônicas e segurança digital.

"Enquanto nossos empresários inovam e desenvolvem estratégias para competir no mercado global, os membros da Unidade 61398 passam seus dias roubando os frutos do nosso trabalho", acusou John Carlin, diretor da divisão de segurança nacional do Departamento de Justiça americano.

Como atua?

A APT1 já teria invadido os sistemas de 141 empresas de 20 setores industriais, 81% delas baseadas em países de língua inglesa.

O grupo é acusado de roubar centenas de terabytes em informações confidenciais, como e-mails, planos de negócios, tabelas de preços, credenciais eletrônicas e listas de contatos.

A APT1 é capaz de invadir dezenas de redes simultaneamente. Num caso específico, a invasão durou 1.764 dias, em uma empresa de um setor industrial identificado pelo governo chinês como estrategicamente importante para o país em seu plano quinquenal.

Por que é perigosa?

O presidente americano, Barack Obama, classificou os ataques como uma "ameaça real" à segurança e à economia do país.

O impacto das ações dos hackers chineses pode ser verificado, segundo o governo americano, no caso da SolarWorld, fabricante de painéis de energia solar que está entre os alvos dos hackers chineses.

A companhia vem perdendo participação de mercado rapidamente para concorrentes chineses, que vendem produtos por um preço menor.

Outro exemplo é a Westinghouse, do setor de energia. A empresa negociava a construção de uma usina nuclear com uma companhia estatal chinesa quando teria tido documentos com os detalhes roubados pela Unidade 61398.

Segundo Jonathan Marcus, analista diplomático da BBC, a escala dos ataques chineses é "impressionante".

"Até agora, a maioria dos ataques parecia ser uma versão digital da antiga espionagem, com roubo de documentos e segredos, mas este tipo de ação se torna cada vez mais sinistra conforme cresce o interesse dos chineses em ter acesso a partes importantes da infraestrutura americana, como redes de gás, energia e de distribuição de água", diz Marcus.

"Uma vez dentro dos computadores que controlam estas redes, é possível causar danos físicos reais."

O que diz a China?

O país nega veementemente ter feito espionagem industrial.

"Nunca nos envolvemos no roubo de segredos industriais", disse o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Qin Gang

O governo ainda ressalta que sua "posição quanto à segurança da internet é consistente e clara" e que vem tomando medidas para prevenir este tipo de ataque virtual, pois também é vítima deles.

"Somos completamente contrários a esse tipo de invasão eletrônica", afirmou a Chancelaria em fevereiro após a divulgação do relatório da Mandiant.

"Determinar a origem de um ataque é muito difícil. E não sabemos se as evidências deste suposto relatório são confiáveis."

O que acontecerá agora?

A acusação feita pelos EUA é em grande parte simbólica, já que dificilmente os cinco oficiais chineses serão extraditados para serem julgados pela Justiça americana.

"Pela primeira vez, estamos expondo nomes e rostos de quem está atrás dos teclados em Shangai", disse Carlin.

"No passado, o governo chinês nos desafiou publicamente a apresentar provas. É o que estamos fazendo."

Segundo Michael Wessel, da Comissão Econômica e de Segurança China-EUA, o caso "envia uma mensagem clara que os Estados Unidos agirão ativamente para proteger seus interesses e garantir que a China siga as regras".

As invasões já provocaram mudanças na segurança digital americana.

O Pentágono anunciou em março que triplicará sua capacidade de defesa contra ataques virtuais. Por sua vez, a China suspendeu a cooperação com os EUA em um grupo de trabalho de internet.

Segundo Carrie Gracie, editora da BBC China, a reação chinesa não parará por aí: "Uma vez que tenha tido tempo para digerir isso, é provável que a China considere uma retaliação ainda mais grave".