Divagando sobre fatos

Maynard Marques de Santa Rosa
Gen Ex Reserva
Abril 2026

O ritmo da mudança representa, para as gerações mais velhas, um desafio inaudito. O contato pessoal escasseia e, com ele, fragilizam-se as amizades. Visitas de cortesia, que alimentavam o espírito, pertencem ao passado. A carta manuscrita, que trocava sentimentos e opiniões, virou digitação eletrônica, fria e breve. E o cartão postal, onde o viajante registrava lembrança e apreço, simplesmente, sumiu.

A azáfama tecnológica criou o delírio das redes e relativizou valores morais e de conduta milenares que garantiam o equilíbrio social. Jovens passaram a projetar, compulsivamente, a própria imagem nas redes, sem o apoio da consciência. Até leis básicas da natureza são hoje denegadas para atender a vontades excêntricas. A etimologia foi falseada, a ponto de transformar sexo em gênero, para forçar o senso comum a aceitar variantes sociais do homem e da mulher.

Atualmente, quem não observa os fatos para discernir a verdade termina aspirado pelo turbilhão. Se a pessoa evita o entrechoque para se proteger, periga migrar da realidade para as bolhas virtuais que já infestam a sociedade, alastrando a esquizofrenia coletiva. Aos que vivem sem ideais, a esperança cede lugar ao desencanto e à fuga.

No Brasil, a metamorfose corrompeu, sobretudo, as instituições do Estado. O Supremo Tribunal Federal investiga, acusa, julga e condena os inimigos do sistema com sentenças irrecorríveis, como faziam as troikas de Beria e em linha com a declaração de um ministro militante: “Sigo as orientações de Lenin”. A Procuradoria Geral da República fecha os “olhos de ver e ouvidos de ouvir”, quando se trata de investigar aliados.

Por sorte, resta o aleatório da sincronicidade, que Jung chamava de efeito “acausal”, isto é, sem causa conhecida, a produzir fatos inteligentes que transcendem a percepção humana e alteram a ordem das coisas. O caso do banco “Master” escancarou a simbiose de interesses inconfessáveis da elite governante. Imaginando-se intocáveis, justiceiros e políticos mergulharam nas facilidades do dinheiro.

A opinião pública a tudo acompanha, inerte e perplexa. Os guardiões da lei e da ordem acautelam-se no aguardo, não se sabe de que. E o drama da vida real continua a desenrolar-se ao sabor do inesperado.
Ante a indiferença, é justo lembrar a memória tristemente célebre de Pôncio Pilatos, que marcou a História para sempre, por sua omissão perante a injustiça.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter