Notas Estratégicas BR – O Dilema da Ferrari e a Paralisia da Modernização Militar Brasileira

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

A recente reflexão publicada por Paulo Roberto Bastos Jr., no artigo O Dilema da Ferrari e a Paralisia das Forças Armadas”, levanta uma questão desconfortável, mas necessária: até que ponto a busca incessante pela solução perfeita está impedindo as Forças Armadas brasileiras de tomar decisões e preservar capacidades essenciais?

O conceito é simples. Todos desejam uma Ferrari. Ela representa o máximo desempenho, tecnologia, prestígio e poder. O problema é que Ferraris são caras para comprar, caras para operar e, muitas vezes, incompatíveis com a realidade financeira de quem as deseja. Enquanto se espera pela Ferrari ideal, o carro antigo continua envelhecendo na garagem até parar de funcionar.

Esse dilema parece cada vez mais presente em importantes programas militares brasileiros.

Na Força Aérea Brasileira, por exemplo, a situação da aviação de caça tornou-se emblemática. Durante décadas, sucessivos adiamentos, restrições orçamentárias e mudanças de prioridades reduziram progressivamente a capacidade operacional da força. A FAB apostou corretamente no desenvolvimento e na aquisição do Gripen E/F, um programa tecnologicamente avançado e estratégico para a indústria nacional. Entretanto, a realidade é que o número de aeronaves contratadas permanece insuficiente para substituir integralmente a frota que envelhece, enquanto novas aquisições seguem indefinidas.

Nesse contexto, alternativas intermediárias poderiam ter sido consideradas com maior pragmatismo. O Leonardo M-346FA, o Xavante II, por exemplo, não seria um substituto direto para um caça de superioridade aérea de última geração, mas poderia desempenhar missões de defesa aérea, treinamento avançado e ataque leve com custos significativamente inferiores.

Enquanto se buscavam velhas Ferraris de segunda mão, como os F-16 Block 30 e os Gripen C/D, uma solução disponível e razoável, como o avião italiano, poderia ter preservado esquadrões e pilotos, ampliado a disponibilidade operacional e evitado o atual cenário de desmotivação e escassez de aeronaves de caça.

A questão não é defender uma plataforma específica. O ponto central é compreender que capacidade operacional também possui valor estratégico. Uma força que espera indefinidamente pelo sistema ideal corre o risco de perder a capacidade que já possui.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao programa de renovação da força blindada do Exército Brasileiro.

A substituição dos Leopard 1A5BR representa uma das decisões mais importantes para a Força Terrestre. Diversas plataformas modernas surgem como candidatas, oferecendo um salto tecnológico gigantesco em relação aos blindados atualmente em serviço.

Sistemas como o Tulpar, da Turquia, representam soluções contemporâneas que oferecem elevados níveis de mobilidade, proteção, poder de fogo, consciência situacional e capacidade de crescimento, muito superiores ao material atualmente empregado. Além disso, abrem a oportunidade de introduzir no Exército Brasileiro um verdadeiro conceito de família de blindados, incluindo um veículo blindado de combate de infantaria — uma capacidade há muito necessária e desejada pela Força.

Entretanto, cresce a percepção de que a busca por soluções extremamente sofisticadas e de altíssimo custo, como o Leopard 2A8, pode transformar-se em um novo exemplo do dilema da Ferrari.

Não há dúvidas sobre as extraordinárias capacidades do Leopard 2A8. Trata-se de um dos mais avançados carros de combate do mundo. O problema é que a análise estratégica não pode se limitar apenas às características técnicas da plataforma. É necessário considerar custos de aquisição, manutenção, logística, infraestrutura, treinamento e sustentabilidade ao longo de décadas.

A pergunta fundamental não é qual é o melhor blindado disponível no mercado. A pergunta correta é qual blindado o Brasil pode adquirir em quantidade suficiente, produzir em território nacional sem amarras tecnológicas, operar adequadamente e manter pronto para o combate durante os próximos trinta anos.

Existe uma oportunidade histórica diante do Exército Brasileiro. Pela primeira vez em décadas, discute-se a substituição integral de uma frota que já atingiu seus limites operacionais. Seria um erro permitir que a busca pela solução perfeita acabasse retardando ou inviabilizando uma decisão que precisa ser tomada.

O Brasil vive um período de severas restrições fiscais. Os programas estratégicos das três Forças sofrem com atrasos, contingenciamentos e incertezas orçamentárias. A instabilidade dos investimentos em defesa afeta diretamente a modernização militar e a própria Base Industrial de Defesa nacional.

Nesse ambiente, o pragmatismo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

Nenhuma força armada moderna pode basear seu planejamento apenas em desejos. A estratégia exige equilíbrio entre ambição e realidade. Em determinados momentos, adquirir uma solução que atenda 80% ou 90% das necessidades operacionais pode ser mais inteligente do que perseguir indefinidamente uma solução que atende 100% dos requisitos, mas jamais se materializa.

O verdadeiro risco não é comprar um sistema que não seja a Ferrari dos sonhos. O verdadeiro risco é continuar adiando decisões até que não exista mais capacidade para substituir.

A história militar está repleta de exemplos de forças que perderam capacidades críticas não por falta de tecnologia disponível, mas por incapacidade de decidir.

O Brasil precisa evitar esse caminho.

Porque, ao final, uma Ferrari parada na concessionária não leva ninguém a lugar algum.

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