11 de Novembro, 2013 - 11:11 ( Brasília )

Inteligência

Por que a ABIN não está no exterior?


A Revista Veja, em sua última edição, escancarou o uso indevido do aparato de inteligência no governo Lula para espionar jornalistas e veículos de comunicação. Coisas naturais de Estados ditos socialistas, o que entendem que a imprensa, ou principalmente a liberdade de expressão e comunicação, são atentados naturais ao tido “Estado Democrático de Direito”, mas que na verdade escondem uma ditadura velada. Mas como o andar da carruagem no Brasil demonstra, que “toda inteligência é burra”, não me causou surpresa as informações colocadas pela Revista Veja.

Para se ter uma idéia, segue uma parte do texto:

Um documento da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que descreve detalhes de uma queda de braço travada entre um agente e seus superiores durante o governo Lula, tem valor histórico inestimável. Esse documento, hoje arquivado, é a evidência oficial mais forte até aqui de algo que agentes confidenciavam a jornalistas, mas não podiam provar: o governo Lula espionou a imprensa.

O texto revela que houve uma “Operação Mídia”, ação clandestina de espionagem de jornalistas e donos de empresas jornalísticas. VEJA teve acesso ao documento de seis páginas no qual o tenente-coronel André Soares revela a existência da operação ilegal.

Soares trabalhava como analista de informações da agência havia dois anos. Estava lotado na área de contrainteligência, encarregada de vigiar suspeitos de ligação com grupos terroristas e de monitorar a ação de espiões estrangeiros em território brasileiro.

Antes de chegar à ABIN, tinha passado pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE). No documento, o oficial relata que foi convocado à sala do chefe em um fim de expediente em 2004. Lá, recebeu a missão de procurar um determinado informante. Tudo o que o chefe lhe passou foi o codinome do informante, sua profissão, o lugar do encontro e, o mais importante, o título e o objetivo da missão: “Operação Mídia”.

Pelo entendimento, a questão poderia ter sido pior, se a ética no processo de inteligência tivesse falhado pela ótica do servidor “Soares”, um Tenente Coronel do Exército Brasileiro com anos de experiência na área de inteligência e contra-espionagem.

Mas independente deste caso, e dos outros que vazaram nos últimos dias, como por exemplo, a espionagem do Brasil sob embaixadas de diversos países, inclusive Estados Unidos e França, o processo de inteligência, e até mesmo espionagem no Brasil é tratado de forma muito piegas, e sem análise estratégica da situação. Se nós fossemos um Uruguay, com todo respeito ao país irmão, eu até entenderia que o uso do aparato de inteligência poderia ficar para uma segunda prioridade de Estado, mas no caso brasileiro isso é impossível, considerando todas as condicionantes de política externa que o país tem, e também o cenário geopolítico que o mesmo desenvolve no atual momento histórico do mundo.

Mas, considerando todos os cenários da espionagem internacional, e cá entre nós, podem surgir diversos Snowdens nos próximos anos, a prática de inteligência não diminuirá. Considerando os cenários de escassez de recursos naturais / alimentares e energéticos, além das questões de terrorismo internacional, o grande problema é como o Brasil tratará sua inteligência e sua contra-espionagem.

Pois, temos recursos em abundância, os interesses internacionais e realistas focam no Brasil como solução, a criminalidade aumenta dia-a-dia (como diria uma fonte da Polícia Militar do Estado de São Paulo, “nós já perdemos a batalha contra o narcotráfico”), nossas fronteiras estão desguarnecidas, o orçamento de Defesa não dá nem para alimentar a tropa, 2014 não teremos investimentos consideráveis em novos equipamentos militares, a Amazônia é um dos maiores “antros” da bio-espionagem e bio pirataria, o contrabando de armas está cada vez mais escancarado nas fronteiras, a corrupção é alarmante, o país não tem inovação e não é competitivo, e além disso, vive em um passado onde serviço de inteligência significa “porão” ou “Doi-Codi”.

No governo atual, o serviço de inteligência ganhou um bela “geladeira”, pois o seu Plano Nacional de Inteligência ainda está em uma gaveta profunda no gabinete da presidência, e o próprio governo parece desenvolver uma “Vendetta” contra a ABIN, e até mesmo, contra todo aparato do Sistema Brasileiro de Inteligência. Assim, todos os serviços de inteligência, juntamente com a diplomacia brasileira, não têm comunicação e integração, haja vista a troca de informações entre as inteligências policiais e o próprio Itamaraty.

Considerando isto tudo, me pergunto, por quê o serviço de inteligência brasileiro, ABIN, não está no exterior?

É para dar margem de utilização indevida?

É para manter um foco de atuação em problemas domésticos do Estado?

E na hora que der algum problema, joga a culpa nos “arapongas”?

Que lógica perversa é esta?

É notório que ABIN e Itamaraty não se conversam. Um vive desafiando o “status quo” do hibernar na própria atividade, o outro na sua opulência do “caviar”, mas sem resultados efetivos.

Por quê o Brasil tem uma meia dúzia de agentes, ou analistas, em embaixadas, como por exemplo, Venezuela, Argentina, Colômbia e Paraguai?

Por quê o serviço mantinha somente um analista nos Estados Unidos, e o pior em Key West?

Por quê não em Washington e Nova York?

Era para viver no sonho de Ernest Hemingway, que espionava Cuba tomando seu Dry Martini?

Por quê a ABIN não está na França, em Paris e Marselha, prospectando inteligência econômica e tecnológica?

Por quê a ABIN não está em Luanda integrando inteligência na África de língua portuguesa, e capacidades econômicas para os países?

Por quê a ABIN não está o Oriente Médio, principalmente em Israel para avançar nos desafios de inteligência tecnológica e construção de cenários estratégicos sob a ótica de recursos energéticos, e problemas de segurança internacional?

Por quê a ABIN não está na China, considerando que somos o maior hipermercado de alimentos do mundo? Bom, a lista é grande.

Na ABIN, existem mais de 800 analistas, que por sinal, nos dois últimos concursos, a agência recebeu quadros com excelente capacidade intelectual e técnica, assim, por quê perder tempo com esta “inteligência” própria em desafios domésticos, e não internacionais?

Será que o planalto não quer transformar o Brasil em uma potência, considerando que sua própria natureza já o transforma? Que medo é esse de inteligência e espionagem?

Por que o governo não analisa de forma realista a questão? O Brasil é alvo todos os dias de inteligência e espionagem por parte de outras potências, que por sinal, cá entre nós, quem é inimigo do Brasil? Nem a Argentina. Assim, somos espionados somente por “amigos”, coisas naturais da política internacional.

Uma vez entrevistei para este Blog EXAME o Embaixador Americano, e ex-espião da CIA durante 25 anos nos serviços clandestinos, Henry A. Crumpton, que lançou no Brasil sua obra “A Arte da Inteligência”, pela editora Novo Século. O mesmo foi categórico, “líderes dos EUA têm um apetite insaciável por adquirir conhecimento sobre seus pares estrangeiros. Querem conhecer suas políticas e também suas personalidades. Querem compreender seu caráter.

A CIA dedica tempo e esforço substanciais para atender a essas exigências. Líderes estrangeiros desfrutam de grandes e luxuosas suítes de hotel. Isso vem junto com o cargo, com as expectativas de hierarquia e protocolo. Também preferem hotéis próximos de suas embaixadas. Isso explica a tendência de os hotéis mais caros se instalarem numa área delimitada. Os serviços de inteligência adoram a previsibilidade”. Fico imaginando que no dia que a Presidente Dilma, “cobrou geral” de Obama na ONU, o mesmo já sabia com antecedência. E o mais interessante, os Estados Unidos deram resposta à Alemanha, mas Dilma ainda está esperando…….

Espionagem e inteligência, além da contra-espionagem, são temas que devem ser tratados com realismo, e não com uma visão de “esquerda caviar” como diria Rodrigo Constantino, que por sinal fez um artigo interessante com o título, “E você preocupado com a espionagem do Obama, seu tolinho…” 

Se o Governo Federal, além do Congresso e Senado, não quiserem insistir no “pano de manga”, inteligência X Estado X Ditadura, manda os agentes para o exterior para produzir inteligência efetiva para o Estado, e principalmente para a Nação. A segurança agradece, a inovação pode ganhar valor, e a competitividade nacional não fica ameaçada. E cá entre nós, reduz custos operacionais de inteligência que não levam a nada no serviço doméstico.

Como diria Ernest Hemingway, em suas diversas aventuras e espionagens em Cuba: “na condição de pescador, Fidel não conseguia vencer seu próprio torneio de pesca, muito embora ele fosse manipulado”.