27 de Julho, 2014 - 19:00 ( Brasília )

Tecnologia

Iron Dome - Análise Performance

Especialista do MIT analisa a performance do Iron Dome contra os foguetes lançados pelo Hamas


 David Talbot – MIT Technology Review
Pesquisa, tradução e edição: Nicholle Murmel


 

Nota DefesaNet,

Publicaremos uma análise das implicações Estratégicas e Operacionais das limitações do Iron Dome e também dos desafios propostos pelo Hamas.

O editor

 
Ainda que o Iron Dome, sistema antimísseis israelense financiado pelos Estados Unidos, pareça interceptar com sucesso os foguetes lançados por extremistas do Hamas, o escudo certamente está falhando no aspecto crucial de neutralizar a parte frontal dos armamentos, carregada de estilhaços que aumentam ainda mais os riscos para os civis.
 
Como resultado, foguetes disparados a partir de Gaza provavelmente estão chegando ao solo com explosivos intactos. O fato de não causarem mortes ou ferimentos em Tel Aviv, Jerusalém e outras cidades é basicamente questão de sorte. Na última sexta-feira (25JUL14), as Forças de Defesa de Israel (IDF) comunicaram que o Iron Dome interceptou 15 foguetes, dos 63 lançados de Gaza, evitando ataques a vários centros urbanos. Cerca de 47 atingiram áreas de Israel, porém sem população. Ainda assim, Richard Lloyd, consultor e especialista em armamentos da Raytheon Integrated Defense Systems, afirma que o sistema é falho, justamente porque as interceptações não destroem os foguetes por completo.
 

 

Dados contabilizados para o dia 25 de Julho de 2014 -Dia 17 da Operação Preotective Edge e  7º Dia da Fase Terrestre. Fonte IDF Spokeperson

O Iron Dome - desenvolvido para atingir alvos a dezenas de quilômetros por hora do ponto de lançamento ao local estimado de impacto - é um primo menor do Patriot americano, que por sua vez busca abater alvos com alcance maior, mais velozes. O equipamento usado por Israel dispara mísseis interceptadores de 160mm e três metros de comprimento que utilizam sensores de orientação em tempo real para abater os foguetes inimigos em voo. Em tese, quando o míssil do Iron Dome  alcança o alvo, o sensor de proximidade é ativado, detonando o carga explosiva e liberando centenas de fragmentos de metal, que devem acertar e destruir o foguete inimigo.


Ted Postol, físico vinculado ao  Massachusetts Institute of Technology (MIT)  e especialista em defesa antimísseis que auxiliou Lloyd em sua análise, concorda que as interceptações feitas pelo Iron Dome foram mal sucedidas nesse aspecto crítico de detonação dos foguetes. Em 1991, Postol derrubou as alegações do Exército americano de que o sistema Patriot abateu com sucesso mísseis iraquianos Scud durante a primeira Guerra do Golfo. Postol vinha apoiando o Iron Dome depois dos relatórios acerca da performance do sistema contra ataques de foguetes em 2012.

Porém, o especialista diz que  avaliações seguintes do equipamento mostraram que seu sistema de orientação tinha comportamento errático. Em vez de subir constantemente até encontrar o alvo, os interceptadores faziam curvas fechadas e abruptas, e engajavam os alvos por trás ou pelas laterais. Esses problemas permanecem, segundo Postol. “Esperávamos que depois de mais de um ano e meio, quaisquer problemas ligados à orientação e controle do sistema teriam sido mitigados”, explica. “Mas ao que parece, não é o caso. Até onde sabemos [o Iron Dome] tem o mesmo comportamento errático que tinha em 2012”.

Os interceptadores do Iron Dome precisam atingir os foguetes de frente para detonar os explosivos e eliminar os estilhaços, explica Lloyd. Uma análise visual preliminar dos impactos feitos pelo sistema nos últimos dias mostra que as intercptações ocorrem pelas laterais ou vindo de trás dos alvos, o que resulta em “quase zero de chance de detonação dos foguetes, tomando por base os fundamentos físicos que regem esse tipo de engajamento”, atesta o analista. Em 2012, os foguetes disparados pelo Hamas tinham alcance de até 75 quilômetros, mas os modelos atuais adquiridos pelo grupo via contrabando conseguem cobrir até o dobro dessa distância.

As brechas na Cúpula de Ferro
 
No último dia 15 de Julho, o portal Techonolgy Review, do Instituto Tecnológico de Massachussets, publicou um parecer minucioso elaborado pelo físico do MIT, Ted Postol, apontando como exatamente o sistema antimísseis israelense se comporta desde o lançamento até o momento em que deve neutralizar os foguetes do Hamas, e qual a eficiência real dessa Cúpula de Ferro.
 
No cenário ideal, o sistema de orientação a laser do Iron Dome, localizado cerca de um metro antes da carga útil do míssil, aponta um feixe de luz para o que deve ser a ogiva do foguete a ser abatido. Esse espaço entre os dispositivos permite estimar quando a frente do foguete irá cruzar a seção de carga útil do interceptador, para que a detonação e liberação dos fragmentos seja perpendicular no momento da passagem e atinja a parte frontal do alvo.



Arte de uma interceptação do míssel do Iron Dome contra um foguete do Hamas.



Efeito dos fragmentos do míssel do Iron Dome em um foguete do Hamas.

