COBERTURA ESPECIAL - Pacífico - Geopolítica

25 de Março, 2022 - 11:00 ( Brasília )

Coreia do Norte dispara míssil intercontinental em teste mais potente desde 2017


A Coreia do Norte disparou nesta quinta-feira (24) um míssil balístico intercontinental (ICBM), afirmaram a Coreia do Sul e o Japão, que expressaram indignação com o teste mais potente de Pyongyang desde 2017.

Na manhã desta sexta-feira, a agência de notícias estatal norte-coreana KCNA confirmou que o disparo de "um novo tipo" de ICBM, chamado Hwasong-17, havia sido ordenado pelo líder norte-coreano, Kim Jong Un, e que o projétil atingiu seu alvo no Mar do Japão. Em Seul, o Exército sul-coreano anunciou que disparou uma série de mísseis por terra, ar e mar como resposta.

O Japão considerou "escandaloso e imperdoável" o lançamento do projétil, que caiu dentro da zona econômica marítima exclusiva do país. A Coreia do Norte executou uma dezena de testes de projéteis desde o início do ano, uma série sem precedentes que desafia as sanções da ONU contra o desenvolvimento de seu programa armamentista e nuclear.

Pyongyang suspendeu oficialmente os testes de longo alcance enquanto o dirigente Kim Jong Un participava em negociações de alto nível com o então presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Mas as conversações fracassaram em 2019 e estão paralisadas desde então. "Foi uma violação da suspensão dos lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais prometida pelo presidente Kim Jong Un à comunidade internacional", destacou o presidente sul-coreano Moon Jae-in em um comunicado. "Isto representa uma grave ameaça à península da Coreia, à região e à comunidade internacional", afirmou, antes de acrescentar que também é uma "clara violação" das resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

A Casa Branca condenou "firmemente" o teste, que "aumenta inutilmente a tensão", e prometeu "tomar as medidas necessárias para garantir a segurança do território americano, da Coreia do Sul e do Japão", disse sua porta-voz, Jen Psaki.

O secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, condenou "com firmeza" o lançamento e pediu que Pyongyang desista "de tomar qualquer outra ação contraproducente", disse seu porta-voz. O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir nesta sexta-feira, indicaram diplomatas à AFP.

O míssil foi lançado nesta quinta-feira antes das 16H00 (4H00 de Brasília) a partir do distrito de Sunan, provavelmente o mesmo local em que aconteceu na semana passada um teste fracassado, e estabeleceu uma parábola de 6.200 quilômetros, indicou o Estado-Maior Conjunto de Seul. De acordo com o vice-ministro da Defesa do Japão, Makoto Oniki, o míssil voou durante 71 minutos e caiu a 150 km ao oeste de sua costa norte, dentro da zona econômica exclusiva nipônica.

A Coreia do Norte está ameaçando "a paz e a segurança do Japão, da região e da comunidade internacional (...) Isto não pode ser aceito", afirmou o primeiro-ministro nipônico, Fumio Kishida. "Isto é um ato escandaloso e imperdoável", acrescentou o chefe de Governo, que está em Bruxelas para um encontro de líderes do G7.

'Momento perfeito'

Apesar das sanções internacionais mais severas, Pyongyang se aferra ao programa de Kim Jong Un para modernizar suas Forças Armadas. Estados Unidos e Coreia do Sul alertaram este mês que Pyongyang estava se preparando para disparar um ICBM e que testou componentes do Hwasong-17 camuflados como satélites espaciais.

A Coreia do Norte já havia disparado três mísseis do tipo, o último deles em novembro de 2017, o Hwasong-15, que foi considerado suficientemente potente para atingor o territorio continental dos Estados Unidos. "Kim Jong Un quer se estabelecer como o líder que desenvolveu com sucesso armas nucleares e o ICBM", declarou à AFP Ahn Chan-il, professor de estudos norte-coreanos.

Os lançamentos acontecem às vésperas do 110º aniversário do nascimento do fundador da Coreia do Norte e avô do atual líder do país, Kim Il Sung.

O regime costuma usar as efemérides para demonstrar sua capacidade militar. Além disso, Pyongyang aproveita a instabilidade internacional provocada pela invasão da Ucrânia, que provocou o aumento da disputa de Washington com Moscou e Pequim, assim como a transição na Coreia do Sul até a posse do presidente eleito Yoon Suk-yeol em maio. "Kim provavelmente sente que é o momento perfeito para desenvolver o ICBM", disse Ahn Chan-il.

Por que a Coreia do Norte segue testando mísseis¹


A Coreia do Norte testou um míssil balístico intercontinental (ICBM, na sigla em inglês) pela primeira vez desde 2017, informaram a Coreia do Sul e o Japão. Autoridades japonesas disseram que o míssil percorreu 1,1 mil km e caiu em águas japonesas depois de voar por mais de uma hora.

Os ICBMs, desenvolvidos para carregar armas nucleares, poderiam fazer com que a Coreia do Norte tenha capacidade de atingir o continente dos EUA. O teste está sendo visto como uma grande escalada por parte da Coreia do Norte e foi condenado por seus vizinhos e pelos EUA.

A Coreia do Norte lançou uma série de testes de mísseis nas últimas semanas. Os EUA e a Coreia do Sul disseram que alguns desses testes, que Pyongyang alegou serem lançamentos de satélites, eram, na verdade, testes de partes de um sistema ICBM.

O míssil de quinta-feira (24/3) parecia ser mais novo e mais poderoso do que o que a Coreia do Norte disparou há cinco anos, atingindo uma altitude de mais de 6 mil km, segundo autoridades japonesas.

Os militares da Coreia do Sul responderam com cinco testes de mísseis próprios, de terra, mar e ar. Os EUA condenaram a Coreia do Norte por uma "violação descarada" das resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

"A porta não se fechou para a diplomacia, mas Pyongyang deve cessar imediatamente suas ações desestabilizadoras", declarou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki.

O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, condenou o que disse ser uma "violação da suspensão dos lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais prometida pelo presidente Kim Jong-un à comunidade internacional".

Um sinal da expansão do alcance nuclear do Norte?

Leif-Eric Easley, professor da Universidade Ewha, em Seul

O regime de Kim Jong-un está determinado não apenas a manter a Coreia do Sul refém de ameaças militares que podem burlar as defesas antimísseis e capacidades de ataque preventivo de Seul, mas também quer expandir seu alcance nuclear sobre o território americano para impedir Washington de sair em defesa de aliados dos EUA.

A Coreia do Norte não está nem perto de iniciar uma agressão na escala da invasão russa à Ucrânia. Mas as ambições de Pyongyang também vão além da autodefesa, já que o país quer reverter a ordem de segurança do pós-guerra na Ásia.

A eficácia das sanções existentes está diminuindo devido à aplicação frouxa de alguns países.

Dada a falta de cooperação da China e da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, os EUA e seus aliados provavelmente vão precisar sancionar mais entidades nesses países e em outros lugares, que estão ajudando os programas de armas da Coreia do Norte.

A expectativa é de que o governo do presidente eleito na Coreia do Sul, Yoon Seok-yeol, aumente os exercícios de defesa com os EUA e a cooperação de segurança com o Japão.

Os EUA e a Coreia do Sul alertaram nas últimas semanas que a Coreia do Norte poderia estar se preparando para testar um ICBM com alcance total pela primeira vez desde 2017.

Em 16 de março, a Coreia do Norte lançou um míssil que pareceu explodir logo após a decolagem sobre Pyongyang, disseram militares sul-coreanos.

A ONU proibiu a Coreia do Norte de realizar testes de armas balísticas e nucleares e impôs sanções severas após testes anteriores.

Em 2017, a Coreia do Norte realizou vários testes de ICBM, sendo que o último envolveu um míssil Hwasong-15, que atingiu uma altitude de 4,5 mil km.

Especialistas estimaram que o Hwasong-15 poderia ter viajado mais de 13 mil km, se tivesse sido disparado em uma trajetória padrão, o que significava que poderia atingir qualquer parte do território continental dos EUA.

Acredita-se que o último lançamento seja o maior teste de ICBM já realizado pela Coreia do Norte — e envolveu um míssil ainda mais potente, possivelmente o novo Hwasong-17, apresentado em 2020, mas não testado até agora.

Em 2018, Kim Jong-un anunciou uma suspensão nos testes de armas nucleares e mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) de longo alcance, após negociações com o então presidente dos EUA, Donald Trump.

Mas em 2020, Kim anunciou que não estava mais preso à declaração de moratória.

O lançamento de quinta-feira acontece logo depois de imagens de satélite terem mostrado, no início deste mês, atividades no centro de testes nucleares de Punggye-ri, alimentando temores de que a Coreia do Norte volte a testar armas nucleares e mísseis de longo alcance.

A instalação, localizada no nordeste do país, foi fechada em 2018 depois que Kim prometeu interromper todos os testes nucleares.

¹com BBC

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