Operação Tigre : quando o F-16 pousou no Brasil — e as lições que voltam ao debate três décadas depois

Nelson During
Editor-Chefe – DefesaNet

Fotos e Pesquisa Revista Code One da Lockheed Martin

Em março de 1997, a Operação Tigre III marcou um dos momentos mais relevantes da cooperação aérea entre Brasil e Estados Unidos na década de 90. Caças F-16A/B Fighting Falcon do 93 Fighter Squadron da US Air Force Reserve, baseado em Homestead, Florida vieram ao país para exercícios conjuntos com a Força Aérea Brasileira, em um intercâmbio que ultrapassou o treinamento tático e deixou legado técnico, doutrinário e estratégico. As ações ocorreram pela primeira vez no sul do Brasil precisamente na Base Aérea de Santa MariaNa Tigre de 1996 a unidade que visitou o Brasil foi o epicentro operacional tenha sido a Base Aérea de Natal (RN), os reflexos da operação alcançaram diferentes unidades da FAB, incluindo esquadrões do Sul do país, num período em que a aviação de caça brasileira vivia transição e modernização.

A Operação Tigre II teve como foco principal o treinamento realista de combate, envolvendo missões ar-ar — tanto em dogfight quanto em interceptações além do alcance visual (BVR) —, missões ar-solo, integração de procedimentos operacionais e troca de experiências em defesa aérea. Os norte-americanos trouxeram F-16A Block 15 ADF do 198th Fighter Squadron, versão especializada para defesa aérea. O F-16 ADF (Air Defense Fighter) havia sido adaptado para missões de interceptação no espaço aéreo dos EUA, incorporando radar otimizado e capacidade de emprego do míssil AIM-7 Sparrow além do alcance visual. Para a FAB, que operava majoritariamente F-5E Tiger II e Mirage III na época, o contato com uma plataforma já integrada a conceitos BVR e datalink representou um salto qualitativo significativo.

Do lado brasileiro, participaram ativamente F-5E Tiger II da Base Aérea de Santa Cruz e do 1º/14º GAv (Esquadrão Pampa), sediado na Base Aérea de Canoas. O intercâmbio não foi apenas tático, mas também cultural e técnico. Procedimentos de scramble, controle por radar, gestão do espaço aéreo e integração com controle terrestre foram exercitados em elevado grau de realismo. Naquele momento, o F-5 era o principal vetor de defesa aérea da FAB, e o confronto simulado com o F-16 ADF permitiu avaliar diferenças claras em capacidade BVR, consciência situacional, desempenho de radar e integração entre armamento e sensores. Foi um exercício que expôs lacunas, mas também revelou oportunidades e caminhos para modernização.

Os anos 90 foram um período de redefinição para a aviação de caça brasileira. Enquanto Santa Maria se preparava para a consolidação da operação do AMX, Canoas reafirmava sua importância estratégica na defesa aérea do Cone Sul. Embora os F-16 não tenham operado permanentemente em Santa Maria, sua presença no país marcou simbolicamente o debate sobre o futuro da caça brasileira. O F-16 representava, naquele contexto, uma plataforma multirole consolidada, com capacidade BVR madura, ampla cadeia logística e extensa base internacional de operadores.

Trinta anos depois, o debate retorna com força. A FAB estuda a possibilidade de adquirir F-16 usados para complementar sua frota. Durante anos, argumentou-se que o F-16 apresentaria problemas de FOD (Foreign Object Damage) nas pistas brasileiras devido à sua entrada de ar baixa e sensível a detritos. Essa justificativa foi frequentemente citada como obstáculo técnico à adoção da aeronave. Hoje, porém, o contexto é outro. Operações internacionais demonstram o F-16 atuando em ambientes austeros, procedimentos modernos de manutenção e controle de pista mitigam riscos, e a própria FAB já opera o Saab JAS 39 Gripen, que exige padrões igualmente rigorosos de infraestrutura. Se o FOD era um impeditivo absoluto no passado, por que agora se tornou administrável? A resposta parece residir menos na técnica e mais na conjuntura estratégica e orçamentária.

Uma operação de recolher possíveis objetos qu epossam danifricar as aeronaves: tanto os pneus como ser ingerido pelas turbinas ou arremessado por uma hélice. Base Aérea Canoas ano 2023 Foto DefesaNet

A possível aquisição de F-16 usados levanta questões centrais: será uma solução interina ou complementar? Como integrar uma logística paralela à do Gripen? Qual o impacto na padronização da frota? Qual será o custo real de ciclo de vida dessas aeronaves? O F-16 continua sendo uma plataforma relevante, especialmente nas versões modernizadas MLU, mas a decisão vai além do desempenho operacional. Ela envolve coerência industrial, planejamento de longo prazo e visão estratégica.

O legado da Tigre II permanece vivo. O exercício expôs a FAB a conceitos BVR avançados, elevou o nível de interoperabilidade e antecipou discussões sobre modernização que continuam atuais. Inseriu também o F-16 no imaginário estratégico brasileiro. Três décadas depois, o nome Fighting Falcon retorna ao debate nacional — não mais como visitante temporário, mas como possível solução de frota. A história, por vezes, não se repete, mas rima. E a Tigre II continua ecoando nas decisões que a FAB precisa tomar agora, sobretudo diante da necessidade de substituir os AMX e os já cansados F-5 Tiger II.

Caças F-16A Fighting Falcon do 93 Fighter Squadron da US Air Force Reserve, baseado em Homestead, Florida, AMX de Santa Maria e o F-5E do 1º/14º GAv Esuqadrão Pampa Foto Code One

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