Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
Um vídeo divulgado recentemente pela Força Aérea Brasileira chamou a atenção dos entusiastas da aviação militar. Nas imagens, um caça-bombardeiro A-1M AMX dispara seus dois canhões DEFA 554 de 30 mm contra um alvo estático durante uma missão de treinamento de ataque ao solo. O vídeo impressiona pela precisão dos disparos e pela demonstração de que, apesar da idade da plataforma, o AMX continua sendo um vetor extremamente eficaz para missões de ataque tático.
Mas as imagens também despertam uma reflexão inevitável. Cada vez que um A-1M decola, fica evidente a situação paradoxal vivida pela aviação de combate brasileira: a Força Aérea Brasileira investiu recursos significativos para criar uma das versões mais avançadas do AMX já produzidas, mas hoje opera apenas um número reduzido dessas aeronaves, tornando cada voo uma demonstração de capacidade e, ao mesmo tempo, um lembrete de uma oportunidade desperdiçada.
O programa de modernização do AMX foi um dos mais ambiciosos já conduzidos pela FAB. Concebido para garantir mais duas décadas de vida operacional à frota, previa originalmente a modernização de 43 aeronaves A-1A e A-1B para o padrão A-1M. O contrato foi avaliado em aproximadamente R$ 1,3 bilhão, valor expressivo para a época e equivalente hoje a algo entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões, dependendo da metodologia de atualização monetária utilizada. Em dólares, o programa era estimado em cerca de US$ 400 milhões, o que corresponderia atualmente a aproximadamente US$ 600 milhões.
O resultado técnico foi extraordinário. O A-1M recebeu uma cabine completamente digital, equipada com displays multifuncionais coloridos, novo HUD, computadores de missão redundantes, sistema HOTAS, arquitetura digital baseada no padrão MIL-STD-1553B, navegação integrada INS/GPS, sistema de geração de oxigênio a bordo (OBOGS), gravadores digitais de missão e capacidade ampliada para emprego de armamentos inteligentes.
A aeronave também recebeu uma nova suíte de guerra eletrônica, incluindo receptor de alerta radar, sistemas de contramedidas eletrônicas, lançadores de chaff e flare e sistemas de autoproteção muito mais modernos que aqueles existentes na versão original.
O coração da modernização era o radar multimodo SCP-01. Pouca gente sabe que a fabricação do radar envolveu diretamente a indústria nacional, por meio da Mectron, em São José dos Campos. Além da produção local de componentes e da integração do sistema, o programa permitiu a absorção de conhecimento estratégico em uma área dominada por poucos países, fortalecendo a capacidade brasileira de desenvolver e integrar sensores embarcados de alta complexidade.
O SCP-01 oferecia capacidades de mapeamento terrestre, acompanhamento automático de terreno, navegação de precisão e aquisição de alvos muito superiores às existentes no AMX original. Combinado aos novos sistemas de missão, transformava o A-1M em uma aeronave plenamente compatível com os requisitos do combate moderno.
Paradoxalmente, a FAB acabou desenvolvendo provavelmente a versão mais avançada do AMX já construída. Enquanto os AMX italianos foram empregados em operações reais da OTAN no Afeganistão e na Líbia, a versão brasileira recebeu uma modernização mais profunda, beneficiando-se de tecnologias desenvolvidas décadas após o projeto original da aeronave.
Mas existe um detalhe ainda mais impressionante.
Os equipamentos destinados à modernização das 43 aeronaves previstas foram efetivamente produzidos. Radares, displays multifuncionais, computadores de missão, sistemas de guerra eletrônica, módulos eletrônicos, cabeamentos, equipamentos de navegação e diversos outros componentes foram fabricados dentro do planejamento industrial do programa.
Em outras palavras, a indústria realizou praticamente todo o trabalho.
O Brasil financiou o desenvolvimento tecnológico, a certificação, a produção dos sistemas e a criação da infraestrutura industrial necessária para modernizar toda a frota planejada. Os kits existiam. Os equipamentos foram produzidos. Os fornecedores cumpriram sua parte.
O problema surgiu quando sucessivos contingenciamentos orçamentários impediram que todos esses sistemas fossem efetivamente instalados nas aeronaves previstas.
O resultado foi uma situação difícil de justificar sob qualquer análise de custo-benefício. O país investiu bilhões de reais, desenvolveu tecnologias estratégicas, produziu equipamentos para 43 aeronaves e criou uma das mais sofisticadas plataformas de ataque tático da sua categoria. Porém, acabou operando apenas uma fração da capacidade originalmente planejada.
O prejuízo não pode ser medido apenas em dinheiro.
Cada aeronave que deixou de ser modernizada significou menos pilotos treinados, menos horas de voo, menor disponibilidade operacional e menor capacidade de resposta em situações de crise.
O aspecto mais preocupante é que o A-1M continua sendo a principal plataforma de ataque tático da Força Aérea Brasileira. Embora o Gripen represente um salto tecnológico sem precedentes para a defesa aérea nacional, ele não substitui integralmente a função desempenhada pelo AMX.
O F-39 Gripen foi concebido prioritariamente para superioridade aérea, defesa do espaço aéreo e ataques de precisão contra alvos estratégicos. O AMX, por sua vez, foi projetado para missões de interdição tática, apoio aéreo aproximado, ataque a forças blindadas, destruição de posições fortificadas e apoio direto às tropas em combate.
São missões complementares.
Nenhuma força aérea moderna utiliza exclusivamente seus caças mais sofisticados para todas as missões de ataque tático quando dispõe de uma plataforma especializada para esse tipo de operação.
Hoje, porém, a FAB corre o risco de perder exatamente essa especialização.
Os F-5M aproximam-se do final de sua vida operacional. A frota de Gripen ainda cresce lentamente. E os AMX caminham para a retirada definitiva sem que exista um sucessor dedicado para suas missões.
Na prática, o Brasil está prestes a perder uma capacidade construída ao longo de mais de três décadas.
Por isso, o recente vídeo do A-1M disparando seus canhões DEFA 554 de 30 mm possui um significado que vai muito além de um simples treinamento operacional.
Ele mostra uma aeronave ainda plenamente capaz de cumprir sua missão. Mostra uma plataforma equipada com radar multimodo, guerra eletrônica avançada e capacidade de emprego de armamentos modernos.
Mas também mostra o resultado de décadas de contingenciamentos, descontinuidade administrativa e falta de planejamento de longo prazo.
O Brasil criou a versão mais avançada do AMX já produzida. Fabricou radares no país. Produziu sistemas para modernizar 43 aeronaves. Investiu o equivalente a quase R$ 3 bilhões em valores atuais. Criou uma plataforma capaz de operar em qualquer cenário regional e plenamente compatível com os desafios do combate moderno.
Entretanto, a incapacidade de sustentar o programa transformou um dos maiores sucessos tecnológicos da aviação militar brasileira em um símbolo das consequências da falta de continuidade no planejamento de defesa.
Quando um A-1M dispara seus canhões de 30 mm sobre um alvo no campo de treinamento, ele não demonstra apenas o que a Força Aérea Brasileira ainda possui.
Ele também lembra tudo aquilo que o Brasil deixou de ter.




















