11 de Março, 2014 - 11:25 ( Brasília )

Pensamento

Combater a maré vermelha da doença


Tarcísio Takashi Muta*

O atual retrato da saúde brasileira tem raras identidades em relação a 1988, quando a Constituição lançou as bases do SUS, o modelo público de atendimento universal administrado e mantido em conjunto pelos cofres federal, estaduais e municipais.

A expectativa de vida cresceu oito anos; água encanada e vacinas derrubaram a mortalidade para menos de 5%; a mortalidade infantil caiu 50% desde 1990. Do lado negativo, doenças crônicasou degenerativas que impõem procedimentos médicos dispendiosos já respondem por 73% das internações hospitalares cobertas pelo SUS.

Também é fato a expansão acelerada da população com mais de 65 anos, com 1 milhão a mais todo ano, numa demanda crescente por verbas na saúde e quetende a subirem proporção geométrica.

É importante lembrar alguns cenários: em 2014, o gasto público direto com saúde no Brasil é estimado em R$ 215 bilhões, ou 4% do PIB;o governo central entrará com R$ 105 bilhões e os estados e municípioscom outros R$ 110 bilhões. É muito? É pouco? A média dos países emergentes, segundo a ONU, está em 2,5%, enquanto nos países desenvolvidos está em 7%.

Mas o modelo brasileiro é híbrido: pelo menos 50 milhões de pessoas, estão nas listas da saúde complementar, que mobilizará outros R$ 105 bilhões neste ano, ou 2% do PIB. No total, portanto, a verba que o País reserva a cada ano para atendimento médico [R$ 320 bilhões] está alinhada com o dispêndio dos países ricos. Portanto, dinheiro não é o problema crônico.

Vale notar também que o sistema privado de seguro saúde está distante de operar segundo riscos dos seus aderentes e funciona,de fato,como linha auxiliar do sistema público.

No debate constitucional era voz corrente que políticas de saneamento e de vacinação resolveriam grande parte dos males que afligiam a população. O que se passou revela que as causas das doenças se concentram agora na alimentação com excesso de açúcar e outros carboidratos, causadora da obesidade disseminada por todas as faixas de rendimento, assim como o tabagismo, a multiplicação dos acidentes e o envelhecimento da população.

A morte acontece na UTI, dispositivo caríssimo, cujo uso mais evidente é ode retirar pacientes terminais de casa e da família, isolando o óbito numa instalação asséptica regida por equipamentos eletrônicos.

A questão real é a mesma de sempre– saúde pública ou privada melhora somente na base da medicina preventiva e não de intervenções corretivas. Hipócrates, o fundador da medicina ocidental, já estipulava que doenças eram geradas por alimentação errada ou deficiente, origens do paciente e território. Passados 25 séculos, suas deduções sempre se confirmaram – e são reforçadas pelo fato singelo de que os remédios não curam, mas somente contemporizam.

O que impede a construção de uma saúde pública eficaz no Brasil se chama Informação confiável. Sem ela não se sustentam reflexões pertinentes e planejamento competente, condições necessárias para se implantar a Medicina Preventiva. Levantamento do Ministério da Saúde em 2007 revelou, por exemplo, 797 diferentes plataformas estatísticas em ação nos Estados e municípios brasileiros. Na imensa maioria, tais sistemas não se falam entre si: foram criados e desenvolvidos no isolamento de repartições estanques; não são sistemas de análise.

Medicina Preventiva numa nação com 200 milhões de habitantes requer informação segura. Sobre essa base, conhecimento médico e inteligência estratégica trabalham para erguer linhas de ação, melhorar a logística, medir o desempenho das medicações, acompanhar a evolução dos indivíduos, controlar o emprego dos recursos, validar a eficiência dos profissionais que agem na linha de frente e consolidar o desempenho das iniciativas adotadas. Poucos detalhes ficam de fora desse acompanhamento – daí, talvez, a relutância na implantação de tais ferramentas.

Uma coisa é inegável: na ausência da informação confiável, o Brasil somente continuará a colher os estigmas da maré vermelha da doença, mas nós, como indivíduos ou como grupos, podemos fazer a nossa parte preventiva!

 

*Fundador e Presidente da Fundação Ezute