Marinha dos EUA reorganiza aquisições para acelerar a guerra naval autônoma

A criação de um comando direto para sistemas robóticos e de um consórcio de contratação rápida procura unir requisitos operacionais, empresas tecnológicas e produção em escala, mas integração, financiamento e sobrevivência em combate continuam sendo os testes decisivos.

Por Ricardo Fan – DefesaNet

(FYI) O Departamento da Marinha dos Estados Unidos iniciou uma reorganização destinada a reduzir a distância entre inovação tecnológica, contratação pública e emprego operacional de sistemas robóticos e autônomos. Em dois anúncios realizados em agosto de 2026, a instituição criou uma estrutura com autoridade direta sobre esse portfólio e estabeleceu um consórcio voltado à aquisição acelerada de tecnologias avançadas, incluindo soluções comerciais e produtos desenvolvidos por empresas que tradicionalmente permaneciam fora da base industrial de defesa.

A primeira medida foi a criação do Direct Reporting Portfolio Manager for Robotic and Autonomous Systems — DRPM RAS, responsável por integrar requisitos, desenvolvimento, recursos e aquisição de sistemas autônomos em todo o Departamento da Marinha, que abrange a US Navy e o US Marine Corps. A segunda foi o estabelecimento do — NSPPC, mecanismo destinado a aproximar as forças navais de empresas tecnológicas e acelerar pesquisa, prototipagem e produção por meio de instrumentos contratuais flexíveis.

Consideradas em conjunto, as iniciativas indicam que Washington não pretende tratar a autonomia apenas como uma categoria adicional de equipamentos. A intenção é reorganizar o próprio processo pelo qual uma necessidade operacional é identificada, convertida em requisito, financiada, contratada, testada e incorporada à força. O objetivo estratégico é transformar uma sucessão de demonstrações experimentais em capacidade militar disponível, integrada e reproduzível em escala.

Uma resposta à fragmentação institucional

Ao anunciar o DRPM RAS, o Departamento da Marinha reconheceu que seus programas de sistemas robóticos e autônomos foram prejudicados por anos de requisitos fragmentados, responsabilidades dispersas e práticas de aquisição que dificultaram tanto a tomada de decisões quanto a interlocução com a indústria.

O novo gerente de portfólio terá uma linha direta de responsabilidade e funcionará simultaneamente com uma autoridade executiva de aquisição. Christopher Miller foi designado para exercer interinamente as duas funções, reportando-se diretamente a William Toti, então responsável pelas atribuições de subsecretário da Marinha. A concentração procura eliminar uma das principais causas de atraso nos programas militares: a separação entre quem define a necessidade operacional, quem controla os recursos e quem administra a contratação.

O modelo segue a estrutura adotada para submarinos, considerada pelo Departamento da Marinha uma referência de integração entre requisitos, construção, sustentação e responsabilidade executiva. A analogia, entretanto, deve ser interpretada com cuidado. Um submarino nuclear é desenvolvido dentro de um programa industrial centralizado, de longa duração e com número limitado de grandes fornecedores. O universo dos sistemas autônomos envolve outra dinâmica: ciclos tecnológicos mais curtos, software permanentemente atualizado, grande variedade de plataformas e participação crescente de empresas comerciais.

O DRPM RAS deverá, portanto, administrar uma carteira muito mais heterogênea, que pode incluir veículos aéreos não tripulados, embarcações de superfície autônomas, veículos submarinos, sensores distribuídos, sistemas de comando e controle, inteligência artificial, ferramentas de planejamento de missão e capacidades de defesa contra drones.

A criação do órgão também não constitui um ato isolado. O Plano de Construção Naval dos Estados Unidos de maio de 2026 registra que o primeiro Portfolio Acquisition Executive dedicado a sistemas robóticos e autônomos havia sido estabelecido em dezembro de 2025. O DRPM RAS aprofunda essa reorganização ao combinar autoridade administrativa, responsabilidade operacional e poder de aquisição dentro de uma estrutura de reporte direto.

O consórcio como ponte para a indústria tecnológica

Se o DRPM RAS procura organizar a demanda dentro da Marinha, o National Security Plug and Play Consortium pretende ampliar e acelerar a oferta de soluções. Vinculado ao Department of the Navy Rapid Capabilities Office, o consórcio será administrado pela Creative Defense Foundation e funcionará como interface entre o governo, empresas de tecnologia, fornecedores não tradicionais e integrantes da base industrial de defesa.

Segundo o comunicado oficial de 11 de agosto, o NSPPC utilizará diferentes modalidades de Other Transaction Agreements — OTAs, instrumentos que permitem conduzir pesquisa, prototipagem e determinadas etapas de produção com maior flexibilidade do que o processo convencional de aquisição federal.

