Reunião histórica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky durante a reunião do G7, em Evian, França, dia 17 Junho 2026 Foto Planalto
Nelson During
Editor – Chefe DefesaNet
O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky durante a reunião do G7, em Evian, França, foi muito mais do que uma fotografia protocolar. Em política internacional, gestos têm significado, e a simples realização dessa reunião pode ser interpretada como um sinal de que Brasília começa a recalibrar sua posição em relação à guerra na Ucrânia.
Desde o início do conflito, o governo brasileiro buscou manter uma postura de equidistância entre Moscou e Kiev. No entanto, essa posição frequentemente gerou críticas, especialmente no Ocidente, onde muitos enxergavam uma excessiva tolerância do Brasil em relação às ações russas. O encontro com Zelensky sugere que o Palácio do Planalto percebe uma mudança no ambiente político e estratégico internacional.
A interpretação mais direta é que Lula entende que o equilíbrio de forças está mudando. Se existe uma percepção crescente de enfraquecimento político e econômico da Rússia, bem como de desgaste da liderança de Vladimir Putin após mais de quatro anos de guerra, aproximar-se da Ucrânia passa a ser uma decisão pragmática. Na história da política, líderes experientes raramente apostam seu capital político em causas que consideram perdidas. Ao contrário, procuram posicionar seus países ao lado daqueles que acreditam ter maiores chances de prevalecer.
Outro fator relevante é a opinião pública. As imagens dos ataques russos contra cidades ucranianas e a contínua destruição de áreas civis têm produzido forte impacto na percepção internacional do conflito. Mesmo em países distantes do teatro de operações, como o Brasil, cresce o desconforto com a violência contra a população civil. Nesse contexto, uma posição excessivamente compreensiva em relação ao Kremlin pode representar custos políticos para qualquer governo.
Sob essa ótica, Lula também estaria fazendo uma leitura do cenário doméstico. Defender ou relativizar as ações de Moscou não parece ser uma bandeira capaz de gerar dividendos eleitorais. Pelo contrário, pode afastar setores moderados da sociedade brasileira que veem a invasão da Ucrânia como uma violação da soberania nacional e do direito internacional.
Essa possível mudança de postura também evidencia divergências dentro da própria política externa brasileira. Enquanto setores mais pragmáticos do governo podem estar defendendo uma reaproximação com Kiev e com o Ocidente, a ala ideológica tradicionalmente associada ao assessor especial Celso Amorim continua sendo vista por críticos como mais simpática às posições russas.
O simbolismo do encontro no G7, portanto, vai além da diplomacia. Ele pode representar o reconhecimento de que a guerra entrou em uma nova fase política e que o Brasil busca evitar o risco de permanecer associado ao lado que eventualmente saia derrotado do conflito.
Durante anos, críticos de Zelensky procuraram minimizar sua liderança, lembrando seu passado como ator e humorista. No entanto, a resistência ucraniana transformou sua imagem internacional e consolidou seu papel como símbolo da defesa de seu país diante de uma potência militar muito superior. Se a Ucrânia alcançar seus objetivos estratégicos e preservar sua independência, a história poderá registrar que aqueles que o ridicularizavam fizeram uma avaliação equivocada.
Nesse cenário, o encontro entre Lula e Zelensky pode ser visto como um movimento preventivo da diplomacia brasileira para se reposicionar diante de uma realidade geopolítica em transformação. Se essa interpretação estiver correta, a reunião no G7 poderá ser lembrada como o momento em que Brasília começou a mudar de lado no maior conflito europeu do século XXI.



