 
Postol atribui a destruição incompleta dos foguetes do Hamas a atrasos no sistema de orientação a laser, que deve calcular a detonação da carga útil com base na velocidade com que o alvo se aproxima do interceptador. Quanto mais preciso esse cálculo, maiores as chances de a cortina de fragmentos barrar o alvo pela frente. Conforme os diagramas apresentados, pequenos atrasos ou adiantamentos nesse cálculo de velocidade reduzem drasticamente a eficiência na interceptação, mesmo que ela aconteça frontalmente. Outro fator citado pelo analista é a proximidade entre o míssil do Iron Dome e o foguete - caso seja mais do que cerca de um metro no momento do encontro, as chances de os estilhaços penetrarem o foguete e detonarem as cargas explosivas também diminuem.
 
Segundo esses dados, a interceptação ideal é mais difícil do que parece.  O físico do MIT explica como o engajamento frontal é facilmente suscetível a alterações de trajetória. Se o interceptador se aproximar ao foguete com algum grau de inclinação, por menor que seja, a precisão é comprometida gravemente e ocorrem as interceptações, que derrubam os foguetes, mas mantêm a carga explosiva deste intacta e capaz de causar danos e mortes caso atinja áreas povoadas.
 
Para além do sistema de orientação no próprio interceptador, Postol chama atenção para possíveis falhas no sistema de orientação principal no painel de controle do Iron Dome, que deveria colocar o míssil na posição mais adequada possível para o interceptador calcular a trajetória do foguete inimigo e o engajamento a partir daí.
 
Após demonstrar como alterações mínimas no cenário ideal diminuem a letalidade do sistema antimísseis, Postol então demonstra como o Iron Dome intercepta realmente os foguetes que partem de Gaza.
 
Os diagramas propostos pelo especialista mostram as trajetórias reais, em que os mísseis chegam aos foguetes pelos lados ou atrás. O analista mostra as graves consequências  desse tipo de interceptação. Primeiro, o laser de orientação do míssil engaja o foguete, mas não consegue determinar onde está a ogiva. Em segundo, ainda que, por acaso, a carga útil do Iron Dome detone e a dispersão de fragmentos englobe a ogiva do foguete, a distância ainda será grande demais, e poucos desses fragmentos chegarão efetivamente aos explosivos. E uma vez que a carga útil dos interceptadores é pequena, há ainda a chance de que nenhum dos fragmentos chegue à ogiva.
 

 


Nas duas artes acima interceptações típicas do Iron Dome,
mas que não geram destruição da carga explosiva do foguete.

 

Com esses dados, Postol dá o parecer contundente de que, em termos práticos, o Iron Dome é incapaz de neutralizar a carga explosiva dos foguetes disparados pelo Hamas.
 
Então porque os danos não são maiores?
 
Se o Iron Dome está falhando sistematicamente em destruir a seção mais perigosa dos foguetes do Hamas, então por que os danos e mortes relatados no lado israelense são tão poucos? Postol compara a situação atual com a do sistema Patriot contra os mísseis SCUD na primeira Guerra do Golfo, em 1991.
 
Na época, os danos foram relativamente pequenos porque relativamente poucos mísseis foram disparados contra Israel - cerca de 40. Além disso, as ogivas dos SCUD eram maiores e mais fáceis de serem interceptadas pelo Patriot. E mesmo nos vários casos em que as cargas explosivas chegaram ao solo, o impactou foi em áreas abertas, ou a defesa civil das regiões urbanas atingidas tomou medidas para proteger a população.
 
No caso dos foguetes do Hamas, o físico analisa imagens de impactos em solo israelense registrados entre julho de 2012 e julho deste ano. Mesmo quando os foguetes atingiram edifícios, as imagens mostram danos bem localizados. Isso não significa que pessoas não seriam feridas ou mortas caso estivessem próximas demais da explosão, mas as imagens deixam claro que a carga explosiva dos foguetes não é potente o bastante para causar danos e mortes desde que a população esteja devidamente abrigada. (figuras 15 e 16)
 
Já os resultados dos bombardeios a Gaza, mostrados nas figuras, é dramático. Postol estima a potência das bombas usadas por Israel entre 500 e 1000 kgs. Nesse caso, as tentativas de proteger a população são quase inócuas, já que poucos abrigos na região suportam danos desse porte.
 
A conclusão é de que, diante do tamanho reduzido da carga explosiva dos foguetes do Hamas, a capacidade do serviço público israelense avisar as populações da aproximação dessas pequenas ameaças se mostra um mecanismo de defesa muito mais eficiente que o Iron Dome.

 

 

  Restos de um foguete, que caiu em área desabitada

 

Nota DefesaNet

Era Outubro de 1991, exposição da Association US Army, mais conhecida como AUSA, em Washington DC. O editor de DefesaNet,  então um pesquisador  na área militar é recebido pelo Dr João Verdi, Fundador e Presidente da AVIBRAS, no seu stand.

Na oportunidade Dr Verdi explanou para o Editor o que o pesquisador Postol relata acima. A dificuldade tecnológica e prática da interceptação dos mísseis táticos SCUD. Praticamente nenhum impacto direto e a própria dinâmica de voo com as brutais acelerações e perfil de voo levavam à desintegração do SCUD. Assim o que era “interceptado”muitas vezes eram eram fragmentos em queda..

Uma aula de extrema validade mesmo passados 23 anos. Assuntos para serem analisados dentro  do Projeto Estratégico do Exército Defesa Antiaérea (PEE DA)

O editor


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RAFAEL - Iron Dome - 2013 Link


"Iron Dome", o sistema antimísseis de Israel  AFP 2012 Link