Experiência ucraniana demonstra que drones, sensores térmicos e algoritmos de reconhecimento estão obrigando as forças terrestres a controlar simultaneamente as assinaturas visual, infravermelha, térmica e eletromagnética.
Por Ricardo Fan – DefesaNet
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(RDN) Durante grande parte da história militar, camuflar significava confundir formas, cores e volumes com o terreno. Uniformes, redes, pinturas e vegetação eram empregados para dificultar a observação humana e retardar a identificação do alvo. A disseminação de drones equipados com câmeras térmicas, sensores multiespectrais e sistemas automatizados de reconhecimento alterou esse princípio. No campo de batalha contemporâneo, desaparecer aos olhos do observador já não significa desaparecer do conjunto de sensores que alimenta a cadeia de decisão e de ataque.
A guerra na Ucrânia tornou essa mudança particularmente visível. Aeronaves não tripuladas relativamente baratas passaram a manter áreas extensas sob observação, localizar movimentos, corrigir fogos de artilharia e transmitir coordenadas para drones de ataque ou munições de precisão. A partir desse ambiente, a sobrevivência deixou de depender apenas de encontrar abrigo: passou a exigir o gerenciamento integrado das assinaturas produzidas por pessoas, veículos, posições, equipamentos eletrônicos e instalações logísticas.
O Thermal Signature Poncho, desenvolvido pela empresa ucraniana STG Defence, representa uma das respostas industriais a esse problema. O equipamento busca reduzir a visibilidade do combatente em diferentes faixas do infravermelho. Sua importância, entretanto, não está apenas no desempenho anunciado, mas no conceito que materializa: a camuflagem está deixando de ser um item predominantemente visual para tornar-se um sistema de gerenciamento de assinaturas.
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Do padrão visual à camuflagem multiespectral
A camuflagem convencional atua principalmente sobre a percepção humana e sobre sensores eletro-ópticos no espectro visível. Suas cores procuram reproduzir o ambiente, enquanto formas irregulares e elementos tridimensionais quebram o contorno reconhecível do combatente ou do equipamento.
Os atuais sistemas de vigilância ampliaram o problema. Dispositivos de visão noturna podem trabalhar no infravermelho próximo, conhecido como NIR. Sensores mais sofisticados empregam o infravermelho de ondas curtas, ou SWIR, para observar em condições degradadas e distinguir materiais. Câmeras térmicas operam predominantemente nas faixas MWIR e LWIR, nas quais o contraste entre o calor emitido por uma pessoa e o ambiente pode revelar uma presença mesmo sem iluminação visível.
A assinatura térmica não depende de uma imagem convencional. Um uniforme pode apresentar uma combinação de cores perfeitamente integrada à vegetação e, ainda assim, formar uma silhueta clara em uma câmera infravermelha. O rosto, as mãos, a respiração, o armamento aquecido, os equipamentos eletrônicos e as áreas de contato do corpo com o tecido podem produzir contrastes identificáveis.
Essa vulnerabilidade foi ampliada pela presença de câmeras térmicas em pequenos drones. Sensores antes restritos a plataformas militares mais complexas passaram a ser instalados em sistemas comerciais ou de dupla utilização, reduzindo o custo da vigilância noturna e permitindo que escalões táticos mantenham observação persistente sobre setores do terreno.
O resultado é a progressiva substituição do conceito restrito de camuflagem pelo de gerenciamento de assinaturas. A prioridade já não é apenas impedir que o adversário veja o alvo, mas dificultar sua detecção, classificação, reconhecimento, geolocalização e engajamento.

Capa: Poncho e traje de redução de assinatura térmica da STG Defence nos padrões Olive, Arctic e Pixel.
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O Thermal Signature Poncho como estudo de caso
A STG Defence afirma que seu Thermal Signature Poncho atua nas faixas NIR, SWIR, MWIR e LWIR. De acordo com o fabricante, o material combina baixa emissividade e alta refletividade para reduzir o contraste térmico e misturar a assinatura do usuário com o ambiente.
