A Rheinmetall mostrou o blindado Boxer numa grande exposição de capacidades e meios do Exército português, em Viseu.
Pedro Monteiro
Jornalista de defesa baseado em Amesterdão (www.pedro-monteiro.com).
Além das suas reportagens com forças da OTAN/NATO em vários países, tem também publicados vários livros sobre as forças militares e a indústria de defesa portuguesas.
A recente presença de um enorme blindado Boxer com cerca de 39 toneladas na exposição de capacidades e meios do Exército português, em Viseu, destacou-se de imediato ao lado de um Pandur II com umas 22 toneladas.
Não só pelas suas dimensões, mas pelo que representava. O ministro da Defesa, Nuno Melo, acompanhado pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, chegou a subir a bordo do veículo e, durante largos minutos, trocou impressões com a equipa da Rheinmetall. Mais do que uma simples curiosidade, esta foi uma forte confirmação de uma decisão em curso: a aquisição de um primeiro lote de 90 destes blindados.
Um novo blindado para uma nova brigada
A aquisição, deverá ser formalizada em breve, será feita através do novo mecanismo de financiamento europeu SAFE (Security Action for Europe), num investimento que pode chegar aos 1,3 Bilhões de euros – um dos principais programas portugueses no âmbito, junto com as novas fragatas da Marinha.
A aquisição será, aliás, administrada através da OCCAR, a agência multilateral de cooperação em armamento que já gere o programa Boxer, o que integra Portugal, desde o primeiro dia, numa estrutura logística e de suporte partilhada. O Boxer já está operacional na Alemanha, Reino Unido, Holanda, Lituânia, Qatar e Austrália.

