Gen Pinto Silva – O BRASIL está Preparado, hoje, para Empregar o Poder em Defesa dos Interesses Nacionais?




O BRASIL ESTÁ PREPARADO, HOJE, PARA EMPREGAR O PODER EM DEFESA DOS INTERESSES NACIONAIS?

“Cartas imprevisíveis”, isto é, cenários que apesar de altamente improváveis, não podem ser descartados. Assim, sempre é útil reservar pelo menos um pequeno espaço mental para “pensar o impensável”, pois a história está repleta de eventos que começaram como altamente improváveis e depois se tonaram a mais pura realidade.”[1]

Pinto Silva Carlos Alberto [2]

1. O BRASIL NÃO ESTAVA PREPARADO PARA A GUERRA DO PARAGUAI (1864-1870)

Embora o Império do Brasil fosse a maior potência da região em população e economia, antes do início do conflito, o seu exército profissional era pequeno, mal organizado e disperso pelo território. O Governo contava  mais com a Guarda Nacional, um conjunto de tropas criadas para atender o poder político e comandada por “coronéis”, grandes proprietários, em detrimento  do Exército.

Devido à falta de efetivos, o Império teve que criar, às pressas, o corpo dos Voluntários da Pátria para reforçar as tropas, recorrendo, inclusive, ao alistamento de escravizados em troca de alforria.

A Falta de recursos e organização era grande. A logística era precária, faltavam fardamentos e armamentos adequados.

O contraste com o Paraguai, mesmo um pequeno país, também era acentuado. Solano López havia investido na modernização e no aumento do seu exército nos anos anteriores ao conflito. 

2. O QUE O BRASIL ENFRENTA HOJE?

As ameaças globais, na atual conjuntura, estão se alterando velozmente: encaramos a Guerra cibernética; guerra da informação; guerra psicológica e operações clandestinas; influência e interferência em eleições; armas de destruição em massa e sua proliferação; terrorismo, contra inteligência e tecnologias destrutivas; ameaças à competitividade econômica; e crimes transnacionais são apenas alguns dos recursos largamente empregados ou que poderão ser empregados, de modo conjugado, como alternativas não militares, visando a complementar, apoiar, ampliar e, sobretudo, a evitar uma confrontação formal, e a desgastar as forças políticas, econômicas, sociais, informação militar e a infraestrutura de comando e controle de forças opositoras.

O Brasil deveria antecipar-se aos prováveis conflitos do mundo moderno, relacionados à defesa dos seus interesses, por meio de análise de trabalhos publicados e de estudos prospectivos. Em função desses conflitos (tipologia e características) estabelecer e desenvolver as doutrinas e as tecnologias pertinentes.

É preciso criar estratégias de Segurança e Defesa do Estado, justamente porque a nova realidade do conflito moderno não se alinha com as antigas fronteiras de relacionamento de poder existentes entre os países, alterando a mudança de foco do emprego das diversas ferramentas à disposição do poder nacional. É importante entender, discutir e difundir o assunto: “Guerra de Nova Geração” (Rússia) ou “Guerra Híbrida” (EUA e OTAN), ou ‘’Guerra Além dos Limites ou Irrestrita” (China) e “Competição na Zona Cinza” (Vários países)fornecem um modelo de sucesso para as nações imitarem.

“Aos Poderes Constituídos e aos militares, responsáveis pela segurança e defesa interna e externa do país, não cabe achar que não é possível ou dar preferência às suas simpatias, ou se preocupar em evitar desagradar o governo. Cabem-lhes tomar providências para nunca ser surpreendido, para suprir necessidades e apesar de todas as carências, para que a consequência da imprudência não resulte apenas em monumento à bravura dos mortos e derrotados e nas promessas de que algum dia será retomado aquilo que foi subtraído”.

Essa realidade, pelos cenários aqui apresentados, poderá ensejar um redirecionamento do preparo e emprego das Ferramentas à disposição do Poder Nacional.