A estrutura poderá utilizar desafios com premiação, chamadas para soluções comerciais, eventos de experimentação e jogos de guerra. A prioridade declarada será encontrar tecnologias capazes de funcionar com sistemas já existentes, evitando que cada inovação dependa da criação de uma arquitetura inteiramente nova.

O Rapid Capabilities Office da Marinha, estabelecido em agosto de 2025, trabalha com um horizonte de entrega de até três anos. Essa orientação é relevante porque sistemas de inteligência artificial, comunicações, sensores e drones evoluem em ciclos incompatíveis com programas militares que atravessam uma década entre a formulação inicial e a entrada em serviço.

O consórcio procura reduzir essa incompatibilidade. Uma empresa poderá apresentar um produto já desenvolvido, adaptá-lo às necessidades navais, testá-lo com operadores e, em caso de sucesso, avançar para contratação sem percorrer integralmente o caminho reservado aos grandes programas tradicionais.

“Plug and play” não significa integração automática

A expressão plug and play transmite a ideia de uma solução que pode ser conectada e utilizada imediatamente. No ambiente naval de combate, entretanto, essa simplicidade é mais um objetivo arquitetônico do que uma condição já alcançada.

Para ser incorporado a um navio, submarino, aeronave ou unidade expedicionária, um sistema comercial precisa operar em redes protegidas, utilizar protocolos compatíveis, resistir a ataques cibernéticos, suportar interferência eletromagnética e funcionar com comunicações degradadas ou interrompidas. Também deve ser integrado aos sistemas de missão e, dependendo de sua função, aos processos de identificação, designação de alvos e autorização de emprego de armamento.

Há ainda exigências físicas. Equipamentos embarcados precisam suportar salinidade, vibração, variações de temperatura, choque mecânico, limitações energéticas e períodos prolongados sem manutenção. Um protótipo eficiente em ambiente controlado pode revelar limitações consideráveis durante uma operação naval prolongada.

A autonomia também não elimina a dependência de infraestrutura. Ela exige redes de dados, armazenamento, atualizações de software, ferramentas de simulação, centros de controle, segurança digital, pessoal qualificado e uma cadeia logística capaz de substituir componentes em ritmo elevado.

Por essa razão, a capacidade anunciada precisa ser separada da capacidade real. O anúncio estabelece autoridades e mecanismos contratuais; não comprova que os sistemas estejam integrados à frota, disponíveis em quantidade ou prontos para sobreviver contra um adversário tecnologicamente capaz.

Da plataforma autônoma à força naval distribuída

A reorganização adquire maior importância quando inserida na transformação doutrinária da US Navy. A autonomia é tratada cada vez menos como substituta direta de navios tripulados e cada vez mais como elemento de uma força distribuída, formada por plataformas tripuladas e não tripuladas conectadas por redes de sensores, comunicações e comando.

Nesse modelo, sistemas autônomos podem ampliar a área observada pela frota, aproximar sensores de zonas ameaçadas e distribuir funções que hoje permanecem concentradas em plataformas caras. Veículos de superfície e submarinos não tripulados podem apoiar vigilância, guerra antissubmarino, reconhecimento, guerra de minas, logística e lançamento de cargas úteis. Sistemas aéreos podem estender o alcance de sensores e armas, além de oferecer alternativas de menor custo para missões de risco elevado.

A orientação de combate apresentada pela chefia de operações navais em fevereiro de 2026 introduziu o conceito de níveis delegados de autonomia. A proposta é definir o que cada unidade poderá executar de forma independente, considerando sua percepção do ambiente, capacidade de processar informações e autorização para produzir efeitos.

Essa doutrina responde a uma realidade operacional: em um conflito de alta intensidade, redes de comunicação poderão ser interrompidas por guerra eletrônica, ataques cibernéticos ou destruição física de satélites e retransmissores. Uma força excessivamente dependente de controle remoto centralizado perde eficiência quando a conectividade desaparece. Sistemas capazes de continuar a missão dentro de parâmetros previamente definidos tornam-se, portanto, instrumentos de resiliência e não apenas de automação.

A questão mais sensível surge quando a autonomia se aproxima do emprego de força letal. O desafio deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver regras de engajamento, identificação positiva de alvos, supervisão humana e distribuição de responsabilidade. Quanto maior o grau de independência concedido ao sistema, maior será a necessidade de estabelecer limites verificáveis e mecanismos que permitam interromper ou revisar seu comportamento.

China, escala industrial e pressão do tempo

A reorganização também deve ser interpretada no contexto da competição militar com a China. O desafio norte-americano não está restrito à qualidade individual das plataformas. Ele envolve quantidade, reposição de perdas, velocidade de produção e capacidade de operar em extensas áreas do Indo-Pacífico.

Navios tripulados de grande porte oferecem elevada capacidade de combate, mas apresentam custos crescentes, longos ciclos de construção e concentração de poder militar em um número limitado de unidades. Sistemas não tripulados menores e potencialmente descartáveis podem complementar essas plataformas, aumentar o número de sensores e vetores disponíveis e impor ao adversário um problema mais complexo de detecção e neutralização.

Essa lógica não representa o abandono de porta-aviões, submarinos nucleares ou grandes combatentes de superfície. Ela procura criar uma camada adicional de massa operacional. O sistema autônomo de menor custo pode realizar reconhecimento avançado, transmitir dados, carregar sensores, atuar como nó de comunicações ou obrigar o adversário a consumir munição de maior valor.

O fator industrial é decisivo. Os Estados Unidos mantêm liderança em áreas como software, inteligência artificial, sensores e capital de risco, mas enfrentam dificuldades na construção naval e na produção de determinados componentes em grande volume. A China combina uma extensa base comercial de drones, capacidade de fabricação eletrônica e o maior setor de construção naval do mundo. O NSPPC representa uma tentativa de mobilizar mais rapidamente a inovação comercial norte-americana para compensar parte dessa diferença de escala.

A política de “domínio dos drones” adotada pelo Departamento de Defesa em 2025 já havia determinado a ampliação das compras, a redução de barreiras administrativas e a aproximação entre fabricantes e unidades militares. As novas estruturas da Marinha transportam esse princípio para uma arquitetura institucional permanente.

Velocidade contratual versus prontidão operacional

A principal vantagem do novo modelo é a existência de uma autoridade claramente identificável. Quando diferentes comandos elaboram requisitos próprios, financiam projetos semelhantes e negociam separadamente com fornecedores, a fragmentação produz duplicidade, incompatibilidade e dispersão de recursos. O DRPM RAS pode racionalizar prioridades e impedir que soluções concorrentes avancem sem uma arquitetura comum.

O NSPPC, por sua vez, pode reduzir as barreiras enfrentadas por empresas que possuem tecnologias relevantes, mas não dominam a complexidade regulatória do mercado militar. Os OTAs podem acelerar protótipos, ampliar a competição e permitir que a Marinha experimente soluções antes de assumir compromissos financeiros de longo prazo.

O contraponto é que acelerar a contratação não significa acelerar, na mesma proporção, a incorporação operacional. O Departamento de Defesa possui diferentes organizações de inovação e diversos mecanismos de aquisição rápida. O problema recorrente não é apenas selecionar um protótipo, mas convertê-lo em programa financiado, integrar o produto às redes militares, contratar produção e estabelecer sustentação ao longo de seu ciclo de vida.

Uma avaliação do Government Accountability Office sobre a Defense Innovation Unit apontou a necessidade de melhorar a avaliação de desempenho e a coordenação entre as organizações responsáveis pela adoção de tecnologias comerciais. O alerta se aplica ao novo consórcio: acrescentar outro canal de inovação pode acelerar resultados, mas também pode ampliar a sobreposição institucional caso responsabilidades e indicadores não sejam definidos com precisão.

O histórico orçamentário também exige cautela. Em relatório divulgado em março de 2025, o GAO registrou que a Marinha havia planejado investir US$ 4,3 bilhões em cinco anos para adquirir 21 sistemas marítimos robóticos autônomos, sem contabilizar integralmente os custos de operação, sustentação e infraestrutura digital. A omissão poderia produzir estimativas irreais de acessibilidade financeira e comprometer decisões sobre a composição futura da força.

Esse é um ponto central. Sistemas não tripulados podem reduzir exposição de pessoal e, em determinadas missões, diminuir o custo da plataforma. Mas não são necessariamente baratos quando considerados software, conectividade, segurança cibernética, estações de controle, treinamento, manutenção, atualizações e estoques de reposição.

Também permanece o risco do chamado “vale da morte” da inovação: o protótipo demonstra bom desempenho, recebe atenção institucional, mas não encontra uma linha orçamentária capaz de financiar sua produção. O DRPM RAS somente terá relevância operacional se possuir autoridade para definir prioridades e deslocar recursos, evitando que programas maduros permaneçam indefinidamente na experimentação.

Capacidade industrial e novos fornecedores

O acesso a fornecedores não tradicionais pode modificar parcialmente a base industrial naval norte-americana. Empresas especializadas em inteligência artificial, robótica, visão computacional, comunicações, propulsão elétrica e fabricação avançada poderão ingressar em programas antes dominados por grandes contratadas.

Essa abertura pode aumentar a competição e reduzir o tempo necessário para incorporar tecnologias desenvolvidas no mercado civil. Também pode estimular arquiteturas modulares, nas quais sensores, software e cargas úteis sejam substituídos sem reconstruir toda a plataforma.

Entretanto, produzir dezenas de protótipos não equivale a fabricar milhares de unidades. Startups podem oferecer inovação, mas nem sempre possuem capital, instalações, fornecedores ou pessoal para sustentar produção militar contínua. Caso um produto seja selecionado, a Marinha terá de decidir se apoiará a expansão da empresa, se recorrerá a grandes integradores ou se exigirá transferência e licenciamento da tecnologia.

Propriedade intelectual será outra área sensível. A Marinha precisa evitar dependência permanente de um único fornecedor, especialmente em software e sistemas de comando. As empresas, por outro lado, procuram preservar códigos, algoritmos e soluções que constituem seu principal valor comercial. Sem regras equilibradas, o governo pode substituir a dependência dos grandes contratantes tradicionais por uma nova forma de aprisionamento tecnológico.

O papel da Creative Defense Foundation também deverá ser acompanhado. O comunicado oficial ainda não detalha critérios de participação, custos de adesão, governança do consórcio, acesso de pequenas empresas, regras de seleção nem tratamento da propriedade intelectual. A credibilidade do NSPPC dependerá de competição efetiva, transparência suficiente e capacidade de demonstrar que o mecanismo produz contratos e sistemas operacionais, e não apenas encontros entre governo, investidores e indústria.

Implicações militares, tecnológicas e políticas

No plano militar, a reorganização pode acelerar a formação de uma força naval híbrida, na qual unidades tripuladas exerçam comando e concentrem capacidades de maior valor, enquanto sistemas autônomos ampliem sensores, comunicações, logística e poder de ataque. Essa distribuição poderá aumentar a resiliência da frota e reduzir o impacto da perda de uma plataforma individual.

No plano tecnológico, a exigência de compatibilidade tende a favorecer padrões abertos, interfaces modulares e separação entre plataforma, software e carga útil. Esse modelo permite atualizar sensores e algoritmos com maior frequência, mas amplia a superfície de ataque digital. Cada conexão adicional representa também uma possível vulnerabilidade.

No plano econômico, fornecedores comerciais e empresas de menor porte ganham novas oportunidades, enquanto contratadas tradicionais poderão perder parte do controle sobre arquiteturas fechadas. Ao mesmo tempo, essas grandes empresas continuarão necessárias para integrar sistemas, certificar equipamentos e produzir componentes complexos.

Politicamente, a iniciativa oferece ao Departamento da Marinha um argumento de resposta às críticas sobre atrasos, custos crescentes e baixa velocidade de inovação. Contudo, quanto mais flexíveis forem os mecanismos de contratação, maior será a pressão por supervisão, métricas de desempenho e controle dos recursos públicos.

No plano estratégico, os Estados Unidos procuram demonstrar que sua vantagem não dependerá apenas da quantidade de navios construídos. A aposta está na capacidade de combinar plataformas existentes com sensores distribuídos, inteligência artificial e sistemas autônomos produzidos em ciclos mais curtos. Essa abordagem pode compensar parcialmente desvantagens industriais, mas não substitui estaleiros, estoques de munição, manutenção e capacidade logística.

O teste será a passagem do protótipo para a guerra

A criação do DRPM RAS e do National Security Plug and Play Consortium representa uma mudança institucional relevante. Pela primeira vez, o Departamento da Marinha procura alinhar, dentro de uma mesma estratégia, a autoridade sobre o portfólio autônomo e um canal específico para acessar rapidamente tecnologias comerciais.

A iniciativa favorece o governo ao concentrar responsabilidades, beneficia empresas que antes encontravam barreiras para entrar no mercado militar e pressiona os grandes fornecedores a trabalhar com arquiteturas mais abertas. Seu êxito, porém, dependerá menos da quantidade de contratos celebrados do que da capacidade de transformar projetos em sistemas interoperáveis, financiados e disponíveis para unidades operacionais.

O indicador decisivo não será o número de desafios tecnológicos, eventos industriais ou protótipos apresentados. Será o intervalo entre a identificação de uma necessidade e a entrega de uma capacidade que sobreviva à guerra eletrônica, continue operando com comunicações degradadas, possa ser produzida em quantidade e tenha sustentação assegurada.

A Marinha dos Estados Unidos está reorganizando quem define, quem contrata e quem fornece seus sistemas autônomos. O movimento responde à velocidade da competição tecnológica e à escala industrial chinesa, mas não elimina as restrições que historicamente atrasaram a modernização naval. Se as novas estruturas não vierem acompanhadas de financiamento estável, padrões comuns e produção continuada, a autonomia permanecerá concentrada em demonstrações. Se conseguirem superar essa transição, poderão alterar não apenas o processo de aquisição, mas a própria composição e a forma de combate da futura força naval norte-americana.

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