Brasil e França: construção e venda de submarinos na América do Sul

Luciano Veneu
Boletim Geocorrente 230


A parceria estratégica entre Brasil e França, no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), tem permitido ao Brasil desenvolver sua Base Industrial de Defesa (BID), destacando-se como o
único país sul-americano com capacidade de construir submarinos. Em junho, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou que os submarinos da classe “Scorpène” que a França pretende vender à Argentina poderão ser construídos no Brasil. Sendo assim, quais são as possibilidades e consequências para a BID brasileira se for logrado esse acordo?

Ainda não há certeza, mas a possibilidade de submarinos destinados à Argentina serem construídos em território brasileiro representa um desdobramento estratégico do PROSUB, evidenciando o amadurecimento da BID nacional. Sob a perspectiva econômica, a construção dessas embarcações contribuiria para a manutenção da capacidade produtiva do complexo naval de Itaguaí, reduzindo períodos de ociosidade entre contratos destinados à Marinha do Brasil.

Além disso, a continuidade das atividades industriais favoreceria a preservação de empregos altamente qualificados, a retenção de conhecimento técnico e o fortalecimento da cadeia nacional de fornecedores — composta por empresas responsáveis pelo desenvolvimento de componentes, sistemas eletrônicos, estruturas metálicas e serviços especializados. Logo, o contrato teria potencial de ampliar os efeitos de transbordamento tecnológico (efeito spillover) para outros setores da economia, estimulando inovação e desenvolvimento industrial.

No campo estratégico, a fabricação de submarinos para um terceiro país consolidaria a credibilidade
internacional da indústria brasileira de Defesa, demonstrando que a infraestrutura construída a partir do PROSUB atingiu padrões de qualidade compatíveis com as exigências do mercado externo. Esse cenário também poderia abrir oportunidades para exportações de produtos e serviços relacionados ao setor naval, fortalecendo a inserção internacional da BID e reduzindo sua dependência exclusiva das encomendas governamentais domésticas.

Portanto, a eventual construção de submarinos para a Argentina em estaleiros brasileiros representaria uma oportunidade estratégica para consolidar os avanços alcançados pela BID por meio do PROSUB. Além de fortalecer a capacidade produtiva nacional, preservar empregos especializados e estimular a inovação
tecnológica, o acordo poderá projetar o Brasil como um relevante fornecedor regional de produtos de Defesa
de alta complexidade. Essa parceria simbolizaria um marco na afirmação da autonomia tecnológica e da
competitividade internacional da BID brasileira, reforçando o protagonismo do país no setor de Defesa
na América do Sul.

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