O centro de gravidade da ação para o Estado agressor estará voltado a desestabilizar governante, desacreditar autoridades, e  criar o caos na sociedade, sucedendo-se a crise política. Uma vez que a crise tenha evoluído suficientemente, as forças militares convencionais podem ser empregadas, o necessário (Judicioso emprego da força militar) para garantir a autoridade do novo status quo.

3. O BRASIL ESTÁ PREPARADO, HOJE, PARA EMPREGAR O PODER EM DEFESA DOS INTERESSES NACIONAIS?

Eis uma pergunta que não se pode responder na postura reativa dos que esperam os acontecimentos e, fatalmente, são ultrapassados pelos fatos.

A responsabilidade perante a nação e a evolução meteórica das situações, conduz a um posicionamento proativo, de antecipação aos problemas, de soluções criativas e, sobretudo exequíveis.

Segundo afirmações à imprensa, do Comandante Supremo e do Ministro da Defesa, há problemas de recursos para o de preparo e emprego das ferramentas a disposição do Poder Nacional, faltando até munição, conforme declaração do presidente  durante o 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, no último dia 23 de janeiro. Até o presente momento não foi apresentada uma solução ou providência para a situação.

4. CONDUTA DOS ESTADOS COM PODER DE COMBATE E CAPACIDADE TECNOLÓGICA INFERIOR

As ações devem se subordinar, claramente, a três premissas:

– Um embate direto contra as forças armadas de alto poder de combate e alta capacidade tecnológica seria extremamente desvantajoso e arriscado e, portanto, deve ser evitado;

– Outros meios, que não as alternativas militares tradicionais, devem ser empregados na consecução dos objetivos nacionais; e

– Dispor de poderio bélico convencional que, embora não seja suficiente para lhes assegurar uma vitória militar definitiva sobre o opositor, permita-lhes manter a estabilidade estratégica[3] ou dissuadi-lo, pelas possíveis perdas decorrentes, do enfrentamento.

Dessa forma, as opções políticas e estratégicas de países emergentes (como o Brasil), com forças armadas poder de combate e capacidade tecnológica assimétricos em relação ao oponente, devem se desenvolver, em linhas gerais, de acordo com a seguinte sequência lógica:

– Obter meios militares que lhe possibilitem criar o temor de causar danos;

– Emprego “agressivo” de meios não militares, apoiados por alternativas militares de efeito não cinético (não letais), sobretudo operações de informação e guerra cibernética;

– Emprego de meios militares para alcançar objetivos estratégicos, sem, contudo, provocar uma forte reação militar do opositor (Estabilidade de Crise)[4]; e

– Eventual emprego de capacidades de antiacesso e negação de área.

5. CONCLUSÃO

A história está repleta de exemplos de países que foram derrotados por deixarem de realizar as necessárias mudanças no tempo devido.

“A vitória sorri àqueles que antecipam o caráter da guerra e não aos que esperam para se adaptar depois que ela ocorre”. (Giulio Douhet (1869-1930) – general italiano, teórico do Poder Aéreo e autor do livro “Domínio do Ar”)

Deve-se tirar ensinamentos (lições apreendidas) de falhas do passado, como ocorreu com o Império na Guerra do Paraguai.


[1] Livro Riqueza Revolucionária – O Significado da Riqueza no Futuro – Alvin e Heidi Toffler- pag 128.

[2] Carlos Alberto Pinto Silva / General de Exército da reserva / Ex-comandante do Comando Militar do Oeste, do Comando Militar do Sul, do Comando de Operações Terrestres, Ex-comandante do 2º BIS e da 17ª Bda Inf Sl, Chefe do EM do CMA, Membro da Academia de Defesa.

[3] Estabilidade Estratégica: É o equilíbrio alcançado entre nações na medida em que cada lado evite realizar gastos em armamento tal que possa causar apreensão no lado oposto e uma consequente e preventiva ação armada.

[4] Estabilidade de Crise: É o reconhecimento pelas nações que nenhuma delas pode tirar vantagem substancial sobre outra numa ação armada limitada.

Nota DefesaNet

O Gen Ex Pinto Silva publicou uma extensa série de relevantes artigos sobre a Arte Militar, que podem ser acessados no link de busca https://www.defesanet.com.br/?s=pinto+silva

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