Apresentada na LAAD 2026, a IABox da Daten simboliza a transição da inteligência artificial do campo conceitual para a aplicação operacional, combinando edge computing, autonomia tática e fortalecimento da indústria nacional em tecnologias críticas.
Por Redação DefesaNet
A incorporação de inteligência artificial e computação de borda ao setor de defesa deixou de ser uma perspectiva futura para se consolidar como vetor imediato de transformação operacional.
Na LAAD 2026, a Daten apresentou a IABox, plataforma concebida para executar aplicações analíticas diretamente no ponto de operação, reduzindo dependência de conectividade contínua e ampliando a capacidade decisória em ambientes críticos.
O movimento reflete uma mudança estrutural: a inteligência deixa de estar concentrada em centros remotos e passa a ser distribuída no terreno, em viaturas, postos avançados, drones e infraestruturas sensíveis. Em paralelo, o avanço dessas soluções reforça o debate sobre soberania digital, interoperabilidade, cibersegurança e o papel estratégico da indústria brasileira no domínio de tecnologias críticas.
Segue abaixo entrevista com o executivo Ian Vinhas, Gerente de Operações da Daten para Defesa, sobre o lançamento da IABox.
- Como a LAAD Security & Defence 2026 reflete a mudança de paradigma no uso de inteligência artificial e computação de borda no setor de defesa?
A LAAD 2026 marca, para a Daten, um momento muito representativo porque é o primeiro evento em que apresentamos um equipamento concebido com foco em inteligência artificial aplicada ao ambiente operacional. Isso traduz uma mudança de percepção do mercado, em que a IA deixa de ser só uma tendência em evidência para ser tratada como uma capacidade concreta para apoiar operações de segurança e defesa.
Esse movimento acontece em paralelo ao amadurecimento do edge computing e o que vemos é a necessidade crescente de levar processamento e análise para mais perto da ocorrência, com mais agilidade, autonomia e aderência à realidade de campo. Nesse contexto, a IABox nasce como uma base tecnológica para viabilizar esse uso de forma prática, conectando hardware, aplicações analíticas e demandas operacionais reais.
Além disso, a Daten, que já está em contato constante com seus públicos estratégicos, tem, durante a LAAD, mais uma oportunidade de se aproximar das forças de segurança, dos integradores e dos parceiros de software. Isso nos ajuda a entender com mais precisão as necessidades do setor e contribui diretamente para o desenvolvimento de soluções mais alinhadas aos desafios contemporâneos da segurança pública e da defesa.
- Na visão da Daten, o avanço do edge computing representa uma evolução incremental ou uma ruptura estrutural na forma como as operações de segurança são conduzidas?
Sob um aspecto mais amplo, é possível dizer que o uso de IA já vinha evoluindo de forma incremental. Mas, quando essa capacidade passa a operar na borda, dentro de uma viatura, em um posto avançado ou em uma operação móvel, sem depender exclusivamente de conectividade contínua com a nuvem, aí estamos falando de uma ruptura estrutural.
Isso porque muda o paradigma operacional, em vez de depender de uma estrutura centralizada para receber, processar e devolver informação, a análise pode acontecer no próprio ponto de coleta, com geração de alertas e insights em tempo real. Em cenários remotos, críticos ou com baixa cobertura de rede, isso representa uma transformação efetiva na forma de conduzir operações.
Na prática, o edge computing aplicado à segurança e defesa amplia a autonomia em campo, reduz a latência e torna a tomada de decisão mais responsiva. Por isso, na visão da Daten, não se trata apenas de uma melhoria de desempenho, mas de uma nova lógica de operação.
- A IABox foi apresentada como um Edge AI Gateway. Quais são, tecnicamente, os principais diferenciais dessa arquitetura em comparação com soluções tradicionais baseadas em nuvem?
O principal diferencial está em aproximar o processamento do local onde o dado é gerado. Em vez de depender do envio contínuo das informações para a nuvem, a IABox permite rodar aplicações analíticas diretamente na ponta, reduzindo de forma relevante a latência entre a captura da informação e a geração de resposta.
Esse desenho de arquitetura traz ganhos importantes de autonomia e continuidade operacional, especialmente em ambientes onde a conectividade é limitada, instável ou até negada. Além disso, a IABox funciona como uma base computacional para múltiplas aplicações de IA, com flexibilidade para diferentes tipos de projeto.
Outro ponto importante é que ela não se limita a uma aplicação única, pois a solução foi desenvolvida como uma infraestrutura tecnológica capaz de integrar diferentes softwares de IA e diferentes tipos de câmeras, permitindo análise de imagens e vídeos em tempo real no próprio ponto de operação.
- Em ambientes com conectividade limitada ou negada, quais são os ganhos reais em termos de latência, autonomia e resiliência operacional?
Nesses ambientes, o ganho é direto e muito relevante, porque a operação deixa de depender exclusivamente da conectividade para gerar inteligência em campo. Isso reduz o tempo de resposta, amplia a autonomia das equipes e fortalece a resiliência operacional. Em situações em que segundos podem ser determinantes, ter capacidade analítica embarcada na ponta significa manter a operação funcionando com mais robustez, mesmo diante de limitações de comunicação.
Além do aspecto imediato da resposta, essa arquitetura também permite gerar estatísticas e análises que apoiam camadas descritivas, diagnósticas, preditivas e prescritivas, ampliando a capacidade de planejamento e de reação das equipes em campo.
- A solução é descrita como agnóstica em relação a softwares de IA. Como isso se traduz, na prática, em interoperabilidade com sistemas já em uso por forças de segurança e defesa?
Na prática, isso significa que a IABox não é um pacote fechado, que obriga o cliente a se adaptar a uma interface única ou a um ecossistema proprietário. A proposta da Daten é oferecer uma base computacional flexível, capaz de receber e suportar diferentes aplicações analíticas, de acordo com a necessidade de cada projeto.
Essa característica amplia a interoperabilidade porque permite integrar a solução a softwares já adotados por parceiros, integradores ou pelos próprios clientes, preservando fluxos operacionais e facilitando a adaptação a contextos distintos. Em vez de impor uma lógica única de uso, a IABox se posiciona como uma plataforma habilitadora para diferentes arquiteturas de solução.
Além disso, como o equipamento também se conecta a diferentes tipos de câmeras, ele amplia as possibilidades de integração em campo e torna mais simples a construção de soluções aderentes às necessidades de segurança pública, defesa, controle de acesso, monitoramento e vigilância.
- Em cenários como fronteiras, aeroportos e operações com drones, quais são hoje os casos de uso mais maduros para esse tipo de tecnologia?
Do ponto de vista da arquitetura de edge AI, já existem casos de uso bastante consolidados para esse tipo de tecnologia em cenários de segurança e defesa. Entre os mais maduros estão a leitura de placas de veículos com restrição, a identificação facial de suspeitos, a detecção de armas de fogo, o reconhecimento de situações de risco e o envio de alertas em tempo real às equipes operacionais.
Em ambientes como aeroportos, terminais, regiões de fronteira e outros espaços públicos de circulação controlada, a tecnologia também tem grande aderência para controle de acesso, monitoramento de áreas restritas, vigilância perimetral, proteção de instalações estratégicas e apoio à consciência situacional em operações móveis.
No caso de drones, há aplicações muito relevantes em monitoramento aéreo, reconhecimento de eventos, identificação de padrões e apoio a missões de vigilância. A IABox foi desenhada justamente para servir como essa base computacional embarcada e flexível, capaz de viabilizar múltiplas aplicações conforme os requisitos de cada operação e a homologação de cada projeto.
- O uso de IA embarcada para tarefas como reconhecimento facial e detecção de ameaças levanta debates sobre precisão e confiabilidade. Como a Daten aborda esses desafios em ambientes críticos?
Em ambientes críticos, precisão e confiabilidade são fatores centrais. Por isso, a abordagem da Daten parte do entendimento de que a IABox é a infraestrutura que viabiliza o uso de aplicações analíticas na ponta, enquanto a aderência e o desempenho final dependem da solução de IA escolhida para cada cenário e da forma como ela é implementada, validada e homologada.
A vantagem da IABox, nesse contexto, é permitir que essas aplicações operem mais perto do ponto de coleta, com mais agilidade e aderência à realidade do campo, apoiando os agentes com alertas e análises em tempo real. Ou seja, a tecnologia não substitui o critério operacional, já que ela fortalece a capacidade de resposta com mais informação, mais contexto e mais rapidez.
Esse modelo permite que cada projeto seja estruturado conforme a criticidade da aplicação, o ambiente de uso e os requisitos operacionais, o que é fundamental quando se fala em segurança e defesa.
- Considerando o aumento da superfície de ataque em sistemas distribuídos, como a IABox trata cibersegurança e proteção de dados sensíveis em campo?
A cibersegurança, nesse tipo de solução, precisa ser tratada de forma integrada entre hardware, software embarcado e desenho da aplicação. No caso da IABox, há um ganho importante no próprio conceito da arquitetura, que permite processamento local, reduzindo a dependência do envio contínuo de dados para estruturas centralizadas e contribuindo para mais autonomia operacional e para uma abordagem mais aderente à proteção de informações em campo.
Ao mesmo tempo, por ser uma solução agnóstica em relação ao software de IA, a camada de segurança também pode ser estruturada de acordo com os requisitos específicos de cada projeto, da aplicação escolhida e do ambiente de missão. Isso permite maior flexibilidade para atender contextos distintos de segurança pública, defesa e operações críticas.
A IABox oferece a base tecnológica para uma operação mais resiliente e robusta, enquanto as políticas e camadas complementares de proteção são definidas conforme o nível de criticidade e a arquitetura de cada implantação.
- A descentralização do processamento impacta diretamente a cadeia de comando e controle. Como essa tecnologia se integra às doutrinas atuais de C2 (Command and Control)?
A descentralização do processamento amplia significativamente a capacidade de atuação na ponta sem romper com a lógica de comando e controle. A IABox fortalece os níveis operacionais com mais inteligência local, permitindo que alertas, análises e respostas sejam gerados mais perto da ocorrência.
Isso torna o fluxo decisório mais ágil e melhora a qualidade da informação que chega às estruturas de coordenação, especialmente em operações móveis, distribuídas ou realizadas em áreas com restrições de conectividade. Em vez de concentrar toda a inteligência em um único ponto, a tecnologia distribui capacidade analítica, preservando a articulação com os centros de comando.
Assim, a integração com C2 acontece como um reforço à consciência situacional e à capacidade de resposta, com mais autonomia e continuidade operacional.
- A IABox sinaliza uma tendência mais ampla de nacionalização de tecnologias críticas. Qual é o papel da indústria brasileira nesse novo cenário de soberania digital e defesa tecnológica?
A nacionalização de tecnologias críticas tem um papel estratégico porque combina soberania, previsibilidade e democratização de acesso. Quando a indústria brasileira desenvolve e fabrica soluções localmente, reduz-se a dependência de cadeias externas, de oscilações cambiais e de fornecedores que podem, em contextos geopolíticos instáveis, deixar de atender o país ou impor restrições tecnológicas.
Isso é particularmente relevante em segurança e defesa, mas não apenas nesses setores. A existência de uma base industrial nacional fortalece a autonomia tecnológica do país e amplia a possibilidade de disseminar soluções com melhor relação entre custo e benefício para diferentes aplicações operacionais.
Além disso, há um componente claro de soberania digital. Quando tecnologias críticas dependem integralmente de terceiros, existe sempre o risco de interrupção de fornecimento, de perda de controle sobre componentes estratégicos e até de vulnerabilidades associadas a partes da tecnologia que não estão sob domínio nacional. Por isso, o fortalecimento da indústria brasileira nesse campo é decisivo para construir um ecossistema mais seguro, mais resiliente e mais preparado para os desafios contemporâneos.
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