COBERTURA ESPECIAL - Especial MOUT - Segurança

28 de Fevereiro, 2017 - 17:00 ( Brasília )

Guerra sem fim: Complexo do Alemão vive rotina de tiroteios

Em 30 dias, foram registrados 28 tiroteios

 

 

RIO - O som de tiros ecoa no Complexo do Alemão. “Calibre grosso”, afirma um morador a caminho do trabalho, na Estrada de Itararé, em Ramos, onde a favela encontra o asfalto. Cachorros latem entre um disparo e outro. Todos esperam a tensão estourar novamente, a pólvora queimar, o chumbo ser lançado. É a canção da guerra tocando no Alemão, enquanto mais de cem mil pessoas tentam seguir suas vidas.

Vinte e oito tiroteios foram registrados na região em 30 dias, segundo o Fogo Cruzado, mapa virtual da Anistia Internacional que reúne informações da polícia, da imprensa e dos próprios moradores. No penúltimo relatório semanal, de 7 a 13 de fevereiro, mais uma vez o complexo ficou em primeiro no ranking que ninguém quer liderar, com 11 tiroteios notificados em seis dias.

A semana passada foi mais tranquila. Entre os dias 14 e 20 deste mês, ainda segundo o site, não houve registro de confronto. Ontem, porém, o barulho de tiros voltou a tirar a paz dos moradores. Segundo a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), PMs foram atacados no Largo do Samba, na comunidade Nova Brasília. A esperança de paz no carnaval durou pouco.

Desde julho do ano passado, quando o Fogo Cruzado foi lançado, foram feitos registros de 191 tiroteios na área de 296 hectares (três quilômetros quadrados) onde ficam as 14 comunidades do Complexo do Alemão, uma marca insuperável na Região Metropolitana.

ESTUDANTES PERDEM AULAS

Este mês, 3 mil crianças deixaram de ir à escola por causa dos confrontos entre policiais e traficantes que eclodiram exatamente no dia de volta às aulas, 2 de fevereiro, principalmente nas localidades de Alvorada, Nova Brasília, Casinhas e Fazendinha. Eram 6h30m quando soaram as primeiras rajadas. Amanda Cristina, de 28 anos, tomava café com seus quatro filhos. Estavam empolgados para reencontrar os colegas. Acabaram ficando em casa, devido a 12 horas de fogo incessante.

— Começamos a ouvir muitos tiros, primeiro longe, depois mais perto. Meus filhos já sabem o que fazer: saem da sala e correm para o fundo do quarto, onde a gente deita no chão. Moro aqui desde que nasci. Sempre teve tiroteio, mas, agora, virou guerra de verdade, terrorismo — afirmou Amanda, que trabalha como cozinheira em um restaurante no Centro. — Meu filho de 7 anos me perguntou quando vamos embora daqui. Se houvesse uma oportunidade, já teríamos ido.

A situação se agravou nos últimos dias, quando policiais militares invadiram casas e as transformaram em bases na guerra contra os soldados do tráfico. A denúncia, feita nas redes sociais pelo Coletivo Papo Reto, grupo de comunicadores comunitários, mobilizou advogados, defensores públicos e o deputado estadual Marcelo Freixo, que foram ao Alemão na última quarta-feira para checá-la. Eles realmente encontraram PMs nas residências. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da seção Rio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Chalreo disse que pedirá ao Ministério Público estadual que investigue o caso.

Os dados do Fogo Cruzado não deixam dúvida de que a violência voltou a ser rotineira nas favelas cariocas, com ou sem UPPs. No último relatório semanal, houve 74 notificações, com 29 vítimas fatais — quase cinco por dia — e 35 feridos. Apenas no Alemão, as estatísticas indicam um baleado a cada cinco dias, e um morto a cada dez.

— O projeto de pacificação era de ocupação militar, e essa parte foi bem feita. Depois, deveria haver policiamento com outro tipo de treinamento para os PMs, uma solução diferente para melhorar a relação da polícia com a comunidade — afirmou o especialista em segurança pública Roberto Kant de Lima, doutor em antropologia pela Universidade de Harvard e professor da UFF. — Era óbvio que o resto não daria certo.

Bruno Itan, que registrou a imagem que ilustra esta reportagem, tem acompanhado os confrontos com outros integrantes do Foto Clube Alemão, grupo que recentemente expôs trabalhos em museus de Dortmund e Munique, na Alemanha. Segundo ele, “não tem nada no complexo, somente violência”.

— Com a ocupação, a gente chegou a ter uma esperança. Parecia que a situação iria mudar, eram muitas promessas, a comunidade cheia de turistas. Hoje, a cara do abandono é esse elefante branco — lamentou Bruno, referindo-se ao teleférico.

Inspirado no Metrocable de Medellín, na Colômbia, o teleférico do Alemão custou R$ 253 milhões e foi o símbolo da mudança que não veio. Começou a ser construído antes mesmo de a polícia entrar no complexo, quando o governo federal anunciou as obras do Programa de Aceleração (PAC), em 2008. Setenta e cinco cabines — com propaganda de uma grande marca de sorvetes — percorriam 2,9 quilômetros em 19 minutos, uma caminhada pelo mesmo trajeto dura até duas horas.

Um projeto tão impressionante que fez a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, sentir-se “numa estação de esqui dos Alpes” ao visitar o Alemão. Em outubro do ano passado, o consórcio Rio Teleféricos — que pertence a uma empresa comandada por Tiago Braz, filho de Aroldo Braz, ex-presidente e ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) — interrompeu o serviço, alegando falta de pagamento. Paralisou também um outro teleférico construído na cidade, na primeira favela carioca, o Morro da Providência. O governo deve R$ 11,2 milhões ao consórcio.

A crise financeira do estado atingiu em cheio o conjunto de favelas que ficou famoso quando o Brasil inteiro parou para assistir, ao vivo, uma grande fuga de traficantes da Vila Cruzeiro pela Serra da Misericórdia, numa cena ainda presente na memória dos cariocas. Com o fechamento do teleférico, serviços que funcionavam nas estações também arriaram as portas, como uma Clínica da Família que atendia 9 mil pessoas por mês e o Espaço Sesi.

Agências do Banco do Brasil, Itaú e Bradesco não existem mais. Até a Biblioteca-Parque do Alemão, também inspirada num projeto colombiano, onde moradores de todas as idades descobriram o prazer de ler em um moderno prédio de dois andares, fechou há dois meses, “sem previsão de reabertura”, de acordo com a Secretaria estadual de Cultura.

— Com a mesma mão que deu, o governo tomou — disse a universitária Daiane Mendes, de 27 anos, que publicou no jornal inglês “The Guardian”, durante a Olimpíada, relatos sobre a rotina no Alemão. — A justificativa para a polícia entrar era que, depois dela, chegariam os serviços públicos, mas só vieram empresas de TV a cabo. No começo da ocupação, as pessoas cumprimentavam os PMs, era completamente diferente. Hoje, a polícia representa medo e pânico.



Na imagem  pontos da cidade do Rio de Janeiro onde ocorreram disparos de armas de fogo em um determinado período. Clique na imagem e visite o site Fogo Cruzado.

BELAS IDEIAS, NENHUM RESULTADO

Há projetos que nunca saíram do papel. Formulado pelo governo estadual com a chegada do PAC, o chamado Plano de Desenvolvimento Sustentável do Complexo do Alemão virou ficção. O documento menciona a criação de um “centro de apoio jurídico, com Juizado Especial e Defensoria Pública”, um “centro cirúrgico ambulatorial” e também uma “policlínica com consultórios, centro de diagnóstico por imagens e laboratório de análises clínicas”.

A construção de um parque de ciclismo de aventura no alto da Serra da Misericórdia, “onde 1,2 milhão de mudas serão plantadas, com campo de futebol, quadra poliesportiva e pista de skate”, foi interrompida. O esqueleto da obra está lá, lembrando a todos o que poderia ter sido feito, mas não foi.

Antes de ser tomada pela violência, a região do complexo era um importante polo econômico da cidade. As antigas terras do polonês Leonard Kaczmarkiewicz — a quem o povo se referia como alemão — foram ocupadas por grandes empresas depois da abertura da Avenida Brasil, nos anos 1940.

Uma delas era a Cortume Carioca, que chegou a ser uma das maiores indústrias de fabricação de couro do continente, com 3 mil empregados. A invasão do tráfico espantou a maioria dos negócios e fechou pelo menos 20 mil postos de trabalho.

Hoje, o Alemão ocupa o desonroso último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos bairros cariocas. Seus moradores têm expectativa de vida de 64 anos, 16 a menos que a Gávea, na outra ponta do ranking. Dois mundos separados por apenas 25 quilômetros.
 



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