COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

04 de Agosto, 2021 - 10:20 ( Brasília )

Talebã: Mapas mostram que grupo já retomou metade do Afeganistão após saída dos EUA

O Talebã conquistou mais territórios no Afeganistão nos últimos dois meses do que em qualquer momento desde que o grupo foi retirado do poder, em 2001.

O mapa de controle do Afeganistão tem passado por constantes transformações nos últimos 20 anos. Nas imagens a seguir, observamos as mudanças sobre quem controla quais áreas no país. Nas últimas semanas, o Talebã parece encorajado pela saída progressiva das tropas dos EUA e vem tomando muitos distritos das mãos de forças governamentais.

Investigação do serviço afegão da BBC mostra que militantes radicais muçulmanos agora têm forte presença em todo o país, incluindo províncias do norte, nordeste e centro, como Ghazni e Maidan Wardak. Eles também estão se aproximando de grandes cidades como Kunduz, Herat, Kandahar e Lashkar Gah.



O termo "controle" se refere aos distritos onde o centro administrativo, a sede da polícia e todas as outras instituições governamentais são controladas pelo Talebã. Tropas dos Estados Unidos, de seus aliados na região e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) retiraram o Talebã do poder em novembro de 2001.

À época, o grupo protegia Osama bin Laden e outras lideranças da Al-Qaeda ligadas aos ataques de 11 de setembro de 2001, nos EUA. Apesar da presença internacional contínua na região e de bilhões de dólares em apoio e treinamento às forças do governo afegão, o Talebã se reagrupou e recuperou gradualmente seu poder em áreas mais remotas.

Suas principais áreas de influência ficavam ao redor de pontos tradicionais no sul e no sudoeste: as províncias do norte de Helmand, Kandahar, Uruzgan e Zabul. Além destas, também eram presentes nas colinas Faryab, no norte, e as montanhas Badakhshan, no nordeste.



Uma investigação da BBC em 2017 mostrou que, enquanto tinha controle total de vários distritos, o Talebã também era ativo em diversas outras partes do país, organizando ataques semanais ou mensais em determinadas áreas e sugerindo uma força significativamente maior do que estimativas anteriores.

Em torno de 15 milhões de pessoas, ou metade da população, viviam em áreas controladas pelo Talebã ou onde o Talebã era abertamente presente, lançando ataques regulares contra forças do governo.

O Talebã está ganhando terreno?

Embora os talebãs tenham agora mais controle do que nunca desde 2001, a situação tem mudado.

O governo se viu obrigado a abandonar alguns centros administrativos, onde não conseguiu resistir à pressão do Talebã. Outros territórios foram tomados à força pelos militantes.

Mas, sempre que o governo conseguiu reorganizar suas forças ou reunir milícias locais, conseguiu recuperou parte das áreas que haviam sido perdidas (nos locais não recuperados, ainda há confronto entre os dois lados).

Embora a maioria das tropas americanas tenha partido em junho, um grupo menor permanece em Cabul e a Força Aérea dos EUA realizou ataques aéreos contra posições do Talebã nos últimos dias.

As forças do governo afegão controlam principalmente as cidades e distritos localizados nas planícies ou nos vales dos rios, locais onde também vive a maioria da população.

As áreas onde o Talebã é mais forte são escassamente povoadas, muitas com menos de 50 pessoas por quilômetro quadrado.

O governo diz que enviou reforços a todas as grandes cidades ameaçadas pelo Talebã e impôs toque de recolher noturno de um mês em quase todo o país, em uma tentativa de impedir que o Talebã invada cidades.

Embora pareça estar se aproximando de cidades como Herat e Kandahar, o Talebã ainda não conquistou nenhuma delas.

No entanto, este avanço no terreno fortalece sua posição em negociações e também gera receita na forma de impostos e material de guerra recolhido em combates.

Um número recorde de civis morreu como resultado do conflito no primeiro semestre deste ano.

A ONU atribui a maioria das 1.600 mortes de civis ao Talebã e outros grupos antigovernamentais.

Os confrontos também obrigaram muitas pessoas a abandonarem as suas casas: cerca de 300 mil foram deslocadas desde o início do ano.

A ACNUR, agência da ONU para refugiados, afirma que uma nova onda de deslocamentos internos nas províncias de Badakhshan, Kunduz, Balkh, Baghlan e Takhar ocorre em um momento em que o Talebã conquista grandes áreas em territórios rurais.

Enquanto algumas pessoas fogem para aldeias ou distritos vizinhos e voltam para casa dias depois, outras permanecem deslocadas por algum tempo.

A agência de notícias AFP informou que as ofensivas do Talebã também levaram refugiados afegãos e tropas do governo a cruzarem a fronteira com o Tajiquistão. Acredita-se que o Talebã também controle diversas passagens importantes na fronteira do país, incluindo Spin Boldak, uma importante porta de entrada para o Paquistão.

O Talebã agora cobra taxas alfandegárias sobre as mercadorias que entram no país por meio destas passagens de fronteira controladas, embora os valores exatos não sejam claros, uma vez que o volume do comércio caiu como resultado dos combates.

Como exemplo, a travessia de Islam Qala, na fronteira com o Irã, é capaz de gerar mais de 20 milhões de dólares por mês.

A interrupção do fluxo de importações e exportações tem afetado os preços de bens essenciais nos mercados, principalmente combustíveis e alimentos.

Talibãs reivindicam atentado em Cabul contra o ministro da Defesa¹


Os talibãs reivindicaram nesta quarta-feira o atentado suicida executado na véspera em Cabul contra o ministro da Defesa afegão, no qual morreram oito pessoas, e ameaçaram cometer novos ataques contra altos funcionários do governo.

"Durante a noite (terça-feira) foi executado um atentado suicida contra a residência do ministro da Defesa (...) por um grupo de mujahedines equipados com armas leves e pesadas", afirmou Zabihullah Mujahid, porta-voz dos talibãs, em um comunicado.

Este ataque "é o início das represálias contra (...) os funcionários do governo de Cabul que ordenam ataques e bombardeios em todo o país contra civis", completou.

Este é o primeiro ataque de grande magnitude em Cabul em vários meses reivindicado pelos talibãs. O acordo assinado em fevereiro de 2020 em Doha com o governo dos Estados Unidos, que prevê a retirada de todos os soldados estrangeiros do Afeganistão, deveria impedir - ao menos em tese - ataques dos insurgentes nas grandes cidades afegãs.

Duas grandes explosões foram registradas em Cabul na terça-feira à noite, com duas horas de intervalo. Oito civis morreram e 20 ficaram feridos, segundo um balanço atualizado nesta quarta-feira pelo ministério do Interior.

Um carro-bomba explodiu diante da casa de um deputado, que é vizinho do ministro da Defesa, o general Bismillah Mohammadi, que está são e salvo. Vários criminosos conseguiram entrar na residência do deputado.

As forças de segurança demoraram cinco horas para acabar com a resistência dos criminosos, que foram mortos.

Os talibãs, um grupo islâmico ultraconservador, assumiram o controle da várias zonas rurais desde que as forças estrangeiras anunciaram a retirada do Afeganistão no início de maio, mas encontram mais resistência nas capitais provinciais, que o governo prometeu defender a qualquer custo.

¹com AFP



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