Como as ameaças e as guerras de Trump favorecem o sistema de combate da Força Aérea Brasileira

Produzido no Brasil, sistema de enlace de dados Link BR2 dos aviões da FAB pode se tornar alvo de um acordo G2G com a Índia

Por Marcelo Godoy – Estadão

O comandante da Força Aérea Brasileira, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior estava participando das comemorações do 75.º aniversário da Força Aérea dos EUA, quando o general Charles Q. Brown Jr, então chefe do Estado-Maior da USAF, lhe deu uma notícia surpreendente. O americano revelou que, a partir daquele momento, o Departamento de Estado e ele estavam autorizados pelo governo a oferecer ao Brasil um instrumento fundamental para o combate moderno: o sistema de data link americano, o Link 16.

O link de dados para emprego nas Forças Armadas apareceu com o Network-Centric Warfare, o conceito de guerra centrada em rede, no fim dos anos 1990. Esse sistema serve para conectar sensores, comandantes e tripulações para garantir ações sincronizadas por meio de uma consciência situacional compartilhada, o que aumenta a capacidade de comando, a rapidez das decisões e a eficácia no combate.

Todos os meios usados na guerra precisam trocar entre si informações e dados, tanto do campo de batalha quanto do inimigo. Assim, o sistema de enlace de dados permite que as diversas forças – Marinha, Exército e Aeronáutica – e países, como os da OTAN, possam agir de forma coordenada. E com interoperabilidade.

Em 2022, quando Baptista Junior ouviu a oferta americana, além, dos membros da OTAN, – que usa o sistema Link 16, da USAF – a Suécia, que ainda não havia aderido à organização, utilizava havia dez anos o sistema americano. Ela havia desistido em 2011 de seu data link, que equipava os caças Gripen, escolhido pela FAB para ser a espinha dorsal de sua aviação de caça.

A razão da decisão sueca ter deixado de lado seu sistema, considerado um dos melhores do mundo, foi o fato de ele não conversar com os Link 16, como ficara demonstrado nas operações de guerra na Líbia, quando a Suécia enviou seus Gripen para missões de reconhecimento e de patrulha. Naquela época, não havia problemas entre os integrantes da aliança atlântica. Não se pensava em tomar a Groenlândia ou ofender aliados e fazer guerras sem consultar ninguém.

Mas, se a guerra centrada em rede é um avanço tremendo em qualquer teatro de operações, ela traz um risco: o sistema ser alvo de operações cibernéticas que procuram cegar sua força, daí a importância de sua criptografia. Provavelmente, foi uma ação assim que impediu qualquer reação venezuelana à operação americana que capturou Nicolás Maduro, em janeiro.

Baptista Junior agradeceu a oferta americana, mas a Força Aérea Brasileira decidiu manter o projeto do Link BR2, que deve conversar com outros sistemas da Defesa do Brasil, como o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), projeto estratégico da Força Naval para monitorar os 5,7 milhões de km² das águas brasileiras.

A Marinha tinha um link naval, o chamado Yankee Bravo. Quando chega o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), a Força Aérea começa a operar o Link BR1, entre os aviões E/R-99 e os sitios do Sivam”, contou Baptista Junior. Assim, o Link BR2 era o resultado de anos de desenvolvimento em busca de melhoria das condições de comando e controle na Força Aérea.

Mas, ao receber a proposta americana, Baptista Junior balançou. “Foi o único ponto do meu comando em que eu fiquei muito em dúvida sobre o que eu devia ter feito”, revelou. É que o exemplo sueco ainda era recente. “Eu não sei se eles (os americanos) fizeram isso para quebrar o nosso Link BR2, como eles fizeram com a Suécia, ou se realmente eles estavam abrindo. O fato é que eu levei o caso ao Alto Comando e nós decidimos manter o Link BR2“, contou.

O brigadeiro fora presidente da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC) quando foi feita a concorrência, em 2012, para o Link BR2. Ela havia sido vencida pela Rafael e pela Mectron, do Grupo Odebrecht. Com a falência da Mectron, o contrato foi dividido ao meio e a parte dela foi transferida, durante o comando do brigadeiro Nivaldo Rossato (2015-2019), para a AEL Sistemas.

Os testes finais do novo sistema 2 foram feitos em dois caças F-5. Durante a Operação Atlas, em 2025, na Amazônia, o Link BR2 demonstrou, segundo a FAB, “ter capacidade de integrar os sistemas estratégicos de comando e controle das três Forças Armadas, estabelecendo comunicações seguras entre meios aéreos, navais e de superfície”.

O teste envolveu a Base Aérea de Canoas (BACO), no Rio Grande do Sul, o Centro de Análises de Sistemas Navais da Marinha do Brasil (CASNAV), no Rio, e o Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico, que estava em Belém (PA). A FAB descobriu em seu data link funcionalidades melhores do que as do link 16. O sistema equipará os Gripen que forem produzidos pela Embraer/Saab não só para o Brasil, mas também para outros países, como a Colômbia.

Para tanto, na semana passada, a AEL Sistemas assinou um memorando de entendimento com a Alada, a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S/A, da FAB, com o objetivo de “estabelecer as bases para uma futura cooperação comercial e tecnológica entre as instituições”. O memorando foi anunciado como o primeiro passo para criar condições para a “exportação de tecnologias desenvolvidas no país”.

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