Gen Pinto Silva – A Crise do Multilateramismo e a nova Forma de Guerra na Defesa dos Iinteresses de um ESTADO

A CRISE DO MULTILATERALISMO E A NOVA FORMA DE GUERRA NA DEFESA DOS INTERESSES DE UM ESTADO

Em 2026, a política de Donald Trump para os países da América do Sul é guiada por uma reedição agressiva da Doutrina Monroe, focada em reafirmar o domínio dos EUA no Hemisfério Ocidental.[1]

                                                                                    Pinto Silva Carlos Alberto [2]

1. GENERALIDADES

A dicotomia “guerra e paz” se substitui por outra, mais abrangente: “violência e paz”.

Os países se movem em função de seus interesses e alcançam o sucesso de acordo com sua capacidade e vontade de exercer o poder.

Nas relações internacionais, a função do poder é fazer prevalecer o interesse nacional de um Estado sobre o dos outros.

As principais causas dos conflitos na atualidade são econômicas, ganhando, assim, força a geoeconomia, que enfatiza o uso do poder econômico como instrumento de política nacional.

O sucesso ou fracasso de um Estado, não Potência mundial, como o Brasil, ainda depende de sua habilidade em fortalecer alianças e conquistar novos amigos,  bem como de líderes capazes de convencer os poderes constituídos e a sociedade da demanda de se aumentar a capacidade e vontade de exercer poder dentro das exigências estratégicas para a Segurança, Defesa, e proteção da sociedade brasileira, no mundo conturbado da Guerra de Nova Geração[3].  

2. CIRCUNSTÂNCIAS DE UM MOMENTO

2.1. O MULTILATERALISMO EM CRISE

A dificuldade de articular uma ação coletiva global para lidar com a crise na defesa dos interesses das principais Potências puseram em xeque a legitimidade e a eficácia de instrumentos coletivos.

O cerne da crise de legitimidade do multilateralismo tem origem em uma inadequação do arcabouço institucional liberal-ocidental pós-Segunda Guerra Mundial frente aos novos polos de poder e a uma crescente diversidade identitária e ideológica  surgida, difundida e desenvolvida, que se interpõe na atualidade.

A competição entre grandes potências e a emergência de novos polos de poder estão entre as dificuldades que se apresentam atualmente.

Pode-se observar que Samuel Huntington, quando escreveu “The Lonely Superpower” (A superpotência Solitária) – 1999, entendeu que, a dissolução da União Soviética, ainda não apontava de forma mais nítida para a possibilidade de uma nova ordem bipolar.

Para ele, viveríamos em sistema híbrido, que rotulou de “uni-multipolar”: uma superpotência dividiria espaço com várias potências que, se não lhe são comparáveis, nem por isso deixariam de cumprir funções relevantes para a configuração do sistema. Huntington elegeu para sua lista: o “condomínio Franco germânico”, na Europa; a Rússia, na Eurásia; a China e potencialmente o Japão, no leste asiático; a Índia, no sul asiático; o Irã, no sudoeste asiático; o Brasil, na América Latina; e a África do Sul e a Nigéria, na África.

2.2. DEFINIÇÕES E ENTENDIMENTOS

Ameaças contemporâneas emergentes e um tanto indeterminadas, muitas das quais ficam aquém do início do historicamente considerado como “guerra”, têm sido denominadas como “Guerra de Nova Geração” (Rússia) ou “Guerra Híbrida” (EUA e OTAN), ‘’Guerra Além dos Limites ou Irrestrita” (China) e “Competição na Zona Cinza” (Vários países).

 A falta de uma designação comum permite que diversos países escolham aquela que se adapte à sua visão de mundo ou missão de defesa de sua soberania. Isso permite a justificação de noções preconcebidas e, o que é mais importante, limita nosso entendimento das ameaças reais. Na tentativa de contornar esse desafio, apresentamos as seguintes percepções.

2.2.1 AS AMEAÇAS GLOBAIS, NA ATUAL CONJUNTURA SE ALTERANDO CELEREMENTE

Guerra cibernética; guerra da informação; guerra psicológica e operações clandestinas; influência e interferência em eleições; armas de destruição em massa e sua proliferação; terrorismo, contra inteligência e tecnologias destrutivas; ameaças à competitividade econômica; e crimes transnacionais são apenas alguns dos recursos largamente empregados ou que poderão ser empregados, de modo conjugado, como alternativas não militares, visando a complementar, apoiar, ampliar e, sobretudo, a evitar uma confrontação formal, e a desgastar as forças políticas, econômicas, sociais, informação militar, e a infraestrutura de comando e controle de forças opositoras.

2.2.2 ENTEDIMENTOS  INDISPENSÁVEIS E INEVITÁVEIS

Partimos do conceito de que guerra e paz, na atual conjuntura, são parte do mesmo fluxo das relações internacionais.

O mundo, atualmente, está em um estado de luta incessante, a paz é relativa, não há inimigos e sim estados com ações hostis em defesa dos seus interesses.

