A crise da vocação militar: o problema não é apenas o salário, mas a perda do ethos guerreiro das Forças Armadas
Nelson During
Editor Chefe DefesaNet
Sempre que se discute a dificuldade crescente das Forças Armadas em atrair e reter jovens talentos, a primeira explicação costuma ser a defasagem salarial. Sem dúvida, a remuneração perdeu competitividade ao longo dos anos. Entretanto, reduzir a crise de pessoal apenas à questão financeira significa ignorar um problema muito mais profundo: a erosão do ethos militar.
A carreira das armas nunca competiu com a iniciativa privada apenas pelo salário. Pelo contrário. Ao longo da história, homens e mulheres ingressaram nas academias militares porque acreditavam em uma missão, em um propósito e em um modo de vida que transcendia uma profissão comum. Ser militar sempre significou aceitar sacrifícios em nome da defesa da Pátria, viver sob disciplina permanente, colocar o dever acima do interesse individual e dedicar-se continuamente à preparação para a guerra.
Mesmo hoje, a carreira militar continua oferecendo benefícios que muitos empregos civis não proporcionam. A possibilidade de uma aposentadoria mais precoce permite que muitos militares iniciem uma segunda carreira ainda em plena capacidade profissional. A estabilidade, a formação técnica e a experiência de liderança também representam vantagens importantes.
Se esses benefícios continuam existindo, por que o interesse pela carreira diminui?
A resposta está na perda daquilo que sempre diferenciou a profissão militar de qualquer outra: sua identidade operacional.
A vocação militar nasce do desejo de comandar tropas, operar equipamentos sofisticados, voar aeronaves modernas, navegar em navios de guerra, conduzir blindados de última geração e preparar-se diariamente para enfrentar os cenários mais complexos de combate. É justamente essa dimensão que vem desaparecendo.
Grande parte das atividades das Forças Armadas brasileiras passou a concentrar-se em operações subsidiárias: apoio à segurança pública, garantia da lei e da ordem, fiscalização ambiental, apoio logístico, distribuição de vacinas, combate a incêndios e inúmeras missões administrativas. Embora todas tenham sua importância para o Estado brasileiro, elas não representam a essência da profissão militar.
Nenhum jovem ingressa na Academia Militar, na Escola Naval ou na Academia da Força Aérea sonhando em passar décadas realizando tarefas burocráticas ou desempenhando funções semelhantes às de outros órgãos públicos.
Outro fator que desestimula a permanência é o reduzido tempo de vida operacional.
Na prática, a fase em que muitos oficiais realmente exercem a atividade para a qual foram preparados termina ainda nos postos intermediários, frequentemente ao redor do posto de capitão. A partir daí, cresce rapidamente a carga administrativa. Os pilotos passam a comandar mesas em vez de aeronaves. Os comandantes de blindados tornam-se gestores de processos. Oficiais altamente preparados passam boa parte da carreira produzindo relatórios, participando de reuniões e administrando burocracias.
A guerra deixa de ser o centro da profissão.
Ao mesmo tempo, a falta de modernização compromete ainda mais a motivação.
É difícil despertar entusiasmo quando boa parte dos equipamentos possui décadas de serviço. Aviões, navios e blindados envelhecidos reduzem as oportunidades de aprendizado tecnológico e afastam justamente aqueles jovens fascinados por inovação, engenharia e operações militares de alta complexidade. Em muitos casos, determinados sistemas em serviço já são mais antigos que os próprios oficiais-generais que hoje comandam as Forças.
Também pesa a limitada participação brasileira em operações militares internacionais. Enquanto militares de diversos países acumulam experiência em missões multinacionais, interoperabilidade e operações reais ao lado de aliados, o militar brasileiro possui poucas oportunidades de atuar em cenários que ampliem sua experiência profissional e reforcem o sentimento de pertencimento a uma comunidade militar internacional.
O resultado é uma carreira que, para muitos jovens, parece oferecer cada vez menos aventura, tecnologia, desafios operacionais e perspectivas de crescimento profissional.
É importante compreender que as Forças Armadas não precisam atrair qualquer candidato. Elas precisam atrair pessoas movidas pela vocação militar.
A instituição não necessita formar burocratas nem servidores públicos uniformizados. Precisa formar guerreiros profissionais, preparados técnica, física e psicologicamente para defender o país nas circunstâncias mais extremas.
Ser militar é uma escolha de vida. É aceitar que a preparação para a guerra deve ocorrer diariamente, e não apenas quando uma crise surge. Países que compreendem essa realidade mantêm elevados níveis de treinamento, investem continuamente em novos equipamentos, preservam uma cultura operacional forte e valorizam a experiência de comando.
No Brasil, entretanto, a expansão da burocracia vem deslocando a essência da profissão militar. Cada novo procedimento administrativo, cada nova obrigação cartorial e cada nova atividade alheia ao preparo para o combate afasta as Forças Armadas de sua finalidade constitucional.
Reverter essa tendência exige mais do que reajustes salariais.
Exige devolver ao militar a possibilidade de exercer plenamente sua profissão. Isso significa investir em programas consistentes de modernização, ampliar o treinamento operacional, preservar o comando de tropas por mais tempo na carreira, aumentar a participação em exercícios e missões internacionais e reduzir o excesso de burocracia que hoje consome parcela significativa do tempo dos quadros permanentes.
Modernizar equipamentos não é apenas aumentar o poder de combate. É também investir no capital humano. Jovens vocacionados desejam servir em instituições modernas, tecnologicamente avançadas e voltadas para sua missão principal.
Enquanto os quartéis continuarem se aproximando do funcionamento de uma repartição pública, será cada vez mais difícil convencer os melhores talentos a vestir uma farda.
A verdadeira solução para a crise de pessoal não está apenas na folha de pagamento. Está na recuperação do ethos militar — da identidade, da vocação e da cultura operacional que fizeram da carreira das armas uma das profissões mais respeitadas do Estado brasileiro.
Porque a defesa nacional nunca será construída por servidores públicos de uniforme. Ela depende de homens e mulheres que enxerguem na profissão militar uma vocação permanente, um compromisso de vida e uma preparação constante para a missão mais nobre de todas: estar prontos para defender o Brasil quando a guerra, enfim, deixar de ser apenas uma hipótese.





















