Relatório Otálvora: A política externa dos EUA é decidida e anunciada na Casa Branca

Desde 12AGO2025, o Departamento de Estado suspendeu as tradicionais coletivas de imprensa diárias, e Rubio permanece na Casa Branca para exercer suas funções cotidianas. A política externa é de grande importância para a atual administração dos EUA, e os anúncios nessa área tornaram-se quase exclusivamente da responsabilidade da Casa Branca. Foto – Vance, Trump e Rubio na Casa Branca 27ABR2026

EDGAR C. OTÁLVORA
2 de Maio de 2026
Diario las Américas
Miami

Desde 12AGO2025, o Departamento de Estado suspendeu as tradicionais coletivas de imprensa diárias, nas quais um porta-voz de alto nível apresentava questões atuais de política externa e respondia a perguntas da imprensa especializada.

Até aquele dia, a porta-voz do Departamento de Estado era a comentarista política Tammy Bruce, nomeada em 20JAN2025 por decisão pessoal de Donald Trump. Durante seu mandato, os briefings do Departamento de Estado já revelavam que a política externa americana vigente, mesmo em seus mínimos detalhes, não só era decidida na Casa Branca, como sua disseminação era uma questão presidencial. Bruce tinha o hábito de realizar seu briefing diário somente depois que sua contraparte na Casa Branca, Karoline Leavitt, já havia concluído o seu. Em dezenas de ocasiões durante os briefings do Departamento de Estado, a resposta de Bruce a perguntas rotineiras de jornalistas sobre questões de política externa era encaminhá-las à Casa Branca. A porta-voz do Secretário Marco Rubio preferia permanecer em silêncio em suas respostas a correr o risco de contradizer a Casa Branca.

*****

Em 12AGO2025, Tammy Bruce deixou o cargo de porta-voz do Departamento de Estado após ser nomeada por Trump como vice-chefe da missão dos EUA na ONU. O cargo de porta-voz foi então ocupado por Thomas “Tommy” Pigott como porta-voz interino, que foi oficialmente nomeado em 24 de abril de 2026. Pigott, que ingressou no Departamento de Estado como parte da equipe de Trump, não realizou nenhuma coletiva de imprensa durante seu mandato interino.

A nomeação de Marco Rubio como Conselheiro de Segurança Nacional interino em 01MAIO2025 também significou que o Secretário de Estado passou a trabalhar fisicamente na Casa Branca, conforme refletido nas agendas públicas diárias divulgadas pelo próprio Departamento.

*****

Em 22ABR2026, o embaixador Michael Kozak, chefe do Departamento do Estado para o Hemisfério Ocidental, publicou um anúncio incomum no Facebook. Acompanhado de uma fotografia com a política venezuelana Dinorah Figuera, Kozak afirmou ter se reunido com a “Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela em 2015”. O objetivo do encontro, segundo Kozak, era “discutir caminhos para uma transição democrática estável, ordenada e consolidada”. Figuera, por sua vez, republicou o texto de Kozak e escreveu: “Participei como Presidente da @AsambleaVE, uma instituição reconhecida pelo governo dos EUA”.

Ambos os textos reacenderam as muitas questões que ainda existem sobre os aspectos legais implícitos no processo incomum que levou os EUA a não reconhecerem (23JAN2019) Nicolás Maduro (“nem seus associados”) como o “governo da Venezuela” e a reconhecerem o governo provisório de Juan Guaidó (2019-2023); a destituição de Guaidó pela Assembleia em 2015 e o reconhecimento pelos EUA de Dinorah Figuera como presidente do “único poder legítimo” e, consequentemente, como chefe do governo da Venezuela (2023); a declaração de Figuera de que havia assumido as responsabilidades do Poder Executivo (2023); a proibição, por seu partido (Julio Borges), de que Figuera aceitasse a viagem a Washington proposta pelo Departamento de Estado para formalizar suas relações com os EUA (2023); A declaração do Departamento de Estado (07MAR2025), na qual afirmou que os EUA “continuam a reconhecer a Assembleia Nacional de 2015 como o governo da Venezuela”, a declaração do embaixador Kozak (29/08/2025) perante os tribunais dos EUA, reiterando que “a Assembleia Nacional eleita em 2015 foi e continua sendo a única instituição pública democraticamente eleita no país“, e, finalmente, a comunicação assinada novamente por Kozak, na qual ele informou os tribunais de seu país (11MAR2026) que “os EUA reconhecem Delcy Rodríguez como a única Chefe de Estado capaz de agir em nome da Venezuela”.

*****

O Relatório Otálvora questionou o Departamento de Estado se os EUA continuavam a reconhecer os deputados eleitos em 2015, liderados por Figuera, como o “Poder Legislativo” da Venezuela. A pergunta esclareceu: “Os EUA reconhecem Delcy Rodríguez (como o embaixador Kozac relatou aos tribunais) como ‘a única chefe de Estado’, mas ainda reconhecem a Assembleia Nacional eleita em 2015 como um órgão legislativo ativo? Enfatizamos a palavra ‘ativo’”.

O porta-voz do Departamento de Estado, em sua resposta de 24ABR2026, omitiu qualquer referência ao poder legislativo venezuelano. A resposta do porta-voz foi: “Como parte da abordagem trifásica do governo para a estabilização, recuperação econômica, reconciliação política e transição democrática da Venezuela, os Estados Unidos reconhecem o governo interino venezuelano sob a presidência interina de Delcy Rodríguez.”

*****

Aliás, uma das “explicações” mais curiosas oferecidas sobre a decisão do governo dos EUA de reconhecer Delcy Rodríguez como a “única chefe de Estado da Venezuela” foi emitida em 23FEV2026 por Jaime Florez, Diretor de Comunicações Hispânicas do Comitê Nacional Republicano. “Temos que negociar com ela”, argumentou o porta-voz republicano da Flórida, “porque agora é ela quem controla a folha de pagamento, os cheques, as contas, a opinião pública, as pessoas nas ruas, o governo. Não temos mais ninguém que possa fazer isso. E isso não pode ser improvisado. Não se pode mandar alguém que chega de avião e, no dia seguinte, já controla um país.” (Sem comentários.)

*****

A eleição do novo Secretário-Geral das Nações Unidas para um mandato de cinco anos está prevista para o final de setembro. Segundo regras não escritas, o próximo Secretário-Geral deve ser originário de um país da América Latina ou do Caribe, e diversos governos acreditam que o cargo deve ser ocupado por uma mulher. A Assembleia Geral decide sobre a nomeação a partir de um candidato recomendado pelo Conselho de Segurança. A etapa crucial do processo eleitoral ocorre no Conselho de Segurança, onde o candidato deve obter nove dos quinze votos possíveis, desde que nenhum dos cinco membros permanentes exerça veto.

Embora uma candidatura surpresa possa surgir, o processo formal de nomeação terminou em 1º de abril de 2026. As candidaturas apresentadas são as de Rafael Grossi, diretor argentino da Agência Internacional de Energia Atômica; Rebeca Grynspan, secretária costarriquenha da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento; a ex-presidente chilena Michelle Bachelet; e Macky Sall, ex-presidente do Senegal. As candidaturas de Grossi, Grynspan e Sall foram apresentadas por seus respectivos governos. A candidatura de Bachelet foi inicialmente apresentada pelo Chile, Brasil e México, mas logo após a posse de José Antonio Kast, o governo chileno retirou seu apoio à candidatura da ex-presidente.

*****

O Relatório Otálvora consultou o Departamento de Estado dos EUA sobre sua preferência entre os candidatos apresentados. Um porta-voz oficial do governo americano, em resposta emitida em 30 de abril de 2026, afirmou que “os EUA buscam um candidato pragmático, motivado e focado em reformas, que proteja as valiosas contribuições dos Estados-membros, restaure a governança competente e modernize significativamente a organização. Qualquer novo Secretário-Geral deve reconduzir a ONU ao seu propósito primordial: manter a paz e a segurança no mundo, em vez da ideologia absurda, politizada e progressista que minou a eficácia da instituição”. Portanto, “os EUA avaliarão ativamente os candidatos para determinar a pessoa mais qualificada e não pré-julgarão nenhum candidato com base em características pessoais imutáveis”. A expressão “características imutáveis”, neste contexto, geralmente se refere a aspectos como nacionalidade, raça, etnia, idade ou sexo.

*****

O ex-presidente senegalês Sall parece estar completamente descartado como opção, já que a intenção aparente é escolher alguém da América Latina e do Caribe. A candidatura da ex-presidente chilena Bachelet parece não ter apoio suficiente no Conselho de Segurança, onde apenas a Colômbia de Gustavo Petro oferece apoio claro, juntamente com alguma simpatia de governos centristas. Análises iniciais sugerem que apenas as candidaturas de Grossi, da Argentina, e Grynspan, da Costa Rica, permanecem viáveis.

*****

As eleições presidenciais no Brasil serão realizadas em 04OUT2026. Os partidos devem formalizar a candidatura de Lula da Silva em agosto. É praticamente certo que ele concorrerá ao que poderá ser seu quarto mandato. Do outro lado, o filho mais velho de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, foi escolhido para representar a família. No entanto, as candidaturas ainda não foram definidas oficialmente e as alianças políticas ainda não foram finalizadas.

Dois eventos ocorridos em 29 e 30ABR2026 levantaram preocupações sobre a potencial incapacidade de Lula de formar uma aliança além de sua base tradicional de esquerda, uma aliança que lhe permitisse concorrer à presidência com chances reais de vitória. Em 29ABR2026, o Senado brasileiro rejeitou a indicação de Lula para preencher uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). No dia seguinte, 30ABR2026, ambas as casas do Congresso brasileiro votaram esmagadoramente para derrubar o veto de Lula a uma lei que reduzia as penas impostas aos acusados ​​da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Os votos da bancada Bolsonaro são insuficientes no Congresso para derrotar Lula, portanto, os resultados dessas duas votações, nas quais o governo sofreu uma retumbante derrota, parecem indicar que a longa lista de partidos políticos está abandonando a candidatura de Lula.

No Brasil, ainda não está decidido quem será o presidente que assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2027.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter