07 de Janeiro, 2015 - 18:30 ( Brasília )

Pensamento

A visão geopolítica de Alfred Thayer Mahan

Passados cem anos, os pontos de vista do estrategista americano continuam a ter relevância extraordinária nos dias de hoje

Por Francis P. Sempa – Texto do the Diplomat

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel


O dia 1º de dezembro de 2014 marcou os 100 anos de morte de Alfred Thayer Mahan, famoso historiador naval, estrategista e teórico da geopolítica. Infelizmente a data passou despercebida. A partir dos anos 1890 e ao longo de mais de duas décadas, Mahan, a partir de sua cadeira na Naval War College em Newport, estado de Rhode Island, escreveu 20 livros e centenas de artigos em um esforço para educar o povo americano e seus líderes acerca da importância da História e da geografia para o estudo e prática das relações internacionais.

Seu entendimento da natureza anárquica da política internacional, da importâcia da geografia para o equilíbrio global de poder, do papel do poder naval na política de segurança nacional, e de como a História pode iluminar questões da geopolítica contemporânea permanece relevante para o mundo do século 21.

Mahan, filho de Dennis Hart Mahan, instructor de West Point, nasceu em 1840, se formou na U.S. Naval Academy em 1859, serviu na Marinha da União durante a Guerra de Secessão, e a partir daí serviu em diversos navios e cenários, até achar seu destino final na Naval War College. Em 1883, ele escreveu seu primeiro livro,The Gulf and Inland Waters, um estudo sobre os combates navais durante a Secessão.

Porém, foi seu segundo livro, The Influence of Sea Power Upon History 1660-1783 (1890), que lhe trouxe atenção e reconhecimento nacional. O volume, baseado principalmente nas aulas de Mahan na Naval War College, se tornou uma “bíblia” para muitas Marinhas pelo mundo. O Kaiser Wilhelm II teria ordenado que cada navio de guerra alemão tivesse uma cópia do livro a bordo.

Em suas memórias, From Sail to Steam, Mahan atribui à leitura dos seis volumes de History of Rome, de Theodore Mommsen, sua percepção do poder marítimo como peça-chave para a relevância global de uma nação. Em The Influence of Sea Power Upon History, o estrategista revê o papel da força naval no surgimento e crescimento do Império Britânico. No primeiro capítulo do livro, ele descreve o mar como “grande via” e “vasto espaço comum” com “rotas de comércio bem conhecidas e estabelecidas”, sobre as quais os homens passam em todas as direções. Mahan identificou diversas passagens estreitas ou “gargalos” estratégicos, cujo controle deu à Grã-Bretanha o comando dos mares.

É famosa também a sua lista dos seis elementos fundamentais da supremacia naval – posição geográfica, formação física, extensão territorial, tamanho da população, caráter do povo e caráter do governo. Baseando-se fortemente nesses seis aspectos, Mahan visualizou os Estados Unidos como o sucessor geopolítico do Império Britânico.

Oito anos antes da Guerra hispano-americana que resultou nos EUA como potência com protetorados além-mar, Mahan escreveu um artigo na Atlantic Monthly chamado “The United States Looking Outward,” (1890), no qual ele apelava às lideranças nacionais que reconhecessem que a segurança e os interesses do país eram afetados pelo equilíbrio de poder na Europa e na Ásia.

O estrategista compreendia que os EUA, como a Grã-Bretanha, era, em termos geopolíticos, uma ilha à margem da massa continental da Eurásia, onde a segurança poderia ser ameaçada por uma potência hostil ou aliança entre potências que adquirissem controle político sobre centros de poder no megacontinente. Em seu famoso texto The Influence of Sea Power upon the French Revolution and Empire, Mahan escreveu que a Marinha britânica (“aqueles navios ao longe, castigados pelas tempestades”), foram o que separou Napoleão da dominação mundial.

Essa era uma visão geopolítica profunda, baseada no entendimento do impacto da geografia na História. Em textos posteriores, Mahan revisou os movimentos sucessivos dos Habsburgos da Espanha e da Áustria, da França de Luís XIV, da França revolucionária e depois napoleônica rumo à hgemonia na Europa, e as grandes coalizões, apoiadas por poder marítimo, que conseguiram suprimir essas campanhas.

Em artigos e livros seguintes, Mahan também visualizou com precisão os conflitos geopolíticos dos séculos 20 e 21. Em The Interest of America in International Conditions (1910), o autor previu a então emergente Primeira Guerra, reconhecendo que a posição da Alemanha no centro da Europa, seu poder militar e industrial incontestável, e sua busca por supremacia naval seriam uma ameaça à Grã-Bretanha e, por fim, aos Estados Unidos.

Ele avisava: “uma Marinha alemã, suprema com a queda da Gra-Bretanha, e com um Exército supremo, capaz de mobilizar grandes forças expedicionárias para operações além-mar, são uma das possibilidades para o futuro”. Mahan continuava, afirmando que “a rivalidade entre a Alemanha e o Reino Unido hoje é um ponto perigoso não apenas para a política europeia, mas para a política global”, e foi assim nos 35 anos sequintes, até o fim da Segunda Guerra.

O estrategista também percebeu ainda em 1901 os contextos fundamentais do que viria a ser a Guerra Fria que surgiu das cinzas das duas guerras mundiais. Em The Problem of Asia, Mahan apelou aos estadistas que “olhassem para o mapa” da Ásia e percebessem “a vastidão ininterrupta do Império Russo... Da Ásia Menor quase até o Japão”. Ele visualizou uma Rússia expansionista que precisava ser contida por uma aliança entre Estados Unidos, Gra-Bretanha, França, Alemanha e Japão – e foi exatamente assim desde 1945 até 1991.

As previsões da Mahan não pararam por aí. Ele também preconheceu o potencial poderoso da China e previu uma época em que os EUA se preocupariam com a ascensão de Pequim. Em 1893, o autor escreveu uma carta ao editor do New York Times, na qual apontava a anexação do Havaí por Washington como um primeiro passo necessário para exercer controle sobre o norte do Pacífico.

Caso os Estados Unidos falhassem nesse esforço, Mahan advertia que “a vastidão da China... Pode ceder a um desses impulsos que, em eras passadas, enterraram civilizações sob uma onde de invasões barbáricas”. Caso a China “rompesse as barreiras em direção ao leste”, escreveu o estrategista, “seria impossível calcular as questões dependentes de um controle firme sobre as ilhas [havaianas] por parte de uma potência marítima civilizada”.

De forma semelhante, em The Problem of Asia o autor descreve um conflito futuro por poder na região da Ásia Central, chamado “debate e terreno debatível”, e identificou a “força latente imensa” da China pomo possível rival geopolítico dos EUA. Ele escreve que “é pouco desejável que uma população tão grande como a chinesa se anime com um espirito único e se mova como um só”.

Mahan sabia ainda que a cência tecnologia ocidentais seriam globalizadas em algum momento, e escreveu que sob tais circunstâncias “é difícil contemplar com indiferença a população chinesa concentrada em uma organização política efetiva, equipada com aparatos modernos e aninhada em um território já pequeno para tantas pessoas”.

E assim como a Alemanha antes da Primeira Guerra, a China no século 21 abraçou Mahan. Os professores da Naval War College, Toshi Yoshihara e James Holmes, examinaram os escritos de teóricos militares chineses contemporâneos e estrategistas em seu trabalho Chinese Naval Strategy in the 21st Century: The Turn to Mahan. No que se refere ao elemento de poder marítimo proposto pelo autor, a China se situa no coração do centro-leste da Ásia e tem um litoral aberto e vasto, uma população enorme, uma economia em crescimento, potência naval e militar em ascensãoe, ao menos por enquanto, um governo estável.

Os líderes políticos e militares em Pequim não escondem seu desejo de suplantar os Estados Unidos como potência principal da região da Ásia-Pacífico. Sob essas circunstâncias, a China ter abraçado o pensamento de Mahan é motivo suficiente para que os americanos de tornem novamente familiares com as teorias desse grande pensador estratégico.