Os atores vivem, portanto, com a “Guerra de Nova Geração” (Rússia) ou “Guerra Híbrida” (EUA e OTAN), ‘’Guerra Além dos Limites ou Irrestrita” (China) e “Competição na Zona Cinza” (Vários países). Guerra que muitos chamam de Quinta Geração.

É um novo campo de batalha, de modo que é preciso afastar o foco do conflito do domínio da arte da guerra convencional e isso pode ser feito ampliando o espectro do conflito, para incluir vários elementos do poder nacional.[4]

A situação vivida na atual conjuntura brasileira é de uma Guerra Política Permanente[5]e informacional[6], isto é, o uso de todos os meios de disponíveis de uma nação para alcançar objetivos nacionais sem entrar em guerra. “Não há inimigo e sim estados com ações hostis em defesa dos seus interesses.[7]

Conflito na “Zona Cinza[8] que caracteriza por uma intensa competição política, econômica, informacional e militar, mais acirrada que a diplomacia tradicional, porém inferior à guerra convencional.

2.2.3 O “REALISMO DO BRASIL

O Brasil é um ator regional que na política e na economia já atingiu uma influência global.

A principal preocupação estratégica do Brasil é, inexoravelmente, relacionada à economia. A capacidade interna do país de conseguir realizar as mudanças estruturais necessárias e o crescimento econômico permitirão o aumento de dois dos padrões de Poder, o Econômico e o Militar (esse havendo vontade política).

A Amazonia; o agronegócio; as reservas minerais, petrolíferas e de água doce; a disponibilidade de áreas agricultáveis; o clima; e a EMBRAER com centena de seus aviões voando em vários países, entre outros indicadores, mostram ao mundo desenvolvido um país pujante.

O surgimento de uma potência regional emergente, como o Brasil, é sempre um fator de desestabilização, insatisfação e reação do sistema mundial, porque sua ascensão ameaça o monopólio das potências estabelecidas.

A política energética, a produção petrolífera, os aquíferos, o comércio do agronegócio e as questões ambientais, por sua vez, incomodam outros Estados.

O Brasil, pelas vantagens geopolíticas e recursos que possui, poderá, ainda, vir a deslocar alguém do assento à roda de seleta mesa da política internacional.

4. CONCLUSÃO

Deve-se ter, portanto, a percepção que existe razões que poderão levar um Estado a desenvolver atividades contra o Brasil, por entender que o nosso país está realizando ações e atos que contrariam seus interesses, bem como, que ações poderão ser desenvolvidas por atores sem vínculos com países, inclusive por nacionais, para desestabilização e a degradação da máquina do Estado (Atividade não cinética de Soft Power), visando à conquista do poder.

A capacidade de escalar um modelo que primeiro busca alcançar seus objetivos políticos através de ações encobertas e a“Guerra de Nova Geração” (Rússia) ou “Guerra Híbrida” (EUA e OTAN), ‘’Guerra Além dos Limites ou Irrestrita” (China) e “Competição na Zona Cinza” (Vários países)fornecem um modelo de sucesso para as nações imitarem. Nações com meios comparáveis na busca de objetivos limitados provavelmente verão as abordagens como um exemplo de operar agressivamente sem provocar uma grande resposta internacional do ponto de vista militar, são novidades com potencial de atrair e estimular adversários e competidores.


[1] O seu pensamento consistia em três pontos: a não criação de novas colônias na América; a não intervenção nos assuntos internos dos países americanos; a não intervenção dos Estados Unidos em conflitos relacionados aos países europeus como guerras entre estes países e suas colônias.

[2] Carlos Alberto Pinto Silva / General de Exército da reserva / Ex-comandante do Comando Militar do Oeste, do Comando Militar do Sul, do Comando de Operações Terrestres, Ex-comandante do 2º BIS e da 17ª Bda Inf Sl, Chefe do EM do CMA, Membro da Academia de Defesa.

[3] “Guerra de Nova Geração, USA – Guerra Híbrida, Rússia – Guerra Irrestrita, China

[4] Significa que todos os meios estarão em prontidão, que a todos a informação estará onipresente e o campo de batalha será em todo o lugar. (extraído de: Gen E Pinto Silva – Guerra de nova Geração. Brasil e a Paz Relativa na Guerra Política Permanente – Defesanet”).

[5] O termo “Permanente”, por sua vez, não possui relação direta com a duração das guerras. Diz respeito, na verdade, à condição assumida pelo Estado de que qualquer ação de política externa, em defesa de interesses nacionais, é um “conflito na zona cinza

[6] Guerra de Narrativas.

[7]  (“A Defesa do Estado na Guerra Política Moderna – Defesanet”)

[8] De acordo com Hal Brands “é uma atividade coercitiva e agressiva por natureza, mas deliberadamente concebida para permanecer abaixo dos limites de um conflito militar convencional”

Nota DefesaNet

O Gen Ex Pinto Silva publicou uma extensa série de relevantes artigos sobre a Arte Militar, que podem ser acessados no link de busca https://www.defesanet.com.br/?s=pinto+silva

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