Os blindados Pandur II, em serviço há 15 anos, já começaram a ser modernizados. Aqui, imagens deles em exercícios com outras forças da OTAN na Roménia.
O Boxer vai ser uma das capacidades estruturantes de uma das duas futuras brigadas do Exército português. De fato, como muitos países da NATO, Portugal está transformado profundamente as suas Forças Armadas, sobretudo face ao contexto geopolítico e lições no terreno que a guerra na Ucrânia trouxe.
Num discurso no ano passado, o próprio Chefe do Estado-Maior do Exército, General Mendes Ferrão, afirmou que é, por isso, necessário “um Exército moderno, adaptável e resiliente, preparado para combater em ambientes conjuntos e combinados, em coordenação com outras forças, agências e nações”.
Está, assim, em marcha o plano Força Terrestre 2045. Esta é a maior transformação do ramo terrestre desde 2006 e uma oportunidade única que, como defende o General CEME, “vai para além da conjuntura ou da circunstância do momento, pois as Forças não se desenham com base na espuma mediática”.
Na prática, o Exército, hoje com cerca de 13.200 militares, vai reforçar efectivos e, sobretudo, duplicar, em volume e em dimensão tecnológica, a sua força operacional. Uma das principais mudanças é a consolidação das forças em torno de duas brigadas, uma ligeira que evoluirá a partir da atual Brigada de Reação Rápida e uma segunda média que funde a Brigada de Intervenção e a Brigada Mecanizada.
Esta última vai receber não só os Boxer como os novos sistemas de artilharia autopropulsados Caesar já em serviço em vários exércitos europeus e testados em combate na Ucrânia, mas também concentrar os atuais carros de combate Leopard 2A6 e blindados Pandur II que estão em um amplo programa de modernização.
Por agora, o novo Boxer blindado sobre rodas 8×8 vai permitir substituir os veteranos blindados M113 sobre lagartas, recebidos a partir de 1976. Curiosamente, um ano antes, na Guarda, a Rheinmetall tinha exposto um blindado Lynx KF41 de lagartas – do mesmo modelo já em serviço com a Hungria e prestes a entrar em serviço com a Itália – mas a opção passa agora pelo blindado rodas.
Entre as versões previstas, o Exército português deverá receber, também, blindados com o sistema antiaéreo Skyranger 30 que combina mísseis e canhão e está pensado já para a ameaça crescente de drones de sacrifício. Graças à sua estrutura modular, o Boxer pode trocar, rapidamente, o módulo de missão, mantendo a base de condução, o que tem vantagens para a gestão e manutenção da frota, mas também a modernização futura da viatura.
Em Viseu, esteve exposto o modelo com a torre estabilizada Lance 2 com um canhão Rheinmetall MK30-2/ABM de 30mm. Esta arma pode usar munições perfurantes APFSDS-T mas também munições programáveis KETF Air Burst que permitem, inclusive, enfrentar alvos aéreos, como drones, a baixas altitudes. E a torre está desenhada para receber também um lançador duplo de mísseis anticarro SPIKE LR/LR2.
Uma nova fábrica de blindados
As discussões em curso deverão levar, também, a uma revolução industrial com a instalação, em Portugal, de uma linha de montagem dos blindados Boxer. Este seria o retorno da fabricação de blindados ao país, depois da mítica Bravia ter produzido entre 150 a 180 blindados Chaimite V-200 para Portugal, Peru, Filipinas, Líbano e Líbia durante as décadas de 1960 e 1970 ou da fabricação, bem mais recente, dos blindados Pandur II.
De fato, entre 2007 e 2011, foram produzidas em Portugal cerca de 153 dos 188 veículos Pandur II recebidos pelo Exército português. No ponto mais alto da produção, a fábrica no Barreiro atingiu ritmos de sete blindados por mês e empregou cerca de 200 trabalhadores diretos, com centenas de outros envolvidos na cadeia de fornecimento. Mas terminada a encomenda, a produção não continuou.
Até agora, o consórcio ARTEC, que junta a KNDS e a Rheinmetall, já produziu mais de dois mil blindados Boxer. Mas com planos de aquisição em larga escala por parte da Alemanha e de outros operadores europeus, a capacidade de produção deve ser expandida de forma significativa.
Portugal pode seguir o exemplo do Reino Unido e da Austrália, onde a produção local complementa a capacidade industrial alemã. Além disso, com a linha de montagem portuguesa abre-se a oportunidade para realizar a manutenção e actualização da frota em território nacional ao longo do seu ciclo de vida.
Nestas circunstâncias, o programa Boxer permitirá que Portugal seja mais que um cliente e passe a fazer parte de uma arquitetura multinacional de desenvolvimento, produção e suporte do modelo. Em todo o caso, tudo indica que a frota cresça, a longo prazo, bem além dos primeiros 90 veículos.
A ideia será substituir a própria frota de blindados Pandur por mais Boxer. Por agora, os Pandur têm mostrado ser sucessores mais que dignos dos blindados Chaimite: ao longo de 15 anos de serviço, já foram empregues em missões da NATO no Kosovo e na Lituânia, entraram em combate na República Centro Africana com as forças das Nações Unidas e estão, também, destacados na Roménia e Eslováquia.

A possível produção, em Portugal, dos blindados Boxer vai permitir o ressurgimento de uma capacidade industrial que existiu com os blindados Chaimite e, anos depois, com os próprios Pandur II.
O Boxer traz continuidade e ruptura. Continuidade, porque mantém a aposta de Portugal em plataformas de rodas e na mobilidade estratégica. Ruptura, porque ao contrário dos programas anteriores, o Boxer não é apenas uma aquisição isolada, mas a entrada do país num ecossistema industrial europeu, com produção em larga escala e ciclos de vida partilhados entre vários países.
Já os M113 portugueses, recebidos a partir de 1976, terão uma segunda vida. O Exército já testou com sucesso o primeiro protótipo desenvolvido no país de uma variante com operação remota, passível de apoiar unidades de combate na linha da frente em missões como a evacuação de baixas ou o transporte de munições e abastecimentos. Tudo isto e muito mais vai reforçar o Exército, segundo o seu comandante, como um parceiro “fiável porque tem capacidade real e confiável porque o país e os aliados sabem que podem contar connosco”.

O Blindado Pandur em exercício com outras forças da OTAN na Roménia.





