O produto emprega nylon com partículas de prata e pode receber padrões diferentes para áreas florestadas, desérticas ou cobertas por neve. A fabricante anuncia peso de aproximadamente 880 gramas, baixo nível de ruído durante o movimento, compatibilidade com uniformes e equipamentos já utilizados e resistência de até 20 ciclos de lavagem. Também são oferecidos tratamentos adicionais de repelência à água e resistência ao fogo. Essas informações, contudo, permanecem predominantemente vinculadas à documentação e às demonstrações da própria empresa. STG Defence
O princípio físico é plausível. Ao controlar a emissividade e a refletividade da superfície, o material procura reduzir a energia térmica percebida pelo sensor e fragmentar o contorno humano. O objetivo não é eliminar o calor corporal, o que seria inviável com uma cobertura passiva, mas retardar sua manifestação externa e dificultar o reconhecimento da forma observada.
Informações divulgadas na Ucrânia indicam que o poncho pode reduzir a exposição térmica de uma pessoa a aproximadamente 100 metros em áreas florestadas e até 250 metros em terreno aberto. Segundo a empresa, o desempenho foi avaliado com drones Mavic 3T e o produto passou por testes em instituições e unidades ucranianas. A mesma documentação informa que, após cerca de duas horas de utilização, o material precisa ser retirado temporariamente para recuperar o equilíbrio térmico com o ambiente. Ukrainska Pravda
Esses dados indicam uma capacidade potencialmente útil, especialmente para observadores avançados, equipes de reconhecimento, caçadores, forças de operações especiais e combatentes obrigados a permanecer em posições estáticas. Entretanto, não autorizam concluir que o equipamento torne seu usuário invisível ou assegure proteção uniforme contra todos os sensores.

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Capacidade anunciada e resultado operacional
A distinção entre capacidade anunciada e capacidade operacional é fundamental. Um teste conduzido a determinada distância, com um modelo específico de câmera, sob condições controladas de temperatura, umidade, vento e insolação, não pode ser automaticamente generalizado para todos os cenários.
A eficiência térmica varia conforme a diferença de temperatura entre o corpo e o terreno, a qualidade do sensor, a resolução da lente, a altitude da plataforma e o ângulo de observação. Também depende do tempo de utilização. Como o poncho não elimina a produção de calor, a energia térmica tende a acumular-se sob o material e precisa escapar por aberturas, bordas ou momentos de ventilação.
O próprio ambiente pode produzir efeitos contraditórios. Em noites frias, o corpo humano cria forte contraste com o terreno e favorece a detecção térmica. Em regiões quentes e úmidas, a diferença entre a temperatura corporal e o ambiente pode ser menor, mas a cobertura pode aumentar o desconforto, a desidratação e a carga térmica do combatente. Superfícies refletivas também podem apresentar comportamentos distintos conforme o céu, o solo e a posição do sensor.
Há ainda elementos que permanecem expostos. Rosto, mãos, botas, cano da arma, ópticos, baterias e rádios podem formar pontos detectáveis. O deslocamento da cobertura, a pressão do tecido contra partes do corpo e o movimento da vegetação ao redor podem denunciar uma anomalia mesmo quando a silhueta térmica está parcialmente reduzida.
Por isso, o poncho deve ser compreendido como uma camada de proteção integrada a procedimentos táticos. Sua função é diminuir a probabilidade de detecção e reduzir a qualidade da informação obtida pelo adversário, não oferecer invisibilidade absoluta.
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Algoritmos ampliam a vigilância
A transformação não decorre apenas da quantidade de drones. Algoritmos de visão computacional estão ampliando a capacidade de examinar imagens, localizar anomalias e reconhecer padrões de movimento. Em vez de depender exclusivamente da atenção contínua de um operador, o sistema pode destacar formas, trajetórias ou contrastes que merecem investigação.
Esse processo afeta diretamente a lógica da camuflagem. Os olhos humanos tendem a procurar formas conhecidas, cores incompatíveis e movimentos. O algoritmo pode comparar assinaturas espectrais, bordas, proporções, temperaturas e comportamentos em sucessivos quadros de vídeo. Um combatente parcialmente oculto pode não ser reconhecido como pessoa em uma imagem isolada, mas seu deslocamento entre dois pontos pode produzir uma sequência identificável.
Ao mesmo tempo, os algoritmos também apresentam vulnerabilidades. A quebra do contorno, a sobreposição de materiais, a variação deliberada da assinatura e o uso de alvos falsos podem degradar a classificação automática. Estudo publicado pela Military Review, do Exército dos Estados Unidos, observa que a vegetação e outros materiais podem prejudicar a definição das bordas e reduzir o desempenho dos modelos de detecção, enquanto assinaturas térmicas mascaradas dificultam o reconhecimento automatizado. Military Review
Forma-se, assim, uma competição permanente. Sensores mais precisos estimulam novos materiais de camuflagem; algoritmos de detecção buscam identificar as anomalias produzidas por esses materiais; forças terrestres respondem com dispersão, mobilidade, engodos e novas técnicas de gerenciamento de assinaturas.
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Proteção necessária, mas não decisiva
A favor da camuflagem multiespectral está a necessidade objetiva de reduzir a exposição diante da vigilância aérea persistente. Equipamentos leves e rapidamente aplicáveis podem aumentar a sobrevivência de equipes pequenas, permitir maior permanência em postos de observação e ampliar o tempo disponível para abandonar uma posição após a percepção de um drone.
O Exército dos Estados Unidos já incorporou essa preocupação à experimentação de sua formação de caçadores. Em 2026, o curso de caçadores de Fort Benning informou estar avaliando tecnologias destinadas a reduzir a detecção térmica e eletromagnética, inclusive durante exercícios nos quais drones procuram localizar os alunos. A iniciativa demonstra que o problema não está restrito à indústria ucraniana nem constitui apenas uma reação circunstancial ao conflito no Leste Europeu. U.S. Army
O contraponto está no risco de transformar um recurso parcial em promessa de invisibilidade. Expressões comerciais como “proteção total” contra câmeras térmicas não encontram sustentação operacional quando desconsideram distância, duração, terreno, sensor e exposição das extremidades. A existência de um código de catalogação da OTAN, quando anunciada, também não deve ser confundida com certificação de desempenho em combate. Um NATO Stock Number identifica logisticamente um item, mas não comprova, por si só, sua eficácia diante de todos os sistemas de detecção.
Outro limite é econômico e logístico. Materiais multiespectrais precisam conservar suas propriedades após exposição ao sol, chuva, lama, abrasão e lavagem. Também devem apresentar baixa inflamabilidade, reduzido ruído, resistência mecânica e compatibilidade com equipamentos individuais. Uma solução eficiente em demonstração pode tornar-se pouco confiável depois de semanas de emprego contínuo.
O desafio, portanto, não é escolher entre camuflagem tradicional e tecnologia multiespectral. A sobrevivência depende da combinação entre materiais, disciplina de movimento, conhecimento do terreno, controle de emissões, dispersão, mobilidade e uso de engodos. Nenhum tecido compensa procedimentos inadequados; da mesma forma, a habilidade individual perde eficácia quando o combatente permanece exposto a sensores para os quais não foi treinado.
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Do caçador à força terrestre
A relação com o artigo O caçador na era dos drones: a guerra da Ucrânia exige uma revisão da doutrina brasileira? é direta e complementar.
O artigo anterior examinou a necessidade de incorporar drones, sensores térmicos, disciplina eletromagnética e gerenciamento de assinaturas à formação dos caçadores brasileiros. O Thermal Signature Poncho oferece um exemplo concreto de tecnologia destinada a responder a uma das vulnerabilidades identificadas. Entretanto, a conexão mais importante é doutrinária: a ocultação do caçador não pode permanecer concentrada apenas na camuflagem visual, no emprego da vegetação e na disciplina de movimento no solo.
Uma equipe de caçadores pode executar corretamente a preparação da posição e ainda ser localizada pela emissão térmica dos integrantes, por um rádio, por um telefone celular, pelo aquecimento de um equipamento óptico ou pela movimentação registrada por um drone. A posição também pode ser revelada indiretamente por alterações na vegetação, padrões de acesso, descarte de materiais ou repetição das transmissões.
Nesse contexto, o caçador deixa de ser apenas um especialista em tiro de precisão e ocultação visual. Passa a operar como parte de uma rede que envolve inteligência, drones, guerra eletrônica, sensores, apoio de fogo e sistemas de comando e controle. Sua sobrevivência depende de saber não apenas como observar sem ser visto, mas como atuar sem produzir uma combinação de assinaturas que permita ao adversário fechar a cadeia de ataque.
A mesma lógica estende-se às demais forças terrestres. Postos de comando, baterias de artilharia, radares, sistemas antiaéreos, viaturas, depósitos e estruturas logísticas produzem assinaturas maiores e mais persistentes. Geradores em funcionamento, motores aquecidos, antenas, transmissões digitais e deslocamentos recorrentes podem revelar uma instalação mesmo quando redes convencionais impedem sua observação visual.
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O desafio brasileiro e as condições da Amazônia
A incorporação das lições ucranianas pelo Brasil exige adaptação, não reprodução automática. Os campos abertos, áreas agrícolas e localidades urbanizadas do Leste Europeu não correspondem às condições da Amazônia. A floresta impõe densidade vegetal, umidade elevada, chuva frequente, calor, grandes distâncias e dificuldades de comunicação e manutenção.
A copa das árvores reduz determinadas linhas de observação, mas não elimina a vigilância aérea. Rios, clareiras, pistas, estradas, bases, áreas de garimpo, posições logísticas e faixas de fronteira criam corredores nos quais drones podem identificar movimentos. Sensores térmicos também podem apoiar buscas sob determinadas condições, embora a vegetação, a umidade e a menor diferença térmica entre o corpo e o ambiente afetem o desempenho.
Nesse cenário, um poncho desenvolvido para áreas abertas ou florestas temperadas precisaria ser submetido a avaliações específicas. Respirabilidade, resistência a fungos, degradação pela umidade, comportamento térmico, ruído provocado pelo contato com a vegetação e eficiência nas faixas infravermelhas deveriam ser medidos em diferentes períodos do dia e estações do ano.
O Estágio de Caçador na Amazônia Oriental poderia servir como ambiente de experimentação. Exercícios com drones atuando como força adversária, observação térmica, interferência nos enlaces, navegação degradada e diferentes materiais de camuflagem permitiriam identificar quais soluções funcionam efetivamente na floresta. A prioridade não deveria ser adquirir imediatamente um produto estrangeiro específico, mas definir requisitos operacionais brasileiros e desenvolver métodos verificáveis de avaliação.

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Indústria, autonomia e capacidade real
A demanda por camuflagem multiespectral abre uma frente industrial que envolve engenharia têxtil, nanotecnologia, materiais condutivos, pigmentos, tratamento de superfícies e integração com equipamentos militares. O Brasil dispõe de indústria têxtil, centros de pesquisa e instituições militares capazes de participar desse desenvolvimento, mas a existência de competências isoladas não equivale a uma capacidade pronta.
Seria necessário estabelecer padrões de desempenho para diferentes biomas, criar laboratórios de caracterização espectral e conduzir testes com sensores representativos das ameaças atuais. O material deveria ser avaliado não apenas quando novo, mas depois de abrasão, contaminação, lavagem, exposição solar e uso prolongado.
Também seria inadequado restringir o debate ao poncho individual. Redes para posições e veículos, coberturas para ópticos, tratamentos de uniformes, abrigos térmicos, tintas de baixa assinatura e dissipação controlada de calor fazem parte do mesmo problema. A capacidade industrial relevante será aquela capaz de produzir uma família de soluções sustentáveis, reparáveis e compatíveis com a logística militar.
Quem dominar essa área poderá reduzir a dependência de fornecedores externos e adaptar os produtos aos ambientes nacionais. Quem limitar-se à aquisição pontual corre o risco de incorporar equipamentos sem assegurar reposição, testes independentes, atualização tecnológica e integração doutrinária.

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A sobrevivência como disputa pela informação
A guerra dos sensores não tornou o campo de batalha completamente transparente. Ela elevou o custo de permanecer oculto e reduziu o tempo disponível entre a detecção e o ataque. Nesse ambiente, camuflagem, mobilidade, dispersão, engodos e controle de emissões passam a atuar sobre o mesmo objetivo: impedir que o adversário transforme um sinal incompleto em uma coordenada suficientemente confiável para empregar seus fogos.
O Thermal Signature Poncho demonstra que a resposta pode começar por um equipamento aparentemente simples, mas seu significado é maior do que o produto. Ele evidencia a transformação da proteção individual diante de sensores distribuídos em grande quantidade e conectados a cadeias de ataque cada vez mais rápidas.
Para o Brasil, a consequência doutrinária é clara. A formação do caçador e das demais frações terrestres precisa considerar o espectro completo de detecção, sem abandonar os fundamentos tradicionais e sem importar soluções de maneira acrítica. A vantagem não estará em uma suposta capa de invisibilidade, mas na capacidade de combinar treinamento, tecnologia, indústria e conhecimento do terreno para administrar continuamente aquilo que a força revela ao adversário.
No campo de batalha saturado por sensores, ocultar-se deixou de ser uma condição visual. Tornou-se uma disputa permanente pela qualidade da informação: sobreviverá por mais tempo não quem simplesmente desaparecer da vista, mas quem conseguir interromper, confundir ou retardar a cadeia que transforma uma assinatura em alvo